O futuro em suspenso

A entrada neste século XXI tinha um catálogo de desafios e perspetivas que definiam um programa de exigências, com projetos submetidos ao conhecimento dos povos pelos numerosos meios de informação, discussão, e por vezes avanços, sem que o desacordo levasse a esquecer os desafios. Alguns interessavam particularmente à Europa, a começar pelo mar, que é de interesse fundamental para Portugal, e que se transformou num espaço militarmente disputado, começando por ganhar importância a China, que pretende recuperar as águas que deixou de navegar antes de o projeto do infante D. Henrique ali chegar.

Recentemente, Xi Jinping declarou que o Exército chinês em 2050 terá uma "classe mundial", uma mensagem que pareceu especialmente destinada cortesmente para os EUA e este, com o caso de Taiwan, progressivamente a perder o reconhecimento internacional, também recebeu sofrendo o primeiro grande sinal da maritimidade da China.

Na Europa, a saída do Reino Unido da União inclui a defesa no programa da União, ao mesmo tempo que os EUA declaram que a NATO precisa de ver aumentadas as prestações europeias. Entretanto, os mares voltaram a conhecer a pirataria marítima, e foi muito oportuno, brilhante e útil, o encontro internacional organizado em Portugal no ano passado, mas pouco assumido pela informação pública, embora os interesses marítimos portugueses estejam a merecer atenção científica e política das instituições com esse objetivo. O problema climático tornando evidente o começo da destruição da "biodiversidade" tem relação com a causalidade das inquietantes migrações, atinge a estabilidade social desafiando os governos para encontrarem uma solução que evite a violação dos deveres humanitários: a evidência tem sido a de "acelerar o respeito pela consciência e a adoção de divisões correntes", e não de fugir do Tratado de Paris.

Na altura em que o interesse de ambos os Estados peninsulares sobre a chamada América Latina cresce, designadamente para equilibrar as exigências das economias mas também da cultura, enfraquece o recurso democrático de passivo inquietante, não podendo esquecer-se a construção do muro a tentar impedir as migrações que procuram ter um futuro nos EUA, com o respetivo presidente, atento apenas talvez ao interesse de se manter como parceiro dominante para a economia latino-americana, com especial importância do México e do Brasil, este hoje a exigir uma recuperação de bem-estar político e social.

Não é possível deixar de procurar descobrir e completar os desafios de futuro com que entramos no século XXI, em anarquia com reflexos pessimistas no que a Editora Âyiné (Belo Horizonte - Veneza) chamou Biblioteca Antagonista, embora não faltando organismos responsáveis que se esforcem por criar uma governança global confiável.

Aconteceu, porém, este ataque da pandemia que vai eliminando os seres vivos suspendendo os projetos que procuravam obedecer à justiça natural, e até reduzir as maiores inquietações ao tema de Joseph S. Nye Jr. sobre "o paradoxo do poder americano", avaliando "porque é que a única superpotência mundial não pode atuar isoladamente". A resposta foi oportunamente feita por Nixon, recordado pelo autor lembrado, quando afirmou que "a única altura na história mundial em que tivemos períodos alargados de paz foi quando existiu um equilíbrio de poder. E é quando uma nação se torna infinitamente mais poderosa em relação aos seus identificados competidores que surge o perigo de guerra". Nye é "cético relativamente a isso". A nova inquietação é que todos os projetos para o século XXI ficaram paralisados pela prudência contra a pandemia, que levou a crise a todos os meios e desejados futuros que existiam.

O Papa Francisco pregou só e rezou com evidência. Foi fascinante como um só sacerdote, rezando a missa sobre o mundo, fazendo lembrar a oração de Chardin, teve uma autoridade de apelo aos deveres dos povos que não conseguem sempre o mesmo resultado para a solidariedade mundial a que estadistas, e eleitores desorientados, estão desafiados. É inquietante que o dirigente da proclamada maior potência mundial, também vítima da pandemia, intervenha frequentemente lembrando o antigo e esquecido Estado espetáculo, do qual faz muitos anos, logo disse Martin Wight, as ideias, as causas, as afirmações, são menos do que elementos de uma imagem da situação, mas sim das ambições dos donos do Estado espetáculo, então em circulação, conduta esquecida do aviso de Bismark contra as leviandades. A desordem, que os competidores como emergentes ainda não esquecem, embora todos atingidos pela pandemia, é uma perigosa leviandade.

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