China: desafiadora ou ameaçadora?

A China não é uma ameaça para a NATO" foi o título de uma recente entrevista no DN ao brigadeiro-general Nuno Lemos Pires e ao comodoro João Marreiros, autores de um livro a assinalar os 70 anos de Portugal na Aliança Atlântica (fomos um dos 12 membros fundadores em 1949). E apesar do tom especialmente assertivo ontem, durante a cimeira da Aliança Atlântica em Bruxelas, do secretário-geral Jens Stoltenberg, considerando a China "um desafio sistémico", na realidade a própria escolha de palavras diz tudo, porque "ameaça" e "China" nunca foram pronunciadas juntas pelo norueguês.

E a própria declaração final da cimeira, embora identificando a "crescente influência e políticas internacionais" da China como desafiadoras, faz clara diferença entre estas e "as ações agressivas" da Rússia, vistas como ameaçadoras.

O documento, aliás, é muito pormenorizado no que diz respeito à Rússia, enumerando desde o reforço da capacidade em mísseis até às intervenções diretas ou por si patrocinadas de Moscovo na Ucrânia ou na Geórgia, ambas pertencentes ao espaço que foi o da União Soviética (extinta em 1991, dois anos depois da queda do Muro de Berlim). Até existem referências saudosas ao período em que a NATO e a Rússia pós-soviética foram capazes de cooperar.

Sobre a China, há preocupações expressas sobre as ambições militares, sobre o secretismo que rodeia o rearmamento e sobre a confusão entre o que é civil o que é militar, mas para já o que mais parece incomodar a NATO é a parceria estratégica que Pequim está a construir com Moscovo, com a declaração a denunciar os exercícios conjuntos.

Ao contrário dos países europeus, os Estados Unidos olham para a China desde o tempo de Barack Obama e sobretudo de Donald Trump como um adversário, com menor arsenal nuclear do que a Rússia, é certo, mas ao mesmo tempo, pela força da economia e pelo investimento em defesa, o único país que pode desafiar a liderança americana. E nesta sua viagem inaugural à Europa o presidente Joe Biden tem conseguido que o tom usado contra a China pelos vários aliados vá subindo, seja no final da reunião do G7 na Cornualha, seja ontem na capital belga, com os parceiros da NATO, seja talvez hoje na cimeira UE-Estados Unidos.

O próprio Stoltenberg a dizer que "a NATO não quer uma Guerra Fria com a China" é uma fortíssima analogia com o que foi o conflito ideológico entre o Ocidente e Moscovo" durante as décadas que mediaram entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a queda do Muro que dividia a histórica capital da Alemanha.

Para já, a Aliança Atlântica manterá a Rússia como a grande ameaça (Polónia e Países Bálticos, mais memória da Guerra Fria e políticas de Vladimir Putin chegam e sobram para tal), mas não é de excluir que à medida que a China vá expandindo os seus interesses globais, a dado momento uma maioria de membros da NATO passe finalmente de a ver como "desafio sistémico" a vê-la como "ameaça ". Como a América quer.

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