Dois anos depois do incêndio em que morreram 66 pessoas, o engenheiro silvicultor Paulo Pimenta de Castro

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Pedrógão. Dois anos depois, a região é um barril de pólvora

Nesta segunda-feira assinalam-se dois anos do incêndio de Pedrógão Grande, que consumiu mais de 80% da floresta, a maioria eucalipto. Uma equipa do DN percorreu ao lado do engenheiro silvicultor Paulo Pimenta de Castro o caminho do fogo. "Está tudo por fazer. E corremos sério risco de se repetir", avisa o especialista.

Escalos Fundeiros, 8 de junho de 2019. O dia está de primavera, ameno, um vento fresco que sacode os carvalhos do vale onde começou o fogo de 2017, aquele que consumiu o pinhal interior e matou 66 pessoas. Faz dois anos na segunda-feira, dia 17. A equipa de reportagem do DN encontra-se à porta da Associação de Melhoramentos, Cultura e Recreio com Paulo Pimenta de Castro, o engenheiro silvicultor que preside a associação Acréscimo e que aceitou o convite para percorrer o caminho do fogo: atravessar o aglomerado de aldeias, perceber a forma assustadora como o eucalipto foi a espécie que rapidamente se regenerou, ameaçando de novo a floresta e os que vivem lá dentro.

A Acréscimo está fechada. É um edifício relativamente novo, bem conservado, numa aldeia onde não moram mais de 40 pessoas, todas idosas. É quase meio-dia e não se vê ninguém na rua. Haveremos de nos cruzar apenas com um jipe, lá dentro um casal de namorados que passeia pelos caminhos do vale, e que terá de recuar porque não passam dois carros ao mesmo tempo, naquela estrada que nos conduz ao local onde deflagrou o fogo.

"Já imaginou isto a arder? Por onde é que as pessoas fogem?". A pergunta do presidente da Acréscimo há de repetir-se várias vezes ao longo do dia, à medida que formos avançando, como o fogo de há dois anos, mas a menor velocidade.

E é então que a surpresa se mostra: os cabos elétricos estão abaixo da copa das árvores, como há dois anos. Alguns peritos apontam-na como a causa do incêndio. "Depois do acontecimento, tenha ou não sido esta a causa, o facto é que o risco existe", comenta o engenheiro silvicultor.

Os fios são novos, as árvores já recuperaram, as que ficaram queimadas lá estão, por remover. Confrontada pelo DN, a EDP Distribuição lava daí as mãos. "A intervenção no âmbito da gestão da vegetação visa garantir a melhoria da qualidade de serviço e a segurança das populações e da rede elétrica. Assim, a empresa assume as seguintes responsabilidades: inspecionar a rede elétrica e salvaguardar a manutenção das distâncias de segurança, alertando os proprietários para a necessidade de corte ou intervindo de imediato, caso o incumprimento constitua um perigo iminente."

Aos olhos do cidadão comum, o perigo parece existir, mas da lei não. Por outro lado, na resposta enviada pelo gabinete de comunicação, a empresa lembra que nas linhas aéreas de Alta e Média Tensão a distância de segurança a manter da vegetação corresponde a 2,5 metros. "Apenas no caso de o Plano Municipal da Defesa da Floresta Contra Incêndios estar aprovado pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e em vigor a empresa tem de garantir a existência de faixas de gestão de combustível, cuja área de intervenção obrigatória em largura é de sete metros (média tensão) e de dez metros (alta tensão)". Ora, como o plano de Pedrógão Grande continua por aprovar, a empresa está desresponsabilizada dessa obrigação.

"Cabe aos proprietários públicos ou privados o dever de não permitirem a permanência de vegetação junto às linhas que possas interferir com a respetiva exploração", sublinha a EDP Distribuição, que, no caso de Escalos Fundeiros - e depois de ouvidas as equipas operacionais, após "inspeção no terreno" -, considera estarem cumpridas "na íntegra as distâncias regulamentares".

Deixamos os Escalos Fundeiros. Há dois anos, pouco depois das 14.00, o fogo que ali começou - e foi ganhando força com os ventos ciclónicos que entretanto se formaram - seguiu a grande velocidade em direção a Pedrógão Grande. O vento vinha de leste, formando uma espécie de tornado, e empurrou as chamas a mais de 100 km/hora para oeste. Os bombeiros acreditaram que tinham o fogo quase controlado na localidade de Troviscais, a meio da tarde. São vários os relatos de quem diz ter começado "a ouvir explosões", tornando o incêndio imparável e incontrolável, espalhando-se pelos concelhos de Pedrógão, Figueiró dos Vinhos e Castanheira da Pera.

Pelo caminho varre de cinzas e lume as aldeias que ainda são habitadas, consumindo a floresta, as hortas, as casas, as vidas. Chega a Troviscais e Mosteiro, Campelos, Vale da Nogueira, Vila Facaia, Várzeas, Nodeirinho, sobe a serra até Agria, já em Figueiró dos Vinhos, passa pelas aldeias de Vale Salgueiro e Goladinha (onde mora uma vasta comunidade de estrangeiros) e depois segue até à serra do Espinhal, na fronteira com o concelho de Penela.

É sábado, como hoje, está (muito) calor, há mais vida nas localidades do que é usual, pois muitos vieram à terra passar o fim de semana. Alguns para nunca mais regressar a Lisboa, para onde tinham migrado há décadas. Morreram nas estradas secundárias ou na EN236-1, encurralados pelo fumo e pelo fogo.

A invasão do eucalipto

Nos Escalos Fundeiros quase não há eucaliptos. São carvalhos, alguns pinheiros, o eucalipto só aparece na encosta. Mas é a partir do momento em que seguimos para as aldeias mais habitadas que se percebe como esta espécie tomou conta da floresta. "É assustador o que está a acontecer. Não vai demorar muito tempo para se repetir a tragédia se nada for feito", afirma Paulo Pimenta de Castro.
O presidente da Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal - demorou três meses para ir a Pedrógão Grande. Era setembro de 2017 quando pisou pela primeira vez as estradas por onde uns fugiram e outros morreram. "O que observei em primeiro lugar foi um sentimento de perda nas pessoas. A paisagem... estava tudo carbonizado." Era esse o cenário desde a saída da autoestrada até ao IC8, e daí para o resto do território.

Pimenta de Castro está na Acréscimo desde a fundação, em 2011. A associação "nasceu no decurso da constatação de que o país está em desflorestação. Desde a ditadura, a floresta serve para dar resposta às necessidades da indústria que se vai instalando. E não pode ser. Temos de conceber outro tipo de estratégia, que deixe rendimento nas povoações. Porque o que se tem feito com este tipo de plantação é contribuir para o despovoamento". Conclui-se, afinal, que "o pinhal ainda criou algum emprego, o eucalipto não cria emprego nenhum".

Vai ao volante, a uma velocidade lenta, nos caminhos ladeados por eucaliptos numa extensão impressionante. Depois do fogo, as árvores regeneraram-se rapidamente, reproduzindo-se diversas varas à volta do mesmo pé. Por vezes aparece uma mancha verde ordenada, de eucalipto plantado. Paulo adivinha-lhe a idade: "Devem ter uns dois anos, isto surgiu após o incêndio." Mas logo é abafada pela envolvente, em registo matagal.

Deixamos para trás Troviscais e Mosteiro, seguimos para Campelos. Fazemos uma paragem para perceber, no interior do "pinhal" que envolve as casas, se ainda há pinheiros. Pimenta de Castro descobre um ou outro, pequenos, nascidos de sementeira. Mas é o eucalipto que abafa toda a vegetação, sendo fácil distinguir novos de velhos: a folha mais clara e mais larga é juvenil, só com o crescimento fica mais escura, fina e ganha manchas. Uma espécie de óleo altamente inflamável com o fogo.

A maioria dos terrenos cobertos pela espécie considerada invasora estão ao abandono

Tornou-se convicção popular que "o eucalipto dá dinheiro", embora o silvicultor sublinhe que até isso tem de ser desmistificado: "Se eu não tiver custos, e vier cá só ao fim de 12 anos fazer a colheita, obviamente que só tenho um investimento inicial e não tenho despesa nenhuma. Os proprietários fazem as contas a dois cortes: a ideia de que dá rendimento é feita nessa análise. Eu gasto dois mil euros a plantar, para os colocar no terreno, em 12 anos vou lá e faço um corte, recebo cinco mil, no segundo não faço nada a não ser uma seleção de varas. E se ao fim desses ciclos de 12 anos quiser arrancar os pés, é um investimento brutal." Que quase ninguém faz.

O cenário é tão desolador como assustador. "As varas que arderam não foram removidas. A parte subterrânea não morre e entretanto cresceram outras. O que temos aqui é um acréscimo de risco para os próximos anos." Mais: Pimenta de Castro acredita que não demorará muito, talvez não mais de dois anos, até que se repita um fogo gigante como o de 2017, "se nada for feito".

A maioria dos terrenos cobertos pela espécie considerada invasora estão ao abandono. Ali não houve limpeza florestal. Em março deste ano, o presidente da Câmara de Pedrógão Grande dizia ao DN que "está tudo em ação de arder outra vez", lembrando que os proprietários são na maioria idosos e não têm condições (financeiras, também) para garantir a limpeza. Atravessar o terreno deixa essa certeza. Mas não justifica a ausência do plano municipal.

Em dezembro de 2018, o ICNF - Instituto de Conservação da Natureza e Florestas deu parecer negativo à proposta apresentada pela autarquia de Pedrógão Grande. Entre as diversas inconformidades destacava-se uma omissão relevante: a câmara não referiu que o concelho foi devastado pelo fogo de há dois anos.
O DN quis confrontar o presidente - Valdemar Alves -, mas todas as tentativas se revelaram infrutíferas.

Faixas de gestão - o que menos importa

Não há faixas de gestão de combustível em nenhuma das estradas das localidades afetadas pelo fogo de 2017. Mas o presidente da Acréscimo não lhes atribui tanta importância assim. "Haveria outras medidas para reduzir o risco. As faixas não são propriamente o mais indicado, causam grande pressão, e do ponto de vista político dão a impressão de que estamos a fazer alguma coisa, quando na realidade, do ponto de vista prático, resulta em muito pouco", diz ao DN.

Numa das paragens, entre Vila Facaia e o Nodeirinho, Pimenta de Castro adverte para o perigo "de estas árvores nos caírem em cima". São pinheiros, dos poucos que ainda se vislumbram, e estão em carcaça. "O pinheiro quando queima acaba por cair, mais cedo ou mais tarde. Uma quantidade de insetos introduz-se na madeira, que se vai deteriorando."

Na verdade, muito pouco foi limpo das matas que arderam. E quando olha para o avanço rápido que as espécies invasoras fizeram no terreno, Pimenta de Castro diz que não compreende de que é que o Estado está à espera para começar a atacar o problema. "Quando vemos o incêndio a atravessar linhas de água, como vimos por exemplo em outubro a atravessar a barragem da Aguieira, com a maior das facilidades, ou quando atravessa o Tejo. Percebemos que as faixas ajudam nos caminhos, mas quando o incêndio já está em progressão, de pouco adianta."

Intervir no edificado

O que deveria ser feito, então? "Devíamos atuar sobretudo sobre o edificado. Assegurar que as casas não têm materiais combustíveis, sobretudo ao nível do telhado, que não têm entradas que possam facilitar a penetração em casa de material em combustão, no sentido de pelo menos as pessoas puderem abrigar-se em casa em cenário de fogo", afirma o engenheiro silvicultor, que aponta essa como "a principal linha de ação; e depois as faixas junto às povoações, de 50 a 100 metros. A questão é que o país não é viável com a limpeza anual de faixas de 50 ou 100 metros. Tem de haver uma resposta mais musculada e isso implica que existam políticas de ordenamento do território, no sentido de dar sustento às famílias para elas puderem fixar-se no território e desenvolverem atividades junto às povoações".

É disso que fala também no livro Portugal em Chamas, lançado há um ano, em parceria com João Camargo. "Que retirem as árvores para uma distância segura, mas que esse terreno renda sustento. Nós não podemos conceber faixas de 50 ou 100 metros que gerem apenas despesas anuais aos proprietários. No fundo, é retroceder um pouco na tal estratégia de desenvolvimento no sentido de conceder apoios à agricultura familiar."

À beira da estrada que liga Vila Facaia a Nodeirinho há um camião com grua carbonizado. Tal como as árvores, também este equipamento nunca foi removido. Paulo Pimenta de Castro continua a guiar pelos caminhos do fogo e constata que, afinal, "falta fazer tudo. Fazer alguma coisa implica um forte investimento público, sobretudo nas pessoas". Fala da necessidade de trazer técnicos para o terreno, no sentido de apoiar as populações.

Um resgate para a floresta

"Não basta dizer "é preciso mudar a paisagem", é preciso claramente apoio técnico, soluções, mecanismos de segurança para que as pessoas possam refugiar-se. Precisamos de um serviço de extensão. Um técnico que venha ao terreno perceber qual é o problema das pessoas. Precisamos de um resgate para a floresta como fizemos para os bancos", considera.

O interior já era há muito um território abandonado pelos serviços centrais do Estado. Com o fogo, houve a esperança de que a tragédia tivesse servido para destapar essa vergonha, mas não passou daí. "Uma das funções da câmara é exigir ao governo que disponibilize os meios necessários para mudar este território. Não o fizemos por opção. Quando entramos numa política de cativações, o dinheiro há de ir para um lado, não pode ir para o outro." Pimenta de Castro considera-se um social-democrata, e por isso é curiosa a associação ao bloquista João Camargo.

Depois do fogo, volta a Pedrógão com frequência. Fez lá amigos. Como o casal João Viola e Dina Duarte, do Nodeirinho. Naquela aldeia morreram 11 habitantes. João era familiar de vários. "A vida até pode continuar, mas isto é uma coisa muito difícil de esquecer. E o pior é que se não se fizer nada, não tarda nada vai repetir-se", conta o morador.

Quando chegamos ao lugar salta à vista o tanque onde doze pessoas se salvaram, e o monumento erguido há um ano, em memória das vítimas. Na estrada que segue para a aldeia da Figueira, todos sabem onde foi que morreram alguns dos moradores quando tentavam fugir do fogo. Está assinalado, por exemplo, o lugar onde morreu a pequena Bianca, de apenas 3 anos, e a avó Odete. A mãe não conseguiu retirar-lhe os cintos da cadeira, voltou à aldeia para pedir ajuda, já queimada, e foi salva no tanque. É uma das memórias mais dolorosas do fogo, e da aldeia.

Por ser sábado, é dia de trabalho na casa de Anabela, na Figueira. Desde o verão de 2017 que um grupo de voluntários de Pombal, Leiria e Ansião se dedica ao projeto Reconstruir, cuja mão-de-obra e materiais são cedidos gratuitamente. É hora de almoço e o grupo recupera forças à volta de uma feijoada. Joel Silva, o mentor da ideia, diz ao DN que "está quase. Já estamos na fase dos acabamentos". O grupo sofreu um revés com as notícias da alegada fraude na reconstrução das casas, que atingiu toda a credibilidade da região. "Num dia como o de hoje, com bom tempo, teríamos gente até lá fora", desabafa, entre os companheiros. Hoje são 12, já chegaram a ser mais de 20. A família - que viu a casa destruída na noite de 17 de junho - vive de empréstimo em casa de familiares, até que a moradia fique pronta.

Atravessamos agora aquela que ficou conhecida como "a estrada da morte", a N236-1, a caminho de Castanheira de Pera. Há remendos negros no alcatrão que denunciam o local das mortes. E há flores à beira da estrada, aqui e ali, sobretudo nos cruzamentos. No rasto do fogo, seguimos até ao concelho de Figueiró dos Vinhos. Entre Vale Salgueiro e a Goladinha mora uma comunidade de estrangeiros que só o fogo tornou visível. Reconstruíram as casas sozinhas, sem ajudas, alguns criaram na internet campanhas de crowdfunding, como os alemães Walter e Christiane Grünecker. Não estão em casa, mas o aspeto denota uma recuperação quase total.

O fogo, descontrolado e imparável, só parou na serra do Espinhal, já no concelho de Penela. Durante meses a paisagem foi castanha, até rebentarem fetos e eucaliptos. Agora é verde, mas não é de esperança.

66

O combate ao fogo demorou uma semana. Morreram 66 pessoas, 47 encurraladas na estrada 236-1. Mais de 250 ficaram feridas. O incêndio consumiu mais de 45 mil hectares, segundo o ICNF, destruiu cerca de 500 habitações, 169 de primeira habitação, 205 de segunda e 117 já devolutas.

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