A guerra privada que Marie Colvin enfrentou para nos contar todas as outras

A Private War (Uma Guerra Pessoal) tem antestreia hoje e conta a história da veterana repórter de guerra Marie Colvin. O DN viu o filme e conversou com os repórteres Paulo Nunes dos Santos, Cândida Pinto e João Pedro Fonseca

O facto de não conseguirmos tirar os olhos da atriz Rosamund Pike no ecrã dá-nos uma pista do que seria ver aquela jornalista de pala no olho em cenários de conflito como a Líbia, o Iraque ou a Síria, país onde Marie Colvin foi morta num bombardeamento, alegadamente levado a cabo por tropas do regime de Bashar Al-Assad, a 22 de fevereiro de 2012, na cidade cercada de Homs.

Tinha 56 anos. I'm not a fucking pirate ("Não sou o raio de um pirata"), diz, sempre mordaz, no filme quando surge a hipótese da pala, depois de ter perdido a visão do olho esquerdo num ataque no Sri Lanka, em 2001, quando se preparava para entrevistar os líderes dos Tigres de Libertação do Eelam Tamil.

A Private War (Uma Guerra Pessoal), de Matthew Heineman, que conhecemos de documentários como City of Ghosts, com antestreia hoje nos Cinemas UCI El Corte Inglés, antes de chegar às salas a 22 de novembro, traça um retrato da jornalista que, diz o fotojornalista Paulo Nunes dos Santos ao DN, "era uma presença quase icónica, forte, que impunha respeito. Aquela pala no olho chamava a atenção em qualquer parte do mundo. Qualquer repórter ou fotojornalista sabia quem é que a Marie Colvin era. Se não fosse pelo facto de ler as reportagens fantásticas que ela escreveu, certamente seria pela figura que representava".

A antestreia de hoje, às 20.30, será antecedida por uma mesa redonda sobre o jornalismo de guerra em português, com os jornalistas Maria João Ruela, Carlos Raleiras e Luís Castro, moderada por Paulo Ferreira.

Paulo Nunes dos Santos, freelancer que trabalha frequentemente para o New York Times e para o Expresso, cruzou-se com Colvin, célebre repórter de guerra do Sunday Times, várias vezes. Lembra-se de, na Líbia, depois de parte de Benghazi ter sido conquistada às forças de Kadaffi pelos rebeldes, ela lhe ter perguntado a direção do hospital para onde estes estavam a ser levados.

Parte do que a ouvimos dizer no filme - e algumas das frases foram de facto proferidas por Colvin - responde à velha questão dirigida ao jornalismo de guerra: porquê fazê-lo? Porquê ir lá, arriscar a pele para contar a história? É provável que a única resposta possível esteja nas próprias reportagens, e muito do que vemos em A Private War é Marie Colvin a trabalhar, a captar aquilo que dizia ser "a humanidade in extremis".

"Importo-me o suficiente para ir"

Depois, há argumentos como o facto de as reportagens serem "o rascunho da história", ou o de ela ter "fé na humanidade de que um número suficiente de pessoas vai importar-se" com aquelas histórias. E ainda estas frases, que no filme diz também: "Detesto estar numa zona de guerra mas sinto-me compelida a vê-la por mim mesma" ou "Importo-me o suficiente para ir." A isso chamar-se-ia talvez vocação.

A intercalar o seu trabalho nas diferentes zonas de conflito que o filme retrata está sempre a "guerra privada", pessoal, de Marie Colvin, e que vemos nos seus ataques de pânico, nas imagens de horror recorrentes que lhe aparecem, sinais do stress pós-traumático que a jornalista enfrentou, ou na forma como se agarra ao álcool ou aos cigarros.

É difícil não sentirmos o pudor de quem invade os mais íntimos bastidores de alguém, como uma sombra do seu trabalho, que não aparece porque esse não é o seu lugar (justamente porque é privado). Ao mesmo tempo ainda, em A Private War vemos Marie Colvin como a permanente alma da festa, como aquela americana em Londres que se movia em círculos privilegiados, ria e fazia rir, mordaz no que dizia e na forma como o dizia.

Há quem defenda, como Emma Graham-Harrison no The Guardian , que este retrato peca pela ausência de suficientes traços da alegria e força que lhe eram característicos, além de levantar a suspeita de que Marie Colvin não vivia como realmente queria. Aqueles que lhe foram próximos, afirma Graham-Harrison, diziam que sim, que aquela era a vida que escolhera e desejava, e que não havia nela a habitual síndrome da heroína feminina que afinal e no fundo apenas queria estar em casa, ser mãe de filhos, ter aquilo a que se chama uma vida normal.

Todavia, apesar dos traços ficcionais do filme, parcialmente baseado no perfil que Marie Brenner escreveu em 2012 para a Vanity Fair, intitulado "Marie Colvin's Private War", estão lá algumas das questões fundamentais do jornalismo de guerra: a razão pelo qual existe e sobrevive, os perigos e a camaradagem que se cria quando quase se enfrenta a morte com alguém. Depois, claro, e voltamos à guerra privada, está a questão do regresso a casa.

Contar o lado humano da guerra

Paulo Nunes dos Santos esteve em muitos dos conflitos dos nossos tempos. Português a viver na Irlanda há quase 20 anos, nunca lhe tinha passado pela cabeça ser jornalista de guerra até dar por si em zonas de conflito. Quando começou, contou ao DN, "havia aquela ideia de que se pode mudar alguma coisa. Quando nós somos mais novos pensamos: vou mudar o mundo, tornar as coisas melhores. Depois tornamo-nos um bocado cínicos, vi tanta barbaridade e vejo-a repetir-se. As coisas estão más em certas zonas e se o resto do mundo não visse o que ali acontece, seriam ainda piores para as pessoas que lá estão."

Paulo Nunes dos Santos já esteve sob fogo de atiradores furtivos na Líbia, já foi preso e "violentamente interrogado e deportado" pelos serviços secretos do Iémen, já teve um jato de guerra do regime sírio a disparar rockets contra o seu carro, ou as tropas turcas, também a dispararem na sua direção, quando saía da Síria.

Depois, e lembramo-nos do "rascunho" de que Colvin falava, o fotojornalista refere a importância de "documentar para que as gerações futuras saibam o que o ser humano consegue fazer de mau e tentarem não repetir esses erros. Enquanto documento histórico [o jornalismo] é muito importante".

Paulo Nunes dos Santos já esteve sob fogo de atiradores furtivos na Líbia, já foi preso e "violentamente interrogado e deportado" pelos serviços secretos do Iémen, já teve um jato de guerra do regime sírio a disparar rockets contra o seu carro, ou as tropas turcas, também a dispararem na sua direção, quando saía da Síria.

"A adrenalina de estar num sítio desses não me diz muito. Não gosto de violência, não me dá prazer nenhum ver crianças mutiladas, ou gente a morrer, nem pôr-me a mim mesmo em perigo. Tenho interesse em contar o lado humano da guerra. Dos que não decidiram e têm a vida estragada. Essas são as histórias que quero contar", diz o fotojornalista.

Quando o questionamos sobre aquilo que o foi tornando mais calculista e prudente no terreno, refere imediatamente a morte de amigos com quem esteve. Entre essas a que mais o afetou foi a de James Foley, morto pelo Estado Islâmico em 2014, na Síria. "Pela primeira vez a minha mulher, que nunca questionou o meu trabalho e sempre me apoiou imenso, disse-me: 'Promete-me que não voltas à Síria.' E não voltei."

Voltar a casa

Ao contrário de Colvin, e do retrato que A Private War nos dá, quando não está em zonas de conflito, Paulo Nunes dos Santos tem aquilo a que ele chama "a vida mais aborrecida que possas imaginar". No bom sentido. "Sou eu que cozinho, vou às compras, vou pôr os miúdos à escola, trato do jardim, pago as contas, a minha mulher trabalha imenso." Explica que tal contribui para a sua estabilidade mental e diz que, mais do que um esforço para voltar a calibrar a vida na Europa, depois de ter visto o que a guerra implica, nele sempre se reforça isto: "A mim ninguém me vê stressado ou maldisposto porque o autocarro está atrasado dez minutos e está a chover. São problemas de primeiro mundo."

Cândida Pinto, que há anos é enviada da SIC para zonas de conflito, começou por cobrir uma revolta militar na República Democrática do Congo, então Zaire, e a última vez que esteve no terreno foi em 2014, em Kobani, cidade curdo-síria que o Estado Islâmico tomou.

Viu Marie Colvin várias vezes, a última das quais na Líbia. "Fiquei absolutamente chocada com a morte dela. Como a de outros jornalistas muito experimentados, mostra que a experiência é muito importante mas não nos dá uma segurança absoluta e, sobretudo, mostra também que as circunstâncias e os cenários mudam muito", afirma ao DN.

Quando lhe perguntamos porque vai, porque foi de todas as vezes, responde: "É cada vez mais necessário e fundamental. Não há nada como ir aos sítios para compreender as circunstâncias dos conflitos. A história está carregada de exemplos de jornalistas que foram ao local e alteraram o curso da história. O pior que pode existir são conflitos calados, cegos, em que não há testemunhas."

O trabalho de Marie Colvin é exemplo disso mesmo. No Iraque, no Sri Lanka ou mesmo em Timor quando, em 1999, foi uma das pouquíssimas jornalistas que permaneceram com 1500 refugiados num complexo das Nações Unidas em Díli que estava cercado pelos militares indonésios após o referendo em que a independência venceu. "Os timorenses não esquecem a sua salvadora, porque ela se recusou a deixá-los", afirmou Ramos-Horta na sua morte.

Quanto ao facto de ser mulher, e da velha figura romântica de uma mulher em cenários de conflito, Cândida Pinto responde: "Olhe o caso da Marie Colvin... Para mim nunca foi um fator que me inibisse. Nalgumas situações há mais dificuldades, em países onde as mulheres têm menos direitos."

João Pedro Fonseca, atual chefe de redação da agência Lusa, cobriu como jornalista do DN a situação em Timor, e as guerras no Iraque e no Afeganistão. A motivação, afirma, foi sempre esta: "Tentar dar o lado de quem está a sofrer com as coisas. É obrigação nossa tentar mostrar o que está a acontecer. Para isso é que há jornalistas, não é?"

Numa aldeia destruída pelas forças indonésias em Timor, viu cerca de 30 homens dirigirem-se a ele com catanas nas mãos, sem que tivesse para onde fugir. Respirou de alívio quando estes lhe perguntaram: "Português?" Também em Timor, teve o seu quarto de hotel vigiado pelas forças de segurança indonésias, que no dia seguinte o expulsariam de Timor Ocidental, onde ele queria encontrar timorenses refugiados.

No Iraque, numa estrada a cerca de cem quilómetros de Bagdade, teve uma metralhadora apontada à cabeça "a dois ou três metros de distância". Nunca lhe aconteceu nada, voltou sempre para casa. E mantém a confiança nisto: "Como jornalista, há sempre alguém que te recebe. Normalmente as populações veem o jornalista como um aliado que vai mostrar ao mundo o que ali se está a passar. Há pessoas que olham para ti como uma salvação, uma ajuda: [como] 'pode ser por aqui'."

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