O conselho de segurança

A Segunda Guerra Mundial, cujo fim foi anunciado no dia 8 de maio de 1945, no jornal francês Le Combat, usando a expressão "esta imensa alegria coberta de lágrimas", tudo porque a imagem da guerra descrevia um balanço monstruoso para o qual a Europa recordava trinta milhões de mortos, a que faltava acrescentar os mal identificados mortos dos campos de concentração que tinham especialmente sido organizados para executar a existência global do povo judeu, uma ideologia racista que cobria todo o passado desse povo que perdera o território Estado que fora seu, mantendo a lembrança da destruição de Massada pelos romanos. Carecia somar o ativo e passivo do povo russo, a destruição de bairros inteiros de Londres, e ainda o desastre marítimo de navios, portos e vias navegáveis, um dos capítulos mais dramáticos que historiava as batalhas do Atlântico, que tinham sido uma das razões que determinaram a entrada dos EUA na guerra que finalmente limitaria as capacidades da Alemanha: triunfo marítimo, esmagamento com o bombardeamento aéreo, e finalmente o triunfante desembarque terrestre. Infelizmente a participação da Rússia não correspondia aos objetivos comuns dos restantes vencedores, e por isso vivemos dezenas de anos com duas meias Europas, duas meias Alemanhas, duas cidades de Berlim, até ao derrube do Muro. A necessidade de fortalecer a Meia Europa ocidental não impediu visões que orientavam a separação, e assim acontece com De Gaulle, que, empunhando a sua cruz de Lorena, não desejava que o Reino Unido, um dos libertadores da França invadida e ocupada, pertencesse à política de defesa. Só no dia 1 de janeiro de 1973 a Europa dos Seis se tornou a Europa dos Nove, com a entrada do Reino Unido, Dinamarca e Irlanda, pronta para mais futuras adesões. Um dos acontecimentos mais significativos da por vezes difícil presença do Reino Unido na União em crescimento verificou-se quando, em 3 de dezembro de 1979, a primeira-ministra Margaret Thatcher, analisando a situação financeira, tornou célebre a sua breve frase: "I want my money back." Brevemente, tendo hostilidade da evolução europeia, foi levada à demissão. Quando recentemente, no dia da saída dos deputados do Reino Unido do Parlamento Europeu, erguiam a sua bandeira no desfile, não garantiam que ela continuaria a representar a união dos territórios, designadamente os que tendem a manter-se no projeto europeu. Por seu lado, os EUA, que na Primeira e na Segunda Guerra Mundial mantiveram o interesse das vitórias mas não a veneração da aliança, mantêm uma memória que talvez influencie a política atual do seu governo. Em 1923, a chamada doutrina Monroe impedia a ingerência das antigas potências coloniais no território do continente americano, tendo o presidente Theodore Roosevelt declarado que os EUA assumiam a polícia desde o Rio Grande à Terra do Fogo. Nesta data, feliz com o Brexit do Reino Unido, o presidente absolvido pelo Senado ignora os deveres em que meditavam Correia da Serra e Jefferson, assume as intervenções inquietantes quanto à utopia da ONU, ou simplesmente às regras da diplomacia global, e encontra no princípio, sem definição prévia de conteúdo, America First, a verbalização das suas patrióticas emoções para competir designadamente com a Coreia do Norte, com o Irão, com o Iraque, para negociar com a China de Xi Jinping ou a Rússia de Putin, aceitando lonjuras do desastre de países como Cuba, México, Venezuela, alguma desatenção com o Canadá, com a França e até esquecimento de boa regra para com a monarquia inglesa, quando a visitou, com feliz espera pelo Brexit. Definitivamente, este conceito verbal da America First é difícil que não venha a produzir, como explicou John Micklethwait e Adrian Wooldridge, "a corrida global para reinventar o Estado", ou a imposição da novidade segura de Mark Mazower para "governar o mundo", ou, como tentou George Friedman, organizar programa para "Os próximos 100 anos". Por difícil que pareça, não é tranquilo ter um governante que considere um "triunfo" o facto de o Tribunal Penal Internacional publicar um acórdão assumindo que não investigará crimes contra a humanidade porque nenhum Estado coopera. Não é inquietante que o populismo seja a metodologia da eleição interna do dirigente da mais poderosa potência, mas seria útil procurar uma "governança" para o "globalismo". Não é aconselhável que um povo que organizou o território-sede da maior soberania do mundo esqueça a carta do chefe índio Seattle (1854), em que escreveu: "De uma coisa temos a certeza: a terra não pertence ao homem branco; o homem branco é que pertence à terra." Lembrando o excelente livro de Soromenho-Marques sobre A União Europeia, talvez fosse oportuno que o Conselho de Segurança assumisse avaliar o risco de a utopia da ONU ser uma doutrina abandonada.

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