A segunda vida de Fernando Pessoa: heterónimo quer o Nobel da Literatura

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN está a publicar em 12 capítulos. Termina hoje.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Alguém o ensinou a ser Pessoa, recuperando os ensinamentos do poeta W.B. Yeats , de Ian Fleming e Somerset Maugham, três autores enganados pelo mago Aleister Crowley. Vicente Guedes vai ao leilão do espólio deixado por Fernando Pessoa, salva-se de morrer na Boca do Inferno, viaja até ao Brasil na companhia de Proust, Joyce, Hemingway e outros escritores, e regressa a Lisboa pronto para publicar uma obra que lhe dê o Prémio Nobel da Literatura.

A pasmaceira da minha rotina diária regressou por uns dias. Sabia que era passageira e que só a leitura impaciente dos inéditos de Fernando Pessoa que iam saindo da arca que Sena obtivera, sabe-se lá como, é que disfarçavam a minha contrariedade perante a falta de ação. No entanto, Beatriz avisara-me que a minha entrada na literatura nacional - ela fora mais longe e referira também vida nacional - estava por dias.

- O plano está em movimento e a operação em fase adiantada.

Espantara-me que utilizasse conceitos militares para uma realidade tão diferente como era a poesia e um poeta daquela que é a vida nos quartéis ou nos campos de batalha. Mas ela era assim, com uma vida distante da minha a não ser nos momentos de fazer amor, situação em que um pouco do seu mistério se desgarrava da personalidade habitual.

A pasmaceira a que eu me referia não era assim tão trágica, já que voltara a ocupar o meu lugar no Martinho da Arcada e os turistas regressaram à esplanada e com eles as sessões fotográficas e até os livros para autografar. Os proprietários do estabelecimento agradeceram o meu regresso e, não querendo voltar a perder a clientela para a Brazileira do Chiado, melhoraram-me o rancho. Para além da bebida, mal chegava ao estabelecimento, colocavam-me uma dose de miniaturas de pastéis de bacalhau, que ia petiscando até à hora do almoço.

Os inéditos de que eu ia ser o autor, confesso, agradavam-me de sobremaneira. Além de irem ao encontro do meu Manifesto, eram de uma beleza e profundidade que só Pessoa teria sido capaz de escrever. Havia poemas e prosa vária assinada pelo próprio e por todos os heterónimos, numa profusão de estilos e de sensações que se poderiam identificar como seus se cotejados com o original, mas que a minha intuição, e porque não dizer o meu conhecimento, organizara com um novo sentido. Que os tornava mais originais do que seriam se desvendados como ele os deixara.

Correspondia com esta atividade ao apelo de Beatriz para preparar dois livros de inéditos que assinalassem o meu regresso, representativos da poesia e da ficção de Vicente Guedes. Enquanto observava o outono chegar a Lisboa, com o mar da Palha mais encapelado a cada novo dia e os habitantes da capital a vestirem roupas mais quentes, trabalhava o material que o poeta deixara pronto e por burilar. Uma atividade tão fácil para mim como fora para ele, mesmo que agora só fosse necessário completar pensamentos, reerguer versos que tinham ficado a meio da sua explosão, eliminar sonoridades características da sua época e criar metáforas próprias para uma nova época. Não era difícil avançar em novas escritas com um baú repleto de textos como o herdado, nem encontrar páginas soltas e inspiradas, bocados de papel anotados, apontamentos em páginas de livros da sua biblioteca ou princípios de poemas, contos e epígrafes. O poeta era um mundo amazónico, uma floresta cheia de árvores em que a folhagem era um conjunto de letras perfeitas para colar nas futuras resmas de pasta de papel feita de troncos transformados.

Olhava para o rio e pensava nesta imagem em que se convertiam folhas em palavras, árvores em papel, e pensava nos botânicos que corriam os bosques em busca de espécimes diferentes do reino vegetal para os prenderem com pequenos alfinetes em quadros forrados a tecido de feltro verde. Era essa a tarefa que tinha pela frente, transformando a árvore numa floresta e impedindo quem quer que fosse de ver apenas o pormenor. Queria o todo como a preocupação dos leitores fiéis ao poeta, aqueles que, ainda sem saberem os que lhes estava para acontecer, ignorariam de imediato o interregno na publicação própria para correrem às livrarias sedentos da poesia mais portuguesa possível de encontrar.

Frustrados, iriam ficar todos aqueles que andaram a escarafunchar no baú com a certeza de que Vicente Guedes não ressurgiria para reparar o esquecimento do seu outro eu mais terreno e mortal.

Não era por acaso que observava o rio, é que este gigantesco córrego de água era para mim um espelho da família de poetas com a marca Pessoa e ambos não secariam jamais. Com mais ou menos água, o Tejo estaria sempre ali. Quanto ao poeta, findo o primeiro, vim eu e outros se seguiriam, acompanhando a eternidade da existência humana até onde existisse o convívio com as palavras. Enquanto pensava nesta capacidade da imortalidade posso dizer, por ser verdade, que Vicente Guedes atraía atenções e que o seu regresso público estava prestes a ser noticiado de forma espetacular. Sentia a pressão pelo parto a adensar-se na atmosfera em redor da minha presença no Martinho da Arcada e as águas iriam rebentar como se a onda levantada por um dos navios a chegar viesse bater contra o Cais das Colunas com a força suficiente para inundar a praça como se fossem as de um pequeno maremoto literário...

Casualmente, quem iria dar a descobrir o poeta à imprensa foi o meu já conhecido jornalista que fizera a cobertura noticiosa do suicídio de Sena na Boca do Inferno, o descendente de Ferreira Gomes. O homem fora alertado para a existência de um Fernando Pessoa no Terreiro do Paço e resolvera investigar o que se passava. Reconheci-o de imediato mal o vi a rondar o restaurante, mesmo que não tenha vindo fazer-me perguntas. Esse lapso de tempo permitiu-me organizar um plano de ação - para utilizar os conceitos de Beatriz - e preparar algumas respostas para hipotéticas perguntas.

A primeira dúvida que eu tinha era a de se me identificaria como a pessoa que estivera nos arquivos do jornal a consultar o dossier Pessoa. Achei que isso seria quase impossível pois o bigode que entretanto deixara crescer e o tom moreno da pele devido aos efeitos das férias tropicais faziam-me muito diferente. O vestuário, também bastante diverso do que eu usava normalmente, e o chapéu e os sapatos engraxados, alteravam ainda mais radicalmente o meu aspeto. Ou seja, dificilmente esse problema surgiria quando chegássemos à palavra. A segunda dúvida, era o de como o conseguiria ludibriar para que me apresentasse como o ressuscitado Pessoa. Necessitava de o convencer que o meu heterónimo era prova suficiente para ultrapassar as décadas de morto que o poeta já levava. Ou seja, criar uma ilusão de vida para além da morte dos meus colegas heteronímicos e do patrono de todos, e que tinha obra feita, original e por publicar. A terceira dúvida residia no facto de se seria o jornalista audaz o suficiente para alinhar num jogo em que, a troco de lhe dar uma grande notícia, construísse uma história credível para o meu regresso.

Estas questões eram as principais que se me punham, as quais gostaria de ter debatido com Beatriz, já que era a minha tutora por ordem de Sena. Não estando ela por perto, a aproximação sorrateira do descendente de Ferreira Gomes iria obrigar-me a estar à altura da situação. Enquanto o via encurtar pelo canto do olho os passos que nos separavam, dizia para mim próprio que era a hora certa para mostrar que estava à altura da situação e não do tempo próprio para ser apanhado em flagrante delito na esplanada do Martinho da Arcada.

O descendente do jornalista Ferreira Gomes, ao contrário de mim, estava igual a si mesmo. Estendeu-me a mão enquanto me cumprimentava e pediu autorização para se sentar à mesa. Dei-lha imediatamente e até lhe estendi o pires com pastéis de bacalhau que restavam para que provasse um.

- Agradeço, mas antes de aceitar um pastelinho gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. Decerto que depois saberão ainda melhor.

Era, pelos vistos, um jornalista dado a armar-se em engraçado enquanto atuava. Disse-lhe que fizesse como lhe apetecesse e que viessem de lá as perguntas que queria fazer. Como quem não quer a coisa, disse-lhe em jeito de piada que a curiosidade matou o gato.

- Ora aí está uma definição exata para mim, que me considero um rafeiro bom para a caça e a sua presença aqui bem merece uma investigação.

Trocadas estas palavras iniciais, o jornalista decidiu entrar a matar. Perguntou-me se pretendia ser um imitador como os que infestavam a Baixa de Lisboa ou se a minha existência tinha algum outro significado? É claro que entendi o caminho que pretendia seguir neste mini-interrogatório, desmoralizando e desmascarando-me logo à primeira pergunta. Assim sendo, apresentei-me de forma pausada e ciente do meu perfil de poeta como Vicente Guedes, poeta.

- Tinham-me dito que era o Fernando Pessoa!

De novo pausadamente, esclareci que o poeta morrera há algumas décadas e que eu era, repetia, Vicente Guedes, também poeta.

- Então porque se veste como ele e até vem para o Martinho da Arcada?

Senti que a próxima resposta iria ser fundamental para a jogada que Vicente Guedes teria que executar no xadrez de perguntas que estava em curso. Afirmei que o facto de Fernando Pessoa ter morrido não significa que aos seus heterónimos tenha acontecido o mesmo. Aliás, disse-lhe sem permitir contra-argumentação, que os outros Pessoa só tinham sido conhecidos a sério muito para além do dia em que o poeta morrera e que um deles até fora tema de um romance ao regressar a Lisboa, já depois da morte do poeta. E que agora, e em muito bom tempo, revelava-se ao mundo mais um. Sorrindo, até lhe coloquei a questão de quem sabe se após este que está à sua frente não surgirão outros ainda?

O descendente de Ferreira Gomes ficou a pensar no que ouvira e acabou por dizer.

- Creio que está na hora de provar o pastel de bacalhau que me ofereceu.

Via-se que na sua cabeça fervilhava aquilo a que o pensador marxista caracterizara como a luta entre tese e antítese, sendo que eram várias as sínteses que dali resultavam em vez de uma única.

Não tive dúvidas de que no descendente do jornalista o pensamento já ia mais longe. Se viera a pensar escrever uma crónica de escárnio e mal-dizer sobre um imitador de Fernando Pessoa, o que lhe parecia ter entre mãos era uma outra história, bastante mais complexa e capaz de disputar o interesse de muitos mais leitores que a anterior.

- Esclareça-me o seguinte. O que é que Vicente Guedes tem a ver com Fernando Pessoa?

Senti que o próximo movimento iria mais uma vez ser importante para convencer o jornalista sobre a veracidade do meu heterónimo e, em seguida, fazê-lo transmitir essa opinião para os leitores. Não estava em causa apenas o papel que Sena me atribuíra e de que eu me apropriara com tanta confiança para esta segunda vida minha e do poeta. Então, expliquei-lhe que Vicente Guedes tinha sido um dos heterónimos mais importantes para Pessoa, que andara a trabalhar na sua voz o Livro do Desassossego durante vários anos mas que este lhe fora usurpado à última hora, contrariando até algumas ideias do próprio poeta. Sabe, disse-lhe repetindo alguns do textos escritos por Pessoa e influenciados por Malthus, que a sensibilidade é a fonte de toda a criação civilizada. Mas essa criação só pode dar-se completamente quando a sensibilidade está adaptada ao meio em que funciona e que é na proporção da adaptação da sensibilidade que está a grandeza e a força da obra resultante. E eu, Vicente Guedes não estava pronto como acontecia a Bernardo Soares porque, embora a sensibilidade varie um pouco pela influência insistente do meio, ela é também determinada desde a sua nascença, em função do temperamento que a hereditariedade me fixou. E rematei: a sensibilidade, portanto, progride por gerações. E foram precisas várias para que eu estivesse pronto para a missão que o poeta me confiara.

- Compreendo o que me está a dizer, mesmo que isso não me explique a razão do seu aparecimento, principalmente o que o liga ao Pessoa.

Avancei então num discurso mais magistral, repetindo outros conceitos do poeta de modo a convencê-lo sobre o desígnio da missão: A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro! A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais! Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as atrizes e para os produtos farmacêuticos! E eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo e, portanto, vou indicar o caminho com a minha sensibilidade. Ora, como já referi, a sensibilidade progride por gerações e só neste momento é que o poeta está pronto para renascer em Vicente Guedes.

O descendente olhava para mim com um ar entre o convencido e o vencido pelos argumentos que eu declamava. Mas não me parecia ainda estar pronto a aceitar as teses que fora buscar a Fernando Pessoa para dar uma componente científica sobre a minha aparição. Decidi avançar com mais uma teoria pessoana e dizer-lhe que estava perante a "abolição do dogma da personalidade".

- O que quer dizer com isso?

Expliquei-lhe que todos temos uma Personalidade «separada» das dos outros - é uma ficção teológica, acrescentei -, porque cada um de nós é composto do cruzamento social com as «personalidades» dos outros, da imersão em correntes e direções sociais e da fixação de vincos hereditários, oriundos, em grande parte, de fenómenos de ordem coletiva. Isto é, no presente, no futuro, e no passado, somos parte dos outros, e eles parte de nós. Para o auto-sentimento cristão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer «eu sou eu»; para a ciência, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer «eu sou todos os outros». Devemos pois operar a alma, de modo a abri-la à consciência da sua interpenetração com as almas alheias obtendo assim uma aproximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Síntese da Humanidade.

Mais uma vez entendi pelo seu franzir da testa que estas explicações de pouco lhe interessavam, pois seriam de difícil transformação para a linguagem jornalística e para a compreensão dos seus leitores. Decidi, por isso, arriscar em grande e afirmar algo que lhe daria um bom título para o artigo e que o consumidor do seu jornal leria de um ápice e até perder o fôlego. Foi, então, que confessei que só tinha um propósito na vida: quero que se faça justiça e que Fernando Pessoa ganhe o Prémio Nobel.

- Mas os mortos não podem ser candidatos ao Nobel!

O descendente de Ferreira Gomes reagira depressa! Não estava à espera que recobrasse a lucidez tão depressa, mas foi fácil compreender o porquê deste seu acordar após ouvir as balelas teóricas que dissera antes. Era a palavra Nobel que tocava as campainhas e que o acordara para a vida. Tanto assim que não resisti a acrescentar que acreditava que a candidatura que eu iria protagonizar em nome de Pessoa deveria ter naturalmente um apoio ibérico!

O jornalista permaneceu em silêncio durante alguns instantes. Em seguida pegou no bloco e riscou umas palavras. Continuou a pensar no que eu dissera por mais uns instantes e saiu-se com esta.

- Sinceramente, não acredito em si, nem no que está a dizer...

Regressou ao silêncio por mais um tempo e rabiscou mais umas palavras.

- Isso também não me diz respeito. Se eu publicar um artigo com a sua revelação decerto que os entendidos irão verificar até que ponto é verdade o que me está a dizer. A minha obrigação é dar a notícia e quem não acreditar que se preocupe com o assunto, que o investigue e dê cabo de si se for preciso!

Não era exatamente esta a reação que eu esperava de Ferreira Gomes, principalmente que me fosse dita assim tão sem rodeios. Via-se que o homem estava um pouco sem norte e que o seu espírito profissional se dividia entre a notícia excecional que tinha entre mãos e a descrença no que ouvia.

- Explique-me só uma coisa, como é que vai justificar que é uma das personalidades do Pessoa?

Mesmo com dúvidas, o descendente do jornalista queria encontrar argumentos para convencer o seu chefe de redação para a situação inédita com que regressava ao jornal. Tentei encontrar nas teorias do Pessoa uma que o pudesse esclarecer e recordei esta: «Em arte, só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, o indivíduo que sente por vários. O que é preciso é o artista que sinta por um certo número de Outros, todos diferentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma Síntese-Soma, e não uma Síntese-Subtração dos outros de si, como a arte dos atuais.»

Confirmei que ele anotava esta frase, designadamente a parte em que referia o "futuro", uma justificação para o presente que estávamos a viver e que tanto o perturbava. E para que não lhe restassem dúvidas voltei ao ataque, certificando-me de que ele tomaria nota de uma última teoria que lhe ditei: «O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais géneros com mais contradições e dissemelhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter várias, organizando cada uma por reunião concretizada de estados de alma semelhantes, dissipando assim a ficção grosseira de que é uno e indivisível.»

Tentei imaginar o frenesi em que o descendente de Ferreira Gomes estaria. Afinal, encontrara uma ponte até ao seu antepassado, que tanto tornara Fernando Pessoa popular ao maquinarem juntos a história do falso suicídio de a Besta. Tal como há várias décadas, um beneficiara o outro num negócio com proveito para ambos e agora, como menos aldrabice, repetia-se essa aliança com tradições familiares.

Quando relatei o que se passara a Beatriz, ela levou as mãos à cabeça. Via-se que estava em pânico e que não tinha previsto este desfecho para a minha revelação.

- Eu deveria estar sempre ao teu lado. Bem que Sena avisou para evitar alterações ao plano!

O olhar dela confirmava a aflição que lhe ia no pensamento, altura em que lhe fiz notar que não tinha tido outra solução e que os segredos que teimava em manter em relação a mim em nada me beneficiariam. Desconhecendo o plano de Sena, havia que improvisar a cada situação que me surgisse. Avisei-a de que a partir desta conversa com o descendente de Ferreira Gomes o Vicente Guedes iria ser um caso nacional - espero até que internacional, desejei - e que estava na hora de nos unirmos num mesmo esforço ou deixar-me viver a minha segunda vida como se fosse real. Até porque eu não tinha medo de enfrentar tudo o que estava para me acontecer, afinal sentia-me verdadeiramente apanhado pelo Vicente Guedes e já pouco recordava sobre a minha vida anterior ao ano passado no Freixo.

Pior ainda ficou Beatriz quando soube que eu me tinha deixado fotografar na minha mesa do Martinho da Arcada, a segurar um pastel de bacalhau numa mão e a escrever com uma caneta na outra, e também sentado ao volante do velho Chrysler. O descendente convencera-me que estas duas imagens dariam credibilidade aos meus relatos e eu acreditara nisso. Também não gostara que eu tivesse cedido um poema inédito para integrar na página de jornal que ficara prometida publicar.

A notícia publicada dois dias depois fez o furor que era de se esperar e o movimento ao meu redor até obrigou o dono do Martinho da Arcada a requisitar um polícia para manter a ordem naquela parte do passeio do Terreiro do Paço. Para além dos turistas habituais, e de muitos mais curiosos do que era habitual, surgiram fornadas de jornalistas a quererem certificar-se da existência de um renascido Fernando Pessoa, que se intitulava Vicente Guedes, conforme afirmava o artigo do descendente de Ferreira Gomes.

Desta vez, Beatriz não me deixara só. Ficou bem mais nervosa do que eu quando pressentiu que o magote de pessoas não iria abrandar e voltou a entrar em pânico quando, para além dos da imprensa escrita, se concentraram vários jornalistas das televisões, apetrechados de microfones, grandes câmaras e holofotes para realizarem diretos para os noticiários da noite. Mantive-me calmo e apenas pedi alguns momentos para ir até à casa de banho fazer um chichi, já que o licor de absinto fazia o seu efeito. Também aproveitei para confirmar que o meu penteado estava impecável e que o bigode se igualava na forma ao do poeta.

Ir e vir foi difícil já que os jornalistas decidiriam acompanhar cada passo dos que dei até à casa de banho. Não sei se receavam que fugisse por alguma porta dos fundos! Havia também os que, durante estes passos, me pediram para declamar um poema, e outros que faziam grandes planos fotográficos para posteriormente compararem o meu rosto como o do falecido Pessoa. Enquanto urinava, também Beatriz foi vítima das perguntas e da curiosidade dos jornalistas, mas nada disse ou explicou. Via-se que ela não era dada a estas coisas de falar com a imprensa como eu, que me sentia já capaz e preparado. Tinha em mente que a principal qualidade de um entrevistado era mostrar confiança e não defraudar os espetadores, daí que tivesse preparado algumas palavras para quando esta situação ocorresse. Também decidira que não iria desvendar muito mais do que já conversara com Ferreira Gomes, um entre os muitos que ali se encontravam, mantendo-se sempre a uma certa distância do epicentro da confusão, como que a observar o efeito da sua notícia e a confirmar que fizera o trabalho completo.

Apesar das insistências, só pronunciei uma única frase: "É agora necessário que eu diga que espécie de homem sou. O meu nome não importa, nem qualquer detalhe externo sobre mim. É acerca do meu carácter que algo deve ser dito. A minha própria recordação dos acontecimentos, das coisas externas é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito daquilo que foi a minha vida passada. Eu, o homem que sustenta que o dia de hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje."

Houve dois momentos na reação dos jornalistas. Primeiro, o tentar entender o significado do que eu afirmara. Segundo, insistir em mais declarações. Claro que percebi que a minha frase não fora digerida com grande profundidade, tal foi a pressa com que passaram à segunda fase, e que nem estavam preocupados com o seu alcance filosófico e heteronímico. O seu interesse era obter uma declaração onde eu afirmasse que era Fernando Pessoa pela via de um heterónimo menos conhecido, o de Vicente Guedes.

Não lhes dei essa satisfação de imediato, havia que manter algum mistério, até porque preferia utilizar o descendente do jornalista como único mensageiro das minhas novidades. Ferreira Gomes fora correto no que publicara e, para felicidade de Beatriz, o artigo era pouco dado a invenções. Notava-se que pretendia tornar-se o canal preferencial da minha pessoa e obra, e até cometera a proeza de ouvir um especialista no poeta sobre o inédito que eu lhe entregara para publicação. Que considerara o poema como na linha dos que escrevera no início da século passado e notara uma vertente heteronímica pouco detetada até ao momento em que o lera, que bem poderia ser de autoria de Vicente Guedes. No seu entender, o poema "era de um desassossego superior ao livro com este título, o que fazia entrever a razão pela qual Vicente Guedes abandonara a autoria daquela obra". Outro especialista confirmava a minha existência como heterónimo e explicava os seus contornos biográficos, e um terceiro questionava que se a possibilidade do regresso de Pessoa fisicamente era de difícil compreensão, ao nível metafísico era de crer na sua possibilidade.

O jornalista não deixara arrefecer o noticiário sobre o estranho regresso de um poeta e na edição seguinte foi mais longe, entrevistou várias personalidades do mundo literário e questionou-os sobre se não tinha chegado a hora de terminar com a secura da Academia Sueca em relação à poesia nacional. Que a língua portuguesa estava em todos os cantos do mundo e continuava ignorada de forma ostensiva pelo Prémio Nobel era a premissa do artigo de duas páginas, com uma grande chamada à primeira página do jornal, em que Ferreira Gomes confrontava os intelectuais da esquerda à direita, da ficção ao ensaio, e, principalmente, os inúmeros poetas que logo se puseram em bicos de pés para terem a sua opinião favorável publicada. Ninguém esteve contra a proposta ao Nobel, antes erigiram de imediato uma grande muralha em defesa de Vicente Guedes e valorizaram o facto de ser tempo de premiar a grande voz poética que corria pelas veias da História de Portugal desde a fundação do país e nunca se calara.

Ferreira Gomes fizera um bom trabalho, daí que eu desejasse privilegiá-lo com as novidades públicas necessárias à minha segunda vida, no que Beatriz também concordou. E assim, quando todos os jornalistas se cansaram de esperar por mais revelações, fiz-lhe sinal para se sentar connosco e conversar enquanto provávamos mais uns pastéis de bacalhau acabados de fazer. Senti que a minha vida estava a chegar a um ponto de não regresso ao que fora até há ao princípio desta manhã. A publicação da notícia que anunciava a aparição de Vicente Guedes e a chusma de reações que se seguiram obrigavam-me a uma segunda vida, quer eu quisesse ou não. Ainda poderia evitá-lo, bastaria dizer que era mentira e que me aproveitara de uma maquinação de Sena. Pelo contrário, caso avançasse, só precisava de manter a versão que agora começava a correr mundo e que me levaria até uma irrealidade que eu era incapaz de imaginar.

De qualquer modo estava tão consciente sobre o que me acontecera nestes últimos meses que já não duvidava que o meu anfitrião apenas fora o parteiro de uma verdade que estava bem dentro do meu íntimo, fazendo de mim o primeiro homem a gerar um filho. Que mesmo nascendo adulto, seria um milagre para a arte da poesia. Não me restava por isso senão avançar com a encarnação de Vicente Guedes, contando para tal com a ajuda preciosa do descendente do jornalista. Foi então que lhe fiz nova revelação, desta vez combinada por antecipação com Beatriz, a de que lhe daria uma nova e espetacular notícia para escrever no seu jornal e continuar a alimentar o fenómeno em torno do novo heterónimo. Contei-lhe que na manhã seguinte pretendia apresentar-me à porta da Casa Fernando Pessoa e reivindicar algumas das suas divisões para morar.

- E tem todo o direito em o fazer!

O esgar de felicidade do jornalista antecipou em todo o seu esplendor os estragos que o furacão Vicente Guedes iria provocar no universo pessoano com esta segunda vida. Por isso, estava certo de que ao bater à porta da Casa Fernando Pessoa iria revolucionar a minha vida e a do poeta para toda eternidade...

Fim

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