CMTV ≠ Chris Morris TV

O que é sátira? Pode ser muitas coisas, inclusive começar uma coluna de jornal com uma solene pergunta retórica, desde que a intenção deliberada seja satirizar o hábito de começar colunas de jornal com solenes perguntas retóricas. (O efeito pode ser reforçado, para deixar toda a gente descansada, com uma segunda frase entre parêntesis perguntando "O que é uma pergunta retórica?").

Mas a chave é a intenção, como explicaria um texto não satírico, e ser confundido com o alvo que satiriza é um risco que qualquer sátira competente tem obrigatoriamente de correr. Algumas formas de sátira são tão competentes na cristalização de certos objectos e práticas culturais que acabam por criar um estranho efeito de refracção, em que manifestações futuras dos alvos da sátira passam a ser legíveis apenas como aquilo que já foi satirizado.

É por isso que o facto de inúmeras notícias do jornal satírico The Onion terem sido, ao longo dos anos, lidas como "verdadeiras" é menos interessante do que o ritual comunitário que consiste em partilhar notícias oficiais com a legenda "not The Onion". Quando, na manhã de segunda-feira, um repórter da CMTV à porta do Tribunal de Leiria perguntou a um transeunte "É nestes casos que deveria ser feita justiça popular?" e o transeunte respondeu "Sim senhor. Entregá-los ao povo", o que se passou não foi sátira, porque nenhum dos intervenientes tinha qualquer intuito satírico, mas apenas algo que podia ser partilhado com o comentário "not Brass Eye".

Brass Eye, transmitido em 1997 (com um episódio especial em 2001) pelo Channel 4, foi uma criação de Chris Morris. Três anos depois de The Day Today, um programa semelhante (escrito em colaboração com Armando Iannucci, autor de Veep e The Thick of It) que satirizava os noticiários de horário nobre, Brass Eye levou a ideia a outro nível, incluindo entre os seus alvos os programas de investigação de temas controversos, os debates em estúdio entre membros do público, e os depoimentos de peritos ou celebridades avulsas sobre os assuntos "do momento". Muita da atenção negativa que a série atraiu na altura centrou-se nestes convidados involuntários, enganados pela produção e convencidos a ler textos absurdos.

Num episódio dedicado ao flagelo das drogas, figuras públicas como Rolf Harris e Bernard Manning explicaram inocentemente perante as câmaras os perigos de uma anfetamina imaginária chamada cake, que afectava a parte do cérebro conhecida como fagote de Shatner e que levava os consumidores a "chorar toda a água do seu corpo" e morrer de desidratação. Um deputado Conservador, David Amess, ficou tão preocupado que levou o tema ao Parlamento, perguntando o que estava o Governo a fazer para proteger os jovens.

Mais do que estas ciladas, a principal virtude da série era a atenção ao pormenor e o modo como acomodava tantas variedades de crítica cultural em sketches de poucos minutos. Brass Eye conseguiu captar na perfeição todos os elementos da gramática do jornalismo televisivo - um idioma cujos ritmos e inflexões absorvemos inconscientemente, quase desde o útero -, desde o uso de gráficos digitais, à adopção um tom específico para produzir a sua própria autoridade, à maneira como a escala de um problema social pode ser deturpada e empolada pela forma como é discutida, ao hábito de reduzir depoimentos de peritos a veredictos binários sobre algo ser "bom" ou "mau".

Um episódio dedicado aos "abusos da ciência" desmantelou sistematicamente a relação turbulenta do jornalismo televisivo com probabilidades e incertezas, em que números são muitas vezes apresentados sem qualquer contexto - a cada segmento, o apresentador exigia do convidado em estúdio uma resposta simples: "Qual a percentagem de má ciência nesta ciência?"

O programa despediu-se em glória com o infame especial de 2001 dedicado à pedofilia, transmitido numa altura em que o Reino Unido vivia um dos seus cíclicos pânicos morais, na sequência de dois casos mediáticos envolvendo o abuso ou o assassínio de crianças (um tablóide liderava uma campanha para divulgar nomes e endereços de criminosos com cadastro). "Paedageddon!" começa uma reportagem "no local", à porta de uma prisão, onde uma multidão em fúria aguarda a libertação de um criminoso tetraplégico. Peças posteriores incluíam imagens de câmaras de segurança mostrando um pedófilo a percorrer as ruas de Londres disfarçado de escola primária para atrair crianças, um depoimento científico sobre o facto de os pedófilos terem "mais genes em comum com os caranguejos do que as pessoas normais", e um perplexo Gary Lineker a repetir frases de calão inventadas que os pedófilos supostamente usavam entre si para trocar informação. No fim do programa, a multidão lá consegue atar o pedófilo a uma efígie gigantesca de um pénis de palha, puxando-lhe fogo e deixando-o a arder, enquanto o repórter relata em tons ofegantes que "a atmosfera aqui é electrizante... há um verdadeiro sentido de comunidade, uma sensação de alívio e de um trabalho bem feito". Apenas um daqueles casos em que deveria haver justiça popular, e, portanto, houve.

Como seria de esperar, um programa dedicado a satirizar histeria mediática provocou uma avalanche de histeria mediática. Uma ministra do governo de Tony Blair foi à televisão acusar o episódio de ser "indizivelmente doentio", antes de confessar não tê-lo visto. Vários tablóides formaram filas ordeiras para denunciar Chris Morris como "perverso", "vergonhoso" e "o homem mais odiado do Reino Unido". Um colunista divulgou o seu número de telefone, incentivando os leitores a dizer-lhe o que pensavam. A melhor reacção de todas terá sido a do Daily Mail, que atacou o escândalo de fazer comédia sobre pedofilia numa página, e noutra publicou fotos das filhas da Duquesa de York (na altura com 11 e 13 anos) tiradas clandestinamente numa praia, com a legenda "As princesas de biquíni". (Not the Onion.)

Nas duas décadas desde Brass Eye, os modelos informativos globais fragmentaram-se de tal maneira que um programa semelhante não poderia ser executado nos mesmos termos, por um lado porque até os poucos formatos que continuam a manter zelosamente a mesma postura de prestígio deixaram de se expressar no idioma universal que Morris satirizou e, por outro, porque uma parte substancial da informação televisiva mais popular abdicou tacitamente da própria autoridade, sem ter perdido influência. O corolário deste desenvolvimento - em que a influência continua a ser exercida, sem autoridade - é que o medo do ridículo deixou de ser eficaz como instrumento dissuasor. Um repórter com um microfone em que se vê um logótipo só precisa de estar à porta de um tribunal a interagir com um "membro do público" para que o que aconteça a partir daí faça parte da categoria pretendida. O resto é o equivalente a uma melodia trauteada. A gramática completa do jornalismo televisivo é reproduzida: para transmitir algo que não é informação, mas parece - para fazer algo que parece sátira, mas não é.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG