Premium Arquitectura fundida

Uma consequência inevitável da longevidade enquanto figura pública é a promoção automática a um escalão superior de figura pública: caso se aguentem algumas décadas em funções, deixam de ser tratadas como as outras figuras públicas e passam a ser tratadas como encarnações seculares de sábios religiosos - aqueles que costumavam ficar quinze anos seguidos sentados em posição de lótus a alimentar-se exclusivamente de bambu antes de explicarem o mundo em parábolas. A figura pública pode não desejar essa promoção, e pode até nem detectar a sua chegada. Os sinais acumulam-se lentamente. De um momento para o outro, frases suas começam a ser citadas em memes inspiradores no Facebook; há presidentes a espetar-lhes condecorações no peito, recebe convites mensais para debates em que se tenciona "pensar o país". E um dia, subitamente, a figura pública dá por si sentada à frente de uma câmera de televisão, enquanto Fátima Campos Ferreira lhe pergunta coisas como "Considera-se uma pessoa de emoções?" ou "Acredita em Deus?".

Acontece a todos e aconteceu nesta semana a Álvaro Siza Vieira, a quem a RTP 1 dedicou um programa inteiro chamado Arquitecto dos Sonhos, no qual a entrevistadora apresentou uma versão bastante contida do seu procedimento habitual, que consiste em interrogar qualquer pessoa não como alguém que se destacou no seu ramo de actividade específico, mas como um co-autor secreto de O Labirinto da Saudade. Praticamente não houve perguntas sobre "Portugal". Em nenhum momento foi mencionado o mistério da "identidade lusitana". Siza Vieira limitou-se a ser fustigado com questões mais esotéricas, do género: "Há em si um desejo de se realizar fundindo-se no anonimato dos homens?" É o tipo de questão que pode levar qualquer pessoa pouco inclinada a fundir-se no anonimato dos homens a rever imediatamente a sua posição, mas o arquitecto comportou-se sempre como se fossem as perguntas mais razoáveis do mundo, e conseguiu responder a todas fumando apenas setenta cigarros. O melhor momento do programa surgiu no fim, já depois dos créditos finais, quando o entrevistado comentou o desconforto da cadeira em que estivera sentado, e a entrevistadora concordou entusiasticamente. "São duras como o raio! Foi o senhor que desenhou isto?" Siza confirmou. "Desenhei-as para o Pavilhão de Portugal. Era para as pessoas não ficarem muito tempo a ocupar os lugares."

Ler mais

Exclusivos