Democracia antecipatória

Sendo a covid-19 mais um acelerador de tendências da globalização do que a fundação de um novo mundo, há três que merecem um destaque particular: o estigma intergeracional, a infodemia e a insegurança alimentar. A democracia ou é antecipatória ou corre o risco de submergir às torrentes.

Dizia há dias Frank M. Snowden, historiador em Yale e autor do magistral Epidemics and Society: From the Black Death to the Present, que a covid-19 era a primeira pandemia da globalização, funcionando todas como um espelho da natureza das nossas sociedades, embora esta implique uma preparação mais sofisticada e alargada para prevenir próximos choques no futuro.

Uma parte substancial da fragilidade exposta aos efeitos imediatos da pandemia resulta, como aqui tenho defendido, de fatores preexistentes, como a fragmentação da ordem internacional e a ineficácia de muitas organizações multilaterais; o regresso às receitas nacionais como projeto ideológico de sucesso eleitoral; uma explosão demográfica hiperconcentrada em grandes metrópoles que condicionam respostas e recursos em saúde pública, mobilidade e habitação; um determinismo sobre o crescimento económico imparável, como se a envolvente ambiental não se ressentisse; uma globalização carente de regulação, com cadeias de abastecimento vulneráveis; o acentuar das desigualdades económicas, laborais e geracionais fruto da revolução tecnológica e da iniquidade de modelos económicos; uma mistura explosiva de teorias da conspiração que exercem uma pressão destruidora sobre a ciência, o jornalismo e a política.

Todos estes sintomas estavam identificados antes da pandemia, foram dissecados académica e empiricamente, alvos de progressivas correções políticas, tentativas mais ou menos consequentes de reverter alguns efeitos perversos ou de acomodar o melhor possível a avalanche. Mais do que um fundamento totalmente revolucionário, a covid-19 deu-lhes ângulos novos, envoltos na ansiedade latente que domina a análise e acelera a responsabilidade dos decisores. A covid-19 é, por estas razões, um brutal murro no estômago, não a origem de um novo mundo.

Isto não significa que algumas daquelas tendências da globalização não mereçam um olhar mais cirúrgico, ligando-as a outras igualmente relevantes, acrescentando mesmo algumas que entretanto emergiram e que justificam uma antecipação pelas democracias. O seu levantamento, acompanhamento, estudo, debate, interpretação e adaptação ao processo de decisão política e económica ditará o nível de capacitação das nossas sociedades para sair o melhor possível dos atuais bloqueios e enfrentar, com outra robustez, crises futuras. Porque haverá sempre uma crise à espreita. Assim, proponho olharmos para três tendências mais ou menos visíveis antes, durante e inevitavelmente depois da pandemia que vivemos: o estigma geracional entre novos e velhos, a perigosa torrente de infodemia, e a insegurança alimentar.

Comecemos pela última. As Nações Unidas estimam que a covid-19 possa atirar para a fome 265 milhões de pessoas ao longo deste ano. Uma das explicações está no fecho do comércio, mercados ou venda informal em espaços públicos, o que representa 80% do consumo de bens alimentares nos países mais pobres. Restrições duradouras nestas rotinas criam ruturas na procura e falências na oferta, disparando o desemprego e expondo a existência (ou a falta) de redes de assistência social básica para enfrentar outra calamidade social. Se pensamos apenas em países africanos ou asiáticos para ilustrar esta realidade, enganamo-nos no quadro: basta ver o recurso maciço aos bancos alimentares que os norte-americanos estão a protagonizar. Se lhes acrescentarmos o fecho de fronteiras e a suspensão das cadeias de abastecimento assentes na importação de bens essenciais, abrimos caminho à subida em flecha dos preços e a novas revoltas sociais. Foi isto que, em 2007-2008, esteve na base de crises políticas que degeneraram em conflitos abertos e prolongados do Norte de África ao Médio Oriente.

A maior parte dos países, nestas e noutras geografias, são muito dependentes de importações agrícolas, uma forma excessiva de delegar a segurança mais elementar em fluxos comerciais ininterruptamente abertos e cadeias globais com grandes margens para operadores, cada vez mais concentrados nuns poucos gigantes industriais. Esta escala global pode favorecer os preços, mas não garante segurança em períodos excecionais. Um acerto desglobalizador pode favorecer cadeias de abastecimento mais próximas, previsíveis e seguras, o que não implica qualquer fechamento nacionalista, antes pode ser um mecanismo de reindustrialização regional capaz de fortalecer um mercado comum (como o europeu), com regras mais saudáveis, criando novas fileiras de competitividade económica geradoras de emprego. Preparar esta regionalização industrial integrada pode ser a receita que favorece a autonomia, a competitividade e a coesão social de que precisam alguns espaços geográficos, tremendamente vulneráveis nesta pandemia.

Já a mistura explosiva de teorias da conspiração sobre saúde, política e tecnologia transformou os nossos telemóveis num inferno. Nos últimos meses fomos inundados de teses rocambolescas sobre mezinhas, milagres e medicamentos que tudo curam, inclusive um vírus mortal. Se já estávamos confinados ao choque entre desinformação e jornalismo, boato e verdade, difamação e pudor, práticas que elegeram Trump, Bolsonaro e ajudaram ao Brexit, os 1,6 biliões de utilizadores do WhatsApp têm estado entretidos a reter a milésima teoria da conspiração ou a apagar como podem o lixo que recebem, muito dele pondo vidas em risco, sendo também um perigo para a saúde pública.

Tal como a ciência tem lutado para se impor no processo de decisão político, também a comunicação social teve uma prova de confiança maciça, traduzida em recordes de audiência. Mas não chega. A rentabilização não acontece à borla, o diálogo com as tecnológicas não avança, a regulação e a lei sobre práticas vampirinas são ineficazes e, tal como na política, quando o vazio amadurece e resiste, os abutres atiram-se com o que têm. Se o declínio da imprensa tradicional, misturado com a perversidade noticiosa da redes sociais, associado a uma preguiça intelectual de vários auditórios já era sintoma alarmantes da saúde das democracias, a infodemia em curso aumenta abruptamente a pressão, convocando legisladores, reguladores, tecnológicas, empresas de comunicação social e cidadãos num assomo de consciência coletiva antes que seja tarde.

O terceiro ponto liga o estigma do envelhecimento ao confronto inusitado da juventude com restrições à liberdade, certamente uma novidade nas suas tenras vidas. Sabíamos que o primeiro existia como uma das falências morais da sociedade moderna, mas a pandemia não excluiu apenas os mais velhos da retoma à normalidade progressiva, estigmatizou-os socialmente de forma particularmente brutal. São quem mais sofre, quem tem menos defesas, autonomia e voz. Aliás, são quem politicamente tem assegurado níveis de participação eleitoral estáveis, tendencialmente em forças moderadas, esteios das democracias. A sua exclusão da vida pública precisa de atenção redobrada, quer do ponto de vista da proteção social que merecem, quer dos direitos que inviolavelmente usufruem.

Já os mais jovens, afastados dos mais velhos e confinados a um mundo de restrições desconhecidas, podem permanecer apáticos em face da vida democrática, perpetuando abstenções, esvaziando o escrutínio, descosendo a solidariedade dentro das comunidades e da cadeia de valor que qualquer espaço público democrático precisa. Há mais vírus no ar além da covid.

Investigador universitário

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