Justiça portuguesa criticada por jornalistas que cobrem o caso Rui Pinto

O The Guardian publicou um artigo em que a figura central é o hacker português. O Football Leaks é visto como "um grande escândalo político em Portugal" - e as ligações a António Cluny estão no centro da polémica.

Hacker ou whistleblower? Rui Pinto poderá ser uma e outra coisa. E até as duas, embora a imprensa internacional pareça já ter escolhido um lado ao chamar-lhe "o Edward Snowden do futebol". Num artigo publicado no The Observer - a versão de domingo do The Guardian, assinado por Ed Aarons - que já tinha escrito sobre Rui Pinto no início do mês de março -, o jornalista põe em causa a eficácia e a independência da justiça portuguesa no tratamento dado ao hacker.

O artigo recupera a história da ligação do representante português na Eurojust, António Cluny, e do alegado conflito de interesses por não ter declarado que o filho, João Lima Cluny, é associado do escritório de advogados Morais Leitão, que representa Cristiano Ronaldo, José Mourinho e outros agentes do mundo do futebol em casos de justiça levantados pela divulgação dos documentos do Football Leaks.

Ed Aarons entrevistou Rafael Buschmann, jornalista da Der Spiegel e o primeiro a ter falado com Rui Pinto na Hungria, há quatro anos, além de coautor do livro Football Leaks - Revelando os Negócios Obscuros por Trás do Jogo, lançado em maio de 2018. É dele a declaração: "(...) em Portugal [o caso de Rui Pinto] é um escândalo político muito grande e é muito difícil saber o caminho que [o processo] vai seguir".

Rui Pinto é descrito como "o ex-aluno por detrás do site Football Leaks, que já expôs numerosos exemplos de corrupção ao mais alto nível desportivo" e conta como "está detido enquanto aguarda julgamento, apesar dos protestos dos seus advogados, que alegam que rui Pinto deveria ser libertado sob fiança".

É ainda recordada a conferência de imprensa organizada pela eurodeputada Ana Gomes - uma das defensoras do estatuto de whilstleblower do português - com a presença dos advogados de Rui Pinto e do "lançador de alertas" do Lux Leaks, Antoine Deltour.

Rui Pinto "à mercê das autoridades portuguesas"

O The Guardian segue a mesma linha que tem sido adotada pela Der Spiegel - que tem criticado duramente a justiça portuguesa por ter extraditado o português e por o manter em prisão preventiva. "Enquanto o homem descrito como o Edward Snowden do futebol aguarda o seu destino (...), agora está à mercê das autoridades portuguesas", lê-se.

O artigo revela também que os procuradores franceses "estão a negociar com os seus colegas portugueses a possibilidade de Rui Pinto receber imunidade contra a alegada extorsão aos agentes da Doyen Sports, em 2015, para os ajudar nas investigações sobre a corrupção no futebol".

A França terá já tido acesso a mais 26 terabytes dos dados hackeadospor Rui Pinto, que se juntam aos 70 milhões de documentos provenientes de 3,4 terabytes de informações fornecidas anteriormente ao grupo European Investigative Collaborations (EIC), formado por órgãos de comunicação social de vários países - e ao qual pertence a Der Spiegel.

O texto refere como poucas semanas após a extradição e a detenção de Rui Pinto o Parlamento Europeu se prepara para votar a primeira diretiva para proteger os denunciantes - ainda durante este mês.

"Até agora, muitas das leis da União Europeia sobre denúncias protegiam apenas as pessoas que estavam dentro de uma empresa ou organização, mas acho que no futuro podem existir muitos mais a agir como Rui [Pinto] ou como John Doe [dos] Panama Papers, ambos outsiders que tornaram esses dados públicos ", disse Rafael Buschmann ao The Guardian.