A ameaça ecológica

A preocupação dominante, mesmo não confessada, dos responsáveis que não esquecem o critério aristocrático que ainda inspirou a distinção concedida aos titulares do direito de veto no Conselho de Segurança tem sido a ameaça dos emergentes em relação à manutenção desse princípio. Os observadores tentam, sem concordância, conseguir um critério de identificação dos tais emergentes, onde não falta a inclusão da China, da União Indiana, até do Brasil, ou da África do Sul.

Subitamente, uma minúscula, em proporção, Coreia do Norte desafia a serenidade da maior potência que ainda são os EUA. O que, pondo de lado as ambiguidades da reação da, com fundamento, preocupada mas assumida líder da ordem que a ONU imaginou, obriga a não ignorar que o conceito de potência, incluindo o sentido que tiver a emergência, precisa de revisão, quer no que toca ao ordenamento dos Estados quer no que respeita à variação dos elementos do chamado poder. Porque a experiência mostra a dificuldade de ordenar os elementos que obrigam a reformular o que foi chamado "gramática do poder", sobretudo internacional, a metodologia e até o vocabulário dos encontros e desencontros estaduais, sem esquecer que os avanços das técnicas permitem aos supostos fracos atingir os classificados de fortes.

Infelizmente, esta temática sobre o ordenamento das potências que a evolução obriga a corrigir de tempos a tempos, e cuja prova é de costume a guerra, ainda não foi animada pela questão prévia de as ordenar pelo critério da gravidade da agressão que exercem no que toca à defesa, e eventualmente longevidade, do palco dessa contenda que é o planeta Terra.

Os próprios EUA, que anunciaram com tranquilidade a capacidade de aniquilar a Coreia do Norte, ou de destruir o Irão, simplificando o aviso pelo uso presidencial da exibição do letreiro dos seus escritos, não parecem impressionados com a tragédia que provocam os desmandos da natureza, que não pode ser contida por avisos simplistas da comunicação presidencial inovadora. Está, parece, claramente destinada ao fracasso qualquer diligência que convença os responsáveis atuais da "primeira potência militar" de que o Acordo de Paris não merece ser desconsiderado, que dele não se pode sair livremente, considerando irrisórios os alarmes hoje assumidos pela juventude mais informada e responsável.

E todavia já em começos de 2010 éramos advertidos de que o último decénio tinha sido o mais quente depois dos registos de 1880, ao mesmo tempo que a revista Nature Geoscience informava sobre a gravidade da fusão acelerada dos glaciares do norte. Daqui em diante, as certezas científicas sobre as mudanças climáticas alargaram o conhecimento das mudanças físicas rápidas e quantificáveis: emissões de gás, designadamente dióxido de carbono (CO2), que um grupo de cientistas, na Natura de 2009, exigia limitar para evitar atingir níveis irreversíveis.

O Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUE) alertava para o facto de que o oceano Ártico poderia ficar livre de gelo a partir de 2030. Os cientistas foram acusados de um climategate e subitamente o mundo, neste infeliz 2019, é seriamente alarmado pela anunciada política do governo brasileiro em relação à projetada e consentida política destruidora da floresta da Amazónia, fortalecendo a atitude americana, sem que este governo usasse, por considerar inapropriado, o big stick que no passado exibia para disciplinar o sul do continente. O abade Correia da Serra perderia seguramente a compostura, em reação. A complexa política de redefinição de hierarquia aristocrática das potências, que neste momento inspira uma confrontação de medidas restritivas e punitivas à liberdade de comércio, num quadro de leviandades que podem levar a dar o passo da quebra da paz, continua a não ponderar que está a colocar em risco o palco em que desenvolve este possível prefácio de uma calamidade.

De quando em vez surgem iniciativas governamentais reparadoras da "ambição ecológica", e assim acontece em França com a sua declaração política de 12 de junho, anunciando um projeto de lei relativo à energia e ao clima, procurando responder ao seu Haut Conseil para o clima, domínio em que este considerava que a França estava atrasada. Seria igualmente apropriado advertir que a política global de defesa da Terra exibe uma perigosa desatenção aos factos que podem conduzir à rutura da paz. A própria França mostrou-se desperta para os riscos dos seus interesses e deriva no Pacífico. O que recomenda que os órgãos políticos responsáveis pela paz meditem sobre se é tempo de assumirem uma intervenção que desperte a definição de políticas cuja primeira decisão seria a de impedir leviandades. A reação da Assembleia Geral da ONU, em que o repúdio do pregado unilateralismo foi emocionalmente geral e significativo, não deve ser seguida do repouso.

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