Deixar ou não os filhos com os avós nas férias de verão? A decisão natural que passou a ser um dilema

As férias grandes, cortesia do verão, três meses inteirinhos, o triplo daquelas a que os pais têm direito, neste ano estão ensombradas pela pandemia de covid-19, que até o tempo com os avós, que devia ser considerado património imaterial da infância em particular e da humanidade em geral, põe em causa. Falámos com um pai, uma mãe e um pediatra.

Todos os anos, as férias de verão dos miúdos são um quebra-cabeças para os pais, reduzidos a míseros 22 dias úteis das ditas. Mas quando existem avós, e felizmente existem durante cada vez mais tempo, o quebra-cabeças é mais fácil de resolver.

Se, durante o ano, são um apoio fundamental, como revelava o estudo "A prestação de cuidados pelos avós na Europa", da Fundação Calouste Gulbenkian, apontando Portugal como um dos países em que os avós mais cuidam, diariamente, dos netos, nas férias são a grande solução.

No entanto, este ano, a solução tornou-se um problema para muitas famílias que, desde que a pandemia começou, veem a mensagem repetida até à exaustão: os mais velhos são mais vulneráveis à covid-19 e o contacto entre avós e netos deve ser evitado e rodeado das maiores precauções. Tornou-se pois inevitável pensar duas vezes, ou mais, antes de tomar a decisão de lhes deixar as crianças a cargo.

Luís Milhano, que vive em Almada e tem três filhas, de 14, 11 e quatro anos, que costumavam passar dois meses com os avós maternos em São Martinho do Porto, onde estes têm casa, decidiu alternar as férias com a mulher para poderem ficar o máximo de tempo possível com as filhas e assim salvaguardar os sogros/pais.

"Entendemos que, não havendo vacina e tendo em conta a nossa forma de estar que é muito abraços e beijinhos com os avós, teríamos que arranjar uma alternativa quando começassem as fériasde forma a que as miúdas não fossem para os avós, por muito que nos custasse a todos", diz Luís Milhano.

Apesar de ambos terem estado em teletrabalho até junho e neste momento estarem em regime misto (parte da semana presencial e parte à distância, também alternados) e as filhas terem estado as três sempre em casa, com a escola virtual, as duas mais velhas, e o "Canal Panda e o Zig Zag, a mais nova", Luís e a mulher decidiram não arriscar.

"Entendemos que, não havendo vacina e tendo em conta a nossa forma de estar que é muito abraços e beijinhos com os avós, com os tios, com os primos, teríamos que arranjar uma alternativa quando começassem as férias, entre mim e a minha mulher, de maneira a que as miúdas não fossem para os avós, por muito que nos custasse, a nós, a elas e aos meus sogros, por uma questão de prevenção", diz.

Tanto os sogros como os pais de Luís, que antes da pandemia eram o apoio diário das netas, para dar o almoço e ir buscar à escola, sentem-lhes a falta, mas compreendem a decisão. "É difícil porque os netos acabam por ser uma alegria, uma forma de se manterem ativos e de compensarem a solidão, mas neste momento é preciso salvaguardá-los. Apesar de termos muito cuidado, saímos para ir às compras e ir trabalhar e o risco é real", diz Luís.

"Para os meus pais está a ser ótimo, o facto de estarem com o neto torna-os mais ativos e acho que em momento algum sentiram receio, porque sabiam dos cuidados que tivemos sempre a nível familiar e em casa", diz Patrícia, que vive em Lisboa, e espera que o filho aguente um mês inteiro longe.

Patrícia Coelho está ciente dos riscos, mas ela e o marido fizeram uma escolha diferente. O filho, de oito anos, que, "desde pequenino", passa 15 dias no Algarve, onde vivem os avós maternos, este ano ficará um mês.

"Em alturas normais, recorremos a campos de férias ou a outros programas e atividades de tempos livres, mas este ano, além de as ofertas serem poucas, não nos ofereciam muita confiança e, portanto, o que decidimos foi que passasse mais tempo com os meus pais."

Em confinamento desde o início de março, com a escola à distância, sem contacto com os amigos e com os pais em teletrabalho, Rodrigo, na opinião de Patrícia e do marido, não constituía risco para os avós. "Não saíamos de casa e, se era necessário ir à rua, tínhamos imensos cuidados, quando chegávamos tirávamos a roupa e os sapatos e tomávamos banho, portanto, a probabilidade de contágio era mínima. Além disso, para os meus pais está a ser ótimo, o facto de estarem com o neto torna-os mais ativos e acho que em momento algum sentiram receio, porque sabiam dos cuidados que tivemos sempre a nível familiar e em casa", diz Patrícia, que vive em Lisboa, e espera que o filho aguente um mês inteiro longe.

"Para ele também é sempre uma experiência fantástica, mas este ano o que notamos é que sente a falta da liberdade dos outros anos e de estar com outras crianças. Os meus pais são muito rigorosos com esta situação da covid e não há esplanada nem passeios à noite, não está com os amigos, só vai à praia de manhã e uma que garanta o distanciamento social e portanto há menos diversão, apesar de os meus pais serem muito ativos e brincarem muito com ele. Vamos ver."

"Se a criança não está na escola, não está num contexto infeccioso significativo e está só com os avós não me parece que exista um risco grande", diz o pediatra Hugo de Castro Faria.

Na consulta do pediatra Hugo de Castro Faria, da CUF Descobertas, tem sido muito frequente a questão do contacto entre as crianças e os avós, no contexto atual de pandemia e para o especialista não existe uma resposta simples e direta, existem é vários fatores a ter em consideração.

Por um lado, é preciso ter em conta o papel fundamental que os avós têm no crescimento, no desenvolvimento afetivo e psicológico e na educação das crianças e na importância que estas têm para a felicidade e bem-estar dos avós, "que são figuras de referência muito importantes pelo que significam em termos de experiência de vida e pela disponibilidade que têm para lhes dar tempo de qualidade. Este é um valor que não podemos esquecer nesta fase, em que obviamente a grande preocupação é proteger os chamados grupos de risco para infeção mais grave pelo coronavírus, em que muitos avós estão incluídos e isso também tem que ser tido em conta", diz o médico.

Daí que, para Hugo de Castro Faria, seja essencial avaliar cada situação em particular. "Se os avós têm risco acrescido pela idade e por comorbilidades que possam existir, é importante que se aconselhem junto dos médicos assistentes."

"As crianças fazerem uma quarentena antres de irem para os avós foi a solução que, segundo percebo, muitos pais encontraram", diz Hugo Faria.

Outra questão importante para o médico é se a criança vai ficar com os avós em substituição da escola ou se está em contexto de creche ou ATL e só ao fim do dia fica com os avós. "Se a criança não está na escola, não está num contexto infeccioso significativo e está só com os avós não me parece que exista um risco grande. Em relação àquelas que depois do confinamento voltaram à creche, ao infantário ou ao ATL e estiveram em contacto com outras pessoas, é prudente que se mantenham afastadas durante um período."

Fazerem uma espécie de quarentena antes de irem para os avós? "Exatamente. É aquilo que, segundo percebo, muitos pais têm decidido fazer antes do período de férias. Agora se a criança está só com os avós, o risco é semelhante à vida normal destes sem ela e por isso pode e deve ser fomentada a estadia com os avós, desde que considerados os riscos individuais que referi."

Quaisquer que sejam as circunstâncias, estando as crianças com os avós, é fundamental que não se descurem os cuidados para prevenir o contágio, dentro e fora de casa: evitar locais com muita gente, manter o distanciamento, lavar frequentemente as mãos, usar máscara em locais públicos fechados, respeitar a etiqueta respiratória.

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