Não lhes chamem putos, aos que já perceberam tudo

Não lhes chamem putos, aos que na sexta-feira desfilaram em ruas de 120 países do mundo lutando pelo clima no futuro. Não lhes chamem putos, não porque isso os desvalorize - porque o são, novos e imaturos, definição de puto -, mas antes porque isso nos menoriza. Se eles são putos, o que somos nós?

Eles fizeram greve às suas escolas e às aulas onde deviam estar e vieram para a rua lutar. Nós continuamos a vir trabalhar todos os dias nos nossos carros a combustíveis fósseis, entramos nos nossos edifícios climatizados, subimos de elevador, fomos à máquina do café tirar um que nos chega num copo de plástico, mais a garrafa de água que abrimos e deitamos fora. E talvez até tenhamos comido um bife ao almoço. Ou uma tosta de abacate. Tudo isto sem qualquer problema de consciência ou qualquer noção do pequeno mal que há de transformar-se em grande.

Esse será o mal deles mais do que o nosso. É por isso que, no que ao clima diz respeito, os jovens que ontem se manifestaram são bastante mais maduros do que todos os outros de nós que continuamos a assobiar para o lado. Os que achamos que tudo se vai resolver. Os que achamos que nada depende de nós. Para já, a sabedoria destes jovens começa aí: eles já sabem que muito depende deles. E estão dispostos a lutar por isto. Isto que é o futuro deles. Um ponto é tudo.

Até onde estão dispostos a lutar não sabemos. Mas talvez isso seja determinante. Todas as gerações tiveram o seu Maio de 68, mais ou menos alargado - das elites para o povo. Mas o que está agora em causa não se pode acantonar numa luta juvenil como eram as lutas sociais ou culturais. Esta é uma luta civilizacional. Por isso talvez não cheguem manifestações com cartazes fixes ou frases rapidamente adaptáveis para soundbytes. Talvez até essas frases nem ajudem. Porque nos apaziguam a alma e transformam em folclore o que é sério. Que chamemos de putos aos que as organizam também não ajuda.

Há um enorme fosso entre o que é preciso fazer em relação ao clima e o que os governos, as empresas e as comunidades estão dispostos a fazer. Como diz António Guterres no artigo que hoje publicamos, "apesar de anos de conversas, as emissões globais estão a atingir níveis recordes e não mostram sinais de abrandar". Os dados estão lançados: a concentração de dióxido de carbono na atmosfera é a mais alta em três mil anos, os últimos quatro anos foram os mais quentes desde que há registos e as temperaturas aumentaram quatro graus nos polos, o que originou o aumento do nível da água do mar, a morte dos corais. Tudo isto causa mudanças na saúde humana, a poluição do ar e um clima a que não estamos habituados, nem nós nem os nossos meios de subsistência na Terra, nomeadamente a água e a agricultura.

Isto é, sim, o fim do mundo como o conhecemos. Desenganem-se os que acham o contrário. E mesmo os miúdos que desfilam na rua. O que causou uma depressão a Greta Thunberg, a miúda sueca de 16 anos que faz há vários meses uma greve pacífica todas as sextas-feiras em frente ao Parlamento sueco, é mesmo razão para uma depressão e não apenas numa miúda com tendências autistas...

Autista está o mundo que não percebe o que está a acontecer. Há uma distância incrível entre o que nas ruas é pedido e o que a classe média urbana do mundo está disponível para fazer. A classe média que vota, a que anda de carro e continua a consumir bifes e a comprar roupa como se não houvesse amanhã. Esta frase, que tem traduções em várias línguas, talvez nunca tivesse sido tão verdadeira como na questão do ambiente. Porque é assim que parte de nós vive, trabalha e age. Que estes miúdos na rua ajudem a despertar as nossas consciências.

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