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Ficar ou regressar a Portugal? A angústia dos hoquistas portugueses em Itália

O treinador Sérgio Silva e os jogadores Reinaldo Ventura, João Pinto, André Centeno e Diogo Neves estão no epicentro europeu da pandemia. Uns não pensam regressar a Portugal, outros não sabem como o fazer em segurança e por isso optaram por ficar em solo italiano. O campeonato foi suspenso e sem atribuição de título.

São portugueses, hoquistas e jogam em Itália. Foram apanhados de surpresa pela brutal escalada da pandemia no país que escolheram para jogar e viver. O treinador do Trissino, Sérgio Silva, e os jogadores Reinaldo Ventura (Trissino), Diogo Neves (Trissino), João Pinto (Lodi) e André Centeno (Valdagno) não sabem quando vão voltar a jogar, mas isso também "não é o mais importante agora". Os cinco contaram ao DN como sentiram os efeitos da pandemia que só em Itália já matou mais de 18 mil pessoas. Três deles estiveram de quarentena obrigatória depois de um jogador da equipa testar positivo e quando acabaram o isolamento já toda a Itália estava mergulhada num cenário negro de emergência nacional.

No final de fevereiro, quando um colega testou positivo, Reinado Ventura e os outros jogadores do Trissino, como Diogo Neves e o treinador Sérgio Silva, foram obrigados a ficar em casa durante duas semanas, mas nunca pensaram que a situação fosse tão grave ao ponto de os prender em casa há já sete semanas. Depois, quando acabaram o isolamento obrigatório, o país inteiro já estava em quarentena. "Encarei a situação com naturalidade e sem alarmismo, estava tudo numa fase inicial. Sabia que corria o risco de ter sido infetado porque estive em contacto com ele quatro dias antes de se saber que ele tinha ficado doente, mas não foi uma situação desesperante. Talvez se fosse agora ficasse, mas na altura estive tranquilo", revelou o jogador de 41 anos.

Com a família junto dele, Reinaldo saiu da quarentena já com as fronteiras fechadas e não ponderou o regresso ao Porto. Um dos filhos já tem 11 anos e anda na escola, tem tido aulas online, e para ele não fazia sentido voltar a Portugal naquela altura. "Estamos bem, não nos falta nada, não faz sentido voltar nesta fase", disse ao DN, explicando que o contrato e a escola acabam em junho e depois, sim, hão de querer voltar "em segurança".

"O pior" são as saudades misturadas com uma certa dose de preocupação com a família. "Triste" com a situação em Itália, um país que "não estava minimamente preparado para o que estava para acontecer", o jogador português lamenta que as autoridades de saúde tenham esperado tanto para agir. "Mas é compreensível, até certo ponto. Tirando o exemplo da China, não tinham referências da evolução do vírus, ao contrário de outros países, que, mesmo vendo o que estava a acontecer em Itália, não tomaram logo as devidas medidas e agiram demasiado tarde. Veja-se o exemplo de Portugal, que agiu dentro do momento em que deveria agir e a situação parece controlada dentro da realidade que é uma pandemia", disse o ex-internacional português, esperando que "as pessoas em Portugal não se iludam e voltem à rua como se nada fosse, porque isto é uma maratona e não uma corrida de 100 metros".

Pensar em jogar hóquei nesta altura "é algo um pouco egoísta", que passa pela cabeça de qualquer jogador que ama jogar: "É um misto de sentimentos, a saudade de jogar existe e faz parte de quem ama o que faz. Se as pessoas têm saudades de voltar ao trabalho, imaginem alguém que adora o que faz. Mas há a noção de que o desporto é secundário face ao sofrimento que nos entra em casa todos os dias pela televisão."

"Não faz sentido festejar golos e haver gente a lutar pela vida"

Tal como Reinaldo Ventura, também Diogo Neves joga no Trissino e teve de ficar de quarentena obrigatória quando um colega soube que estava infetado. "Ao primeiro impacto não queria acreditar, mas depois percebi que era a sério e fiquei um bocadinho assustado porque tinha estado em contacto com outras pessoas e fiquei com medo por elas e com a possibilidade de as ter colocado em risco", revelou o jogador de 26 anos, pensando lá para ele que "mais cedo ou mais tarde as coisas iam melhorar e retomar a vida e o campeonato". Mas não foi assim.

A quarentena foi "pacífica" e sem sintomas. "Todos os dia era contactado pelo hospital de Vicenza para saber se tinha sintomas e pediam-nos para medirmos a temperatura, mas felizmente não apareceu mais nenhum caso. O clube providenciava o que precisávamos. Iam ao supermercado e onde fosse preciso por mim. Se fôssemos apanhados na rua podíamos ter problemas sérios", explicou, confessando que chegou ao final de muitos dias com aquela sensação de estar com sintomas.

O clube já o informou de que se quiser voltar lhe será entregue um documento para poder viajar e passar nas fronteiras. Mas ele prefere esperar: "Quarentena por quarentena, é melhor manter-me onde estou mais um mês ou dois. Tenho cá a namorada e vou esperar que as coisas melhorem."
Tem aproveitado o tempo livre para estudar. Formado em Desporto e Educação Física, optou por tirar um curso de treino de performanceonline. Mata saudades da família na zona de Almeirim através das videochamadas.

"Não faz sentido estarmos a festejar golos e ainda haver pessoas a lutar pela vida no hospital"

"Acho que toda a gente queria voltar a jogar e acabar a época, mas não é viável. Estamos parados há mais de um mês e mesmo que regressássemos no próximo mês tínhamos de ter um período de treinos primeiro. Na minha opinião, as coisas não vão melhorar ao ponto de podermos jogar ou ter jogos com público", admitiu o hoquista, sabendo que o regresso "será algo estranho" e "longe daquilo que era habitual e normal" num desporto de contacto como é o hóquei: "Acho que vamos ter de aprender a viver de novo depois disto, porque as coisas não vão voltar logo à normalidade de antes." O desporto só deve voltar depois de a situação normalizar: "Não faz sentido estarmos a festejar golos e ainda haver pessoas a lutar pela vida no hospital."

O treinador Sérgio Silva é da mesma opinião. Enquanto espera pelo anúncio oficial do fim do campeonato (está em sexto lugar) "fechado em casa", o técnico do Trissino não pensa voltar a Portugal, pelo menos até junho. Habituado "ao ambiente de pavilhão" desde que se conhece por gente, confessa que é um "martírio" ficar em casa.

A treinar em Itália desde 2016, o técnico português, que jogou mais de dez anos no país transalpino, nunca pensou passar por uma pandemia e muito menos ver um jogador seu infetado. "Ele ligou-me a dizer que não estava bem, que estava com febre e não podia ir treinar. Disse-lhe para ficar em casa. Foi nesse mesmo dia para o hospital e no dia a seguir informou-me de que tinha feito teste ao coronavírus e que tinha testado positivo. Não quis dar a notícia aos jogadores por telefone, esperei que chegassem para o treino e comuniquei-lhes. Depois, o hospital onde ele estava internado ordenou que todos os que tinham estado em contacto com ele até quatro dias antes ficassem de quarentena obrigatória. E foi isso que fizemos", contou o português.

O hospital ia monitorizando a situação à distância. E, quando a quarentena pessoal acabou, começou uma a nível geral: "Não dava para imaginar ou antecipar a dimensão que isto veio a tomar. A não ser que alguém tivessem informações secretas que não divulgou. Estamos perante uma terceira guerra mundial, na minha opinião. Eu acho que as medidas não foram tardias, as pessoas é que não levaram a sério a ameaça e continuaram a levar a vida normal até os mortos começarem a aparecer. A situação piorou pela não consciência das pessoas."

O regresso à competição é algo "longínquo" e vai "ser lento em todos os aspetos da sociedade". Na opinião do treinador, "é preciso tempo para sarar as feridas psicológicas" e teme que muitas pessoas não voltem a ser aquilo que eram até haver uma vacina.

Ficar em Itália ou regressar, eis a questão

O luso-angolano André Centeno joga no Valdagno e vive a 20 km de Veneza, na segunda região mais afetada pelo coronavírus em Itália, depois da Lombardia. "Parece tudo tão surreal. Até ser declarado o estado de emergência, o assunto era pouco falado no balneário. Mas, a partir dessa altura, o assunto que era da China passou a ser nosso também. Nesse fim de semana de fevereiro [dia 23], ainda estive com malta amiga e o assunto já dominava as conversas. Depois, na segunda-feira, dia 9 de março, foi decretado o estado de emergência e a quarentena obrigatória. E aí é que nós tivemos a verdadeira noção daquilo que se estava a passar. No início ninguém levou o caso tão a sério quanto devia, ninguém imaginava que o caso se tornasse tão grave, escalou rapidamente e apanhou as pessoas de surpresa", segundo o hoquista.

No dia 9 de março, depois de ser decretado o estado de emergência, ele e os colegas foram examinados por um médico. Nessa altura, os treinos ainda eram permitidos desde que o médico atestasse que ninguém tinha sintomas: "Por isso, tiraram-nos a temperatura, auscultaram-nos e fizeram um check-up do nosso estado de saúde, assinando a permissão para a atividade desportiva. Depois fomos treinar e só quando acabámos o treino se soube do primeiro caso, o colega do Trissino."

Logo depois que o campeonato foi suspenso, os dirigentes do clube disseram-lhe que podia voltar a Portugal, pois o estado de emergência ia durar até ao dia 3 de abril e que só depois disso o campeonato seria retomado. "Eu liguei para a embaixada portuguesa e eles disseram que se eu quisesse podia ir para Portugal, mas que não podiam garantir que eu pudesse voltar a Itália até dia 3 de abril, e então optei por ficar", contou o jogador de 34 anos, confessando que se soubesse o que sabe hoje tinha viajado para Lisboa. É que, além do estado de emergência em Itália ir ser prolongado até ao final de abril, as competições foram suspensas e já não serão retomadas nesta época.

Estar em Itália é "angústia a dobrar". Ter os pais e sogros em Portugal longe da vista e saber que também eles estão "sempre preocupados" com ele por estar no epicentro da pandemia na Europa. "Tentámos sossegá-los. Só saímos de casa para ir ao supermercado uma vez por semana para evitar ao máximo o contacto com outras pessoas, mas é angustiante querer regressar e não saber se consigo", confessou o capitão da seleção de Angola, explicando que, "surpreendentemente", a embaixada portuguesa em Roma fechou até dia 24 de abril e deixou os portugueses um "pouco aflitos".

Na procura de respostas, o jogador chegou até ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que "tem sido impecável", dado informações e ajudado a encontrar uma solução. Há duas hipóteses para regressar e, nesta altura, nenhuma seduz a família do jogador. Como não há voos diretos, a opção era fazer escala em Frankfurt, mas ninguém lhes garante que têm ligação para Portugal. Pensaram viajar de carro, mas os 2000 e tal quilómetros e pelo menos três fronteiras dissuadiram-nos.

Para ele, não jogar hóquei "é completamente secundário". Segundo o hoquista, os jogadores têm de ser "conscientes da situação e fazer a sua parte e não cometer a irresponsabilidade de sair à rua ou pensar em treinar". Para André Centeno, é uma questão de tempo e distanciamento: "Em Itália perdeu-se um pouco o controlo talvez por algum facilitismo inicial, por isso espero que em Portugal as pessoas sejam mais conscientes e responsáveis, e pelo que tem visto têm sido. Agora é tempo de ficar quieto. Aos nossos avós e aos nossos pais pediram-lhes para ir para a guerra, a nós pedem-nos que fiquemos em casa pelo bem da humanidade."

"Aos nossos avós e aos nosso pais pediram-lhes para ir para a guerra, a nós pedem-nos que fiquemos em casa pelo bem da humanidade"

João Pinto esteve em Portugal até o clube o mandar regressar

João Pinto já leva "muitos dias fechado em casa". Compreende que a situação assim o obriga, mas "o cansaço mental" começa a fazer-se sentir. Joga no líder do campeonato, o Lodi, clube da zona de Milão, o coração da pandemia em Itália, e viu as medidas apertar ao ritmo do crescimento de vítimas mortais. "Um situação muito dura e com a qual é complicado lidar", segundo o jogador, algo revoltado com a sensação de impotência face a um inimigo invisível: "Os dias vão passando e nós pensamos que as coisas vão melhorar, que só podem melhorar, e depois vemos que a estrada é longa e já está toda a gente mentalizada para o facto de que as restrições se vão manter até ao início de maio."

Foi na província de Lodi, numa cidade chamada Codogno, que os primeiros casos apareceram em Itália. "Nós íamos jogar num sábado e na sexta-feira o médico do clube telefonou-nos a dizer que podíamos ir para a nossa terra, porque, apesar de haver ainda poucos casos, a situação ia piorar. Explicou-nos que tinha havido muitos casos de pneumonia em janeiro e em fevereiro, mas que não percebiam porquê até testarem os doentes e perceberem que era o coranavírus e identificarem o paciente zero", contou ao DN, lamentando que não se tenha dado a importância devida ao vírus no início da pandemia.

No dia 20 de fevereiro, João regressou a Portugal com a família e fez o isolamento profilático em casa. Quando os amigos e os familiares souberam que ele estava de regresso ligavam a desafiá-lo para sair e matar saudades, mas ele resistiu e manteve-se em quarentena... até ao dia em que o clube o mandou regressar. Optou por ir sozinho. Um dia depois de voltar a Itália soube-se que havia um jogador infetado no Trissino e o campeonato foi suspendo.

"É impensável voltar jogar num cenário de perda global. Há pessoas a morrer e familiares e amigos de luto. Pessoas que perderam os empregos. Não é hora para pensar em jogar hóquei ou outro desporto qualquer"

Está "tranquilo" por saber que a família está bem, em Porto Santo, onde só há um caso até agora: "O pior são as saudades, viver isto sozinho... Custa muito não saber quando os posso voltar a ver, quando poderei sair daqui e quando poderei viajar para a Madeira ou eles para o continente." Chegou a enviar um e-mail para a embaixada portuguesa em Roma, mas não obteve resposta. Foi através da linha de apoio ao covid do Ministério dos Negócios Estrangeiros que obteve informações, embora "muito vagas", sobre como regressar já com as fronteiras fechadas e "aconselhado" a manter-se em quarentena em Itália. João decidiu por isso esperar que estejam reunidas as condições necessárias para voltar, uma vez que não há voos diretos e não têm a garantia de poder passar na fronteira francesa e espanhola.

O campeonato foi esta quinta-feira dado como terminado e sem título atribuído. "É impensável voltar a jogar num cenário de perda global. Há pessoas a morrer e familiares e amigos de luto. Pessoas que perderam os empregos. Não é hora para pensar em jogar hóquei ou outro desporto qualquer. O melhor é pensar na próxima época", disse o ex-Sporting de 33 anos.

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