O Papa português que era médico e aparece na Divina Comédia

Foi breve o pontificado. Eleito Papa em setembro de 1276, João XXI morreu em maio do ano seguinte, numa derrocada da câmara nova que mandara edificar junto do seu palácio em Viterbo.

Basta relembrar que João XXI, que viveu entre 1215 e 1277, foi o único Papa português em dois milénios de cristianismo para se perceber que tal "é um dado do maior significado na história de Portugal", afirma o historiador Saul Gomes. O professor da Universidade de Coimbra, doutorado em História Medieval, acrescenta que "João XXI é o exemplo típico de um dos "Papas de Viterbo", num tempo em que declinava o conflito Papado-Império".

Nascido Pedro Julião, em Lisboa, foi arcebispo de Braga. Mas é além-fronteiras que ganha protagonismo e o novo nome de Pedro Hispano, a ponto de, como destaca Saul Gomes, se tornar "um homem dos círculos intelectuais universitários da Igreja, um magíster, sábio nas Artes e na Medicina, o que lhe abriu as portas dos palácios pontifícios e os conhecimentos e as relações necessárias à sua escolha para o cardinalato pelo esclarecido papa Gregório X".

Foi breve o pontificado. Eleito Papa em setembro de 1276, morreu em maio do ano seguinte, numa derrocada da câmara nova que mandara edificar junto do seu palácio em Viterbo. Como síntese, e seguindo as palavras do historiador, "João XXI deu continuidade às linhas de governação política consagradas por Gregório X e Inocêncio IV, mormente no Concílio de Lyon de 1274. As relações com os ortodoxos e a continuidade da defesa das conquistas cristãs na Terra Santa dominaram o essencial dos esforços de governação da Igreja romana desse tempo. Coube a João XXI, ainda, legitimar a iniciativa da condenação, pelos bispos das respetivas dioceses, do que ensinavam certos mestres de Artes, Gramática, Lógica e Filosofia Natural nas universidades de Paris e de Oxford".

Consequência de ter sido tão curto, o pontificado de João XXI não trouxe grandes benefícios políticos ou religiosos a Portugal e até se manteve a excomunhão de D. Afonso III. Sublinha, aliás, Saul Gomes que "as relações entre o Trono português e a Igreja conheceram momentos bastante conturbados ao longo do século XIII. Penas de excomunhão e de interdito do Reino e dos seus monarcas foram brandidas com alguma frequência pelos Papas desse século". Depois, com D. Dinis, que assumiu o trono em 1279, "assinar-se-ão várias concordatas e reforçar-se-á uma diplomacia de compromissos mútuos entre Portugal e Roma, situação de abertura da qual emergirão as condições favoráveis à fundação régia e ao reconhecimento papal do Estudo Geral ou Universidade, em 1290", acrescenta o académico, que é também autor de uma biografia de D. Afonso V, o Africano.

"Por outro lado, apenas se contam nove cardeais portugueses para os séculos medievais e um antipapa, Maurício Burdino, arcebispo de Braga, que tomou o nome de Gregório VIII (1118-1121). No final da Idade Média, os interesses atlânticos portugueses pesaram na Santa Sé, recolhendo-se desta um conjunto de bulas muito favoráveis ao reino que renovava, com a tomada de Ceuta, em 1415, uma política de (re)conquistas cruzadísticas de territórios ultramarinos", conclui Saul Gomes.

Será de facto, finda a Idade Média, que a aliança entre Portugal e a Igreja Católica trará mais frutos, com a expansão do cristianismo a acompanhar os descobrimentos. Mas se Espanha teve dois Papas nos séculos XV e XVI, Portugal não voltou a ter nenhum e por isso Pedro Hispano é uma figura que faz parte do imaginário português, mesmo que muitos só conheçam da sua vida dois factos: ter sido o único Papa nascido em Portugal e ter morrido de forma acidental. Dá nome hoje a hospitais e avenidas e teve direito não há muitos anos a uma biografia pelo historiador Armando Norte, onde a par do eclesiástico também se fala do médico, do filósofo e do teólogo, um sábio de tal modo admirado na sua época que Dante o incluiu no Paraíso na sua Divina Comédia.

Para a Igreja portuguesa, Pedro Hispano é uma referência, mesmo que longínqua. "Quando se fala de João XXI a um clérigo, creio que todos sabemos que se trata do primeiro e até agora único Papa português. Pode ser que saibam que o seu pontificado durou apenas alguns meses e mesmo que se trata de Pedro Hispano. Pelo menos os que foram a Itália e passaram em Viterbo recordam o seu túmulo e terão presente que foi nessa cidade que habitou enquanto Papa. No que me diz respeito, gostava de chamar a atenção de que estudou na Universidade de Paris, ao mesmo tempo que o grande teólogo S. Tomás de Aquino e também que S. Boaventura. Um dos seus mestres foi S. Alberto Magno", comenta o padre José Manuel Pereira de Almeida, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa.

Acrescenta o padre e professor, também especialista de Anatomia Patológica: "Na minha qualidade de médico, não queria deixar de dizer ainda que Pedro Hispano aliava o conhecimento da filosofia ao da medicina do seu tempo, de forma a poder ser considerado um dos mais eminentes cientistas portugueses, como muito melhor que eu expôs, aqui há anos, D. Manuel Clemente, a convite do meu colega e amigo Faustino Ferreira, aquando da apresentação da edição em Portugal da sua obra de medicina Thesaurus pauperum."

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