"Temo que vá haver professores contra professores", alertam diretores de escolas

Com a continuação da paralisação até 31 de julho, é expectável que muitas reuniões de avaliação fiquem por fazer até então, o que, segundo os diretores de agrupamentos e professores, pode provocar "desconforto" entre docentes.

Se as previsões do Sindicato de Todos os Professores (o STOP) se confirmarem, há duzentas escolas que vão continuar em greve até ao final do mês, adiando a conclusão do ano letivo. Uma situação que, na opinião dos representantes dos diretores de agrupamentos e dos professores, pode causar mal-estar entre os docentes. "Temo que a partir de segunda-feira vá haver professores contra professores", alerta Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

Depois de um longo período de greve, ainda estão por realizar muitas reuniões de avaliações dos anos em que não foram assegurados os serviços mínimos. Algumas serão retomadas esta semana, mas, como o Stop decidiu manter a paralisação até 31 de julho, haverá escolas onde a greve continuará a ter impacto. "Muitos professores saltaram fora da greve [no dia 113 de julho], mas muito ficaram, nem tanto pelo Stop mas mais a título individual, por não concordarem com o acordo entre o Ministério da Educação e os sindicatos", diz ao DN Filinto Lima.

Perante este cenário, o diretor da ANDAEP diz que pode perder-se "a união" criada entre os docentes durante a greve. "Uns acham que se está a ir demasiado longe, outros querem ir até ao fim. Isto pode criar desunião e colocar os professores uns contra os outros dentro da mesma escola, o que pode ser desagradável."

Compreensão não evita "desconforto"

Após a reunião entre sindicatos e ministério, houve alguma "descompressão", admite Manuel António Pereira, presidente da direção da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). A expectativa é que "as coisas voltem à normalidade na grande maioria das escolas", mas "onde a greve continuar terá de ser encontrada uma solução e não será fácil".

Ressalvando que "a greve é um direito inquestionável" e que há sempre uma "enorme compreensão" entre docentes, Manuel António Pereira reconhece também que "há sempre algum desconforto quando os professores querem acabar o seu trabalho e não conseguem porque há outros que, no uso dos seus direitos, não permitem".

O facto de haver uma pequena percentagem de professores que continua em greve poderá ter impacto nas férias dos restantes docentes. "Pode afetar as marcações de férias dos docentes que já não estão em greve, provocando alguns transtornos. Efetivamente, pode haver perturbações e até animosidade entre professores", reconhece Manuel Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional de Professores (ANP).

Isto pode, segundo o representante, gerar "algum mal-estar" nas escolas. "Os professores que fazem greve estão a gozar um direito, mas os que não fazem querem ver as avaliações terminadas para poder ir de férias descansados", sublinha, acrescentando que os diretores não deverão validar as férias sem que as reuniões de avaliação estejam concluídas.

Famílias com vidas suspensas

Ao DN, Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), afirma que "um sindicato, por mais pequeno que seja, consegue provocar perturbações e é normal que haja mal-estar entre professores". Contudo, "a preocupação da Confap é, em primeiro lugar, com as crianças e jovens", sendo que "esse mal-estar já está a ser criado nas famílias há muito tempo".

O representante dos pais lembra que "há famílias com vidas suspensas à espera que as coisas se resolvam a tempo de não prejudicar a organização familiar".

A greve dos professores atrasou o lançamento das avaliações, o que adiou o processo de matrículas, a constituição de turmas, a definição do número de professores necessários e a elaboração dos horários para o próximo ano.

Para os alunos que pretendem mudar de escola, a situação pode ser preocupante, já que as matrículas só podem ser feitas quando os estudantes tiverem as notas de todos os professores. Filinto Lima reconhece que "os alunos poderão ser prejudicados se o Ministério da Educação não vier esclarecer como é que os diretores devem proceder em relação às transferências dos alunos que não foram avaliados". Isto porque, imagine-se, os estudantes podem desejar mudar para um estabelecimento de ensino onde as turmas já foram concluídas.

As matrículas estão neste momento a ser feitas "condicionalmente", mas, enquanto não saírem as notas, as transferências não podem ser concluídas, porque não se sabe se os alunos transitam ou não de ano.

Por esta altura, há famílias que já têm férias marcadas, desconhecendo, ainda, em que situação se encontra o seu educando. Por isso, o DN sabe que uma das soluções que alguns pais arranjaram foi fazer uma procuração para que os avós possam tratar do processo na ausência destes.

"Basta de inícios de ano normais"

Sobre a decisão de manter a paralisação das reuniões de avaliação até 31 de julho, André Pestana, dirigente do Stop, refere que "a situação que se vive na classe docente é extremamente grave". Além da contagem de todo o tempo de serviço congelado para efeitos de progressão na carreira, refere o aumento da idade da reforma, o excesso de turmas por professor e a precariedade.

"Estamos cansados que todos os anos haja uma abertura normal do ano letivo, em setembro, quando as coisas não estão bem. Basta de inícios de ano normais se a situação não está normal", diz ao DN.

André Pestana diz que há "uma grande desilusão" face ao que saiu da reunião entre os sindicatos e o Ministério da Educação. "A plataforma sindical saiu de lá com uma mão-cheia de nada", sublinha. Ressalvando que os docentes estão "cansados", o dirigente do Stop considera que "se aguentarem mais uma semana, isto vai questionar o normal arranque do próximo ano letivo".

Segundo o Stop, há cerca de 200 escolas onde a paralisação vai continuar. André Pestana lembra que é uma "greve inteligente", pois basta que um docente não esteja presente para que as reuniões de avaliação não se realizem".

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