"Quero voltar à escola desde o dia em que fomos para casa"

Talvez nunca como neste ano os alunos portugueses tenham tido tanta vontade de regressar às aulas. Seis meses depois do anúncio pelo primeiro-ministro do encerramento das escolas devido à pandemia que parou o mundo, começa um novo ano letivo. Mesmo novo, porque é tudo diferente. Quais são as expectativas e preocupações de alunos, pais, professores e governo? Foi o que procurámos perceber.

Entre hoje e quinta-feira, 17 de setembro, começam as aulas para quase dois milhões de crianças e adolescentes portugueses, do pré-escolar ao ensino secundário, que, quando cruzarem os portões da escola, vão deparar-se com uma realidade muito diferente da que deixaram no dia 12 de março.

Os espaços serão os mesmos, os cantos, que muitos conhecem como os de sua casa, também, mas as regras serão outras. E muitas. Cumpri-las ajudará a reduzir o risco de transmissão de covid-19 e a evitar surtos no ambiente escolar. Não o fazer aumentará a probabilidade de voltar para casa. E isso é o que (quase) ninguém quer.

No dia da apresentação ou receção ao aluno, que varia de escola para escola, mas acontecerá até dia 16, os estudantes serão informados das regras e procedimentos adotados pela sua escola. Os pais já o terão sido, nas reuniões com os encarregados de educação, que ou já aconteceram na semana passada ou acontecerão no início desta. E na quinta-feira, dia 17, espera-se que todas as escolas do país estejam em pleno funcionamento.

"Até sonhei com a escola e que o covid ia embora, mas não foi"

É nesse dia que Matias Gil, de 7 anos, quase a fazer 8 ("faltam cinco semanas"), vai começar o 2.º ano na EB do Alto de Algés, do Agrupamento de Escolas de Miraflores. Voz rouca, corpo irrequieto, cara de pirata, diz que já conhece as novas regras da escola. "Proteger do covid. Lavar as mãos, pôr álcool em gel quando entramos e quando vamos para o recreio e estar de máscara", diz ele, expectante de perceber se acertou na resposta.

Está muito contente por voltar à escola e até sonhou com isso. "Tive muitos sonhos da escola, sonhei que voltava e fazíamos uma festa para o covid ir-se embora, mas ele não foi", diz, desiludido.

À custa disso, chateia-o que já não possa correr e jogar à bola como fazia, mas tem tudo planeado. "Nós temos lá um campo grande e não estamos muito perto uns dos outros, podemos só passar a bola e também podemos correr afastados dois metros", diz, confessando que o que lhe vai custar mais é não poder aproximar-se muito dos amigos.

"Tenho saudades, mas quando chegar ao pé deles vou dizer: 'dois metros'", explica, esticando as mãos para a frente em sinal de afastamento.

A turma será a mesma, com a qual já não está há seis meses e não vê desde que "acabou a escola em casa e recebemos as notas. Não falei mais com eles porque eram férias", mas acha que vão portar-se todos bem e cumprir as regras que a professora ensinar.

Marta Rodrigues, 13 anos quase a fazer 14, vai para o 9.º ano da EB23 Luís de Camões, em Lisboa, e também confia que a maioria dos alunos vai adotar as medidas de segurança impostas pelas escolas. "Não é assim tão difícil. Se os médicos estão o dia todo, todos os dias, de máscara, não é assim tão complicado nós usarmos só de manhã ou só de tarde."

Amanhã, terça-feira, é que vai ter a apresentação, mas já sabe "uma parte das regras" que neste ano terá de cumprir. "Sei que a escola vai tentar que estejamos a um metro de distância uns dos outros, que vão dividir zonas no recreio e só podemos estar com a nossa turma, que vão estar sempre a desinfetar as mesas e que temos de estar sempre de máscara", diz, admitindo que tem pena de não poder estar com os amigos que, "como é óbvio", tem nas outras turmas, mas percebe a necessidade de distanciamento físico. "Claro que gostava de estar com eles, gosto de conviver, mas, por enquanto, assim é mais seguro e eu também tenho os amigos da minha turma."

Quer muito voltar às aulas, porque gosta da escola e de aprender, mas "a escola não é só isso, também tem a parte social e do convívio, que me faz falta. Vai ser diferente, mas pelo menos vou poder ver e falar com os meus amigos, com quem não estou há seis meses. É bom estar com alguém fora da família".

E se no início, pensa Marta, vai ser mais difícil manter as distâncias, "porque vai ser feliz reencontrarmo-nos e algumas pessoas vão esquecer-se das regras", a estudante está certa de que, com o passar das semanas, "vamos habituar-nos e o cumprimento das regras vai passar a ser normal", diz.

Catarina Martins, 16 anos, espera bem que sim. Vai para o 11.º ano da área de ciências na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, apesar de ainda não saber bem quais são as regras, porque ainda não houve reunião de pais e a apresentação aos alunos será só nesta semana, tem a certeza de que a sua escola estará bem organizada.

"Sei que temos de manter o distanciamento e usar máscara e mais uma série de procedimentos que vamos ficar a conhecer nesta semana e, da minha parte, sei que vou cumprir, mas o sucesso das medidas depende da atitude das pessoas. Se toda a gente cumprir, vai correr bem", diz a aluna, que só quer é voltar à escola.

"Desde o primeiro dia que fomos para casa que eu quero voltar. Preciso de estar na escola. Os materiais de estudo que os professores enviaram e utilizaram no ensino à distância são importantes, mas nada substitui a experiência presencial do professor, isso não se consegue transmitir à distância e é particularmente importante na minha área, que é de ciências."

Do que tem mais medo é de que, "devido à irresponsabilidade de alguns, voltemos todos para casa outra vez. O 11.º ano é muito importante, conta muito para a média e acho que é preciso estar na escola", diz.

Como Marta, o estudo em casa correu bem a Catarina, mas fez-lhe falta o convívio. "Espero mesmo que se consiga cumprir, porque preciso de conviver com pessoas sem ser a família e os amigos mais próximos, ver gente, fazer desporto, estar com os meus amigos, falar de coisas", diz.

As (novas) regras da escola

O que vão encontrar o Matias, a Marta e a Catarina, quando regressarem às aulas? As orientações do Ministério da Educação para a organização do ano letivo 2020-2021, elaboradas em conjunto pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), Direção-Geral da Educação (DGE) e Direção-Geral da Saúde (DGS), e o Referencial Escolas, da DGS, foram os documentos que nortearam as escolas na definição das novas regras e procedimentos. Apesar de poderem ter variações, em virtude das especificidades de cada estabelecimento de ensino, que as adaptaram à sua realidade, "o novo normal", essa detestável expressão, dos alunos portugueses será muito diferente do antigo.

Antes de mais a máscara, que será obrigatória a partir do 2.º ciclo e deve ser usada durante todo o tempo que o aluno passa na escola, com exceção do momento em que está a comer ou a praticar Educação Física. No 1.º ciclo não é obrigatória, mas algumas escolas estão a recomendar a sua utilização por parte das crianças. No pré-escolar não é recomendada.

Os alunos portugueses receberão um kit com três máscaras reutilizáveis para o primeiro período e muitas escolas aconselham a que levem sempre uma suplente e um frasquinho de álcool em gel. Sem máscara, será proibida a entrada na escola. Professores, funcionários, pais e fornecedores (que só devem entrar na escola se estritamente necessário) têm de usar máscara sempre.

O álcool em gel é outra poderosa arma na luta contra o SARS-Cov-2 nas escolas. Além da recomendação de o trazerem sempre consigo, os estabelecimentos escolares devem ter dispensadores do mesmo à porta da escola e à entrada de cada bloco ou recinto, que os alunos devem utilizar sempre que entram e saem. A lavagem e desinfeção das mãos será uma das palavras de ordem, tendo os miúdos o dever de proceder às mesmas frequentemente, sobretudo antes e depois de comerem, de usarem a casa de banho ou das aulas de Educação Física.

Por falar em casas de banho, se estas sempre foram uma dor de cabeça em ambiente escolar, prometem agora ser um verdadeiro desafio. Cada escola definirá as suas regras, mas a geral é que exista uma lotação máxima condicionada aos espaços de utilização individual e seja feita higienização após cada utilização.

Outro desafio será o de garantir o distanciamento físico recomendado. Filinto Lima, presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, já reconheceu, em entrevista ao DN que esta será das medidas mais difíceis de cumprir, pelo menos dentro da sala de aula, onde a DGS recomenda que, sempre que possível, se mantenha uma distância de um metro entre os alunos. "Não vai ser fácil porque as salas têm, de um modo geral, 50 metros quadrados ou menos e temos turmas com 28 alunos, algumas com 30", alerta.

Para mitigar esta dificuldade, as escolas vão, sempre que possível também, manter janelas e portas abertas, para um melhor arejamento das salas, e dispor as secretárias todas orientadas na direção do quadro, de forma a evitar que os alunos estejam frente a frente.

Cada turma terá uma sala atribuída e cada aluno um lugar fixo. O material a levar para a escola deve ser o mínimo indispensável e as mochilas devem ser colocadas nas costas da cadeira e nunca em cima da mesa. As salas serão higienizadas depois de cada utilização e à primeira hora o professor borrifa as secretárias com desinfetante que os alunos terão a tarefa de limpar com toalhetes de papel que depois deitarão no lixo.

É proibida a partilha de objetos, material escolar e alimentos e os alunos não estão autorizados a levar para a escola skates, bolas e quaisquer objetos que não sejam imprescindíveis ao estudo, até porque não podem permanecer na escola para além do seu horário letivo.

Os horários terão sido um autêntico quebra-cabeças para os diretores e professores, que em muitos casos decidiram passar a abrir a escola mais cedo e fechar mais tarde, para conseguir maior margem de manobra. No pré-escolar e no primeiro ciclo, criaram-se na generalidade das escolas horários de entrada e saída desfasados para evitar concentração de pais e alunos à porta da escola, onde devem deixar os seus filhos, sem entrar no recinto, e cada turma/sala só poderá entrar e sair no intervalo horário definido, sem tolerância para atrasos.

A partir do segundo ciclo, a opção foi concentrar umas turmas/anos no período da manhã e outras no da tarde, evitando ao máximo horários mistos, não sendo permitida a saída da escola para almoçar ou quando há furos. Mais uma vez, tolerância zero para atrasos. Quem não entrar à hora definida, só poderá entrar no bloco horário seguinte.

Os intervalos serão menos e mais curtos e cada turma terá uma área de recreio atribuída, só devendo ter contacto com os colegas da sua turma.

O bar, o refeitório, a biblioteca, a sala de informática e outros espaços comuns terão lotação limitada, determinada por cada escola em função das suas especificidades, e algumas optaram até por fechar alguns deles.

O almoço foi outra questão que implicou planeamento estratégico. Se nas escolas básicas, a solução passa por horários desfasados no refeitório ou o consumo da refeição na sala, nos níveis de ensino posteriores, a maioria das escolas prevê a possibilidade de take-away ou o almoço por turnos. Uma coisa é certa: os talheres e guardanapos terão de vir embalados, as mesas e cadeiras, alternadas, serão desinfetadas entre as refeições e as mãos têm de ser desinfetadas antes e depois de comer.

A circulação no recreio e nos blocos estará sinalizada com setas no chão, assim como as distâncias a manter nos espaços que impliquem aguardar numa fila, de forma a garantir o distanciamento físico e a evitar o cruzamento de pessoas.

A papelaria, a reprografia, a secretaria e outros serviços também terão regras específicas de funcionamento e a sua utilização será limitada, em horário e lotação. O atendimento, reuniões ou comunicação com os pais deverá privilegiar os meios digitais ou o telefone, para reduzir ao mínimo indispensável a sua presença na escola.

No planos de contingência deverão estar previstos todos os procedimentos a tomar no caso de suspeita de covid-19 e as escolas têm de ter, para o efeito, uma sala de isolamento, onde só pode estar um aluno de cada vez, a não ser que sejam coabitantes.

A medição de temperatura à entrada, que algumas escolas preveem nas suas regras, não é obrigatória nem recomendada, de acordo com o "Referencial Escolas" da DGS.

"O que mais me preocupa é termos de ser nós a ensinar a nossa filha a ler e a escrever"

Elsa Dias, mãe da Catarina, que vai para o 11.º ano, e do André, que vai para o 8.º, na Fernão Mendes Pinto, em Almada, concorda com a generalidade das medidas previstas para a reabertura e funcionamento do novo ano letivo. A sua grande preocupação é que não exista a capacidade instalada para pô-las completamente em prática e fazê-las cumprir.

"Preocupa-me que a escola não consiga controlar os comportamentos, não tenha funcionários suficientes para o trabalho acrescido de higienização e vigilância do cumprimento das regras pelos miúdos", diz.

A sua expectativa é de que as escolas e os alunos se adaptem à pandemia e às medidas para a enfrentar e que as aulas presenciais se mantenham para que neste ano letivo seja o mais normal possível, mas considera que temos de estar preparados para um eventual reconfinamento. "Defendo que a escola seja presencial, mas se a situação epidemiológica o justificar não sou contra que voltem a fechar e, em último caso, se entre no plano B ou C de ensino misto ou à distância."

Joana Monteiro, mãe da Leonor, 5 anos, que está no pré-escolar, e da Mariana, 9 anos, que vai para o 4.º ano, no agrupamento de escolas de Vagos, em Aveiro, é mais crítica. Ainda não teve as reuniões de pais e a informação de que dispõe é a que está no site do agrupamento, mas, se no seu caso particular não é um problema deixar a mais nova no portão da escola, considera, de uma forma geral, a medida adotada no pré-escolar um pouco radical.

"A Leonor já está há três anos no pré-escolar e é muito descontraída, mas se fosse a mais velha, que é muito tímida e tinha dificuldade em separar-se dos pais, a situação seria mais complicada. Há meninos que precisam de uma adaptação mais gradual e acho que devia ter-se encontrado um meio-termo, até porque os pais entrarem, não digo nas salas, mas até meio caminho, não seria uma ameaça assim tão grande em termos de transmissão de covid, se fosse feito com precauções. Há instituições em que a porta é mesmo uma porta, uma barreira física, e isso pode ter um sério impacto em crianças mais tímidas ou que entram pela primeira vez e não têm rostos de referência, não conhecem ninguém e vão para um lugar novo e enorme", diz.

As outras grandes preocupações de Joana prendem-se com a perceção com que os mais novos poderão ficar da escola e com a desvalorização da noção de partilha.

"Preocupa-me não poder haver partilha de absolutamente nada, sobretudo nas idades mais novas em que se estão a formar os conceitos, as ideias, os valores. O terem de manter as distâncias, os intervalos desfasados, o não poderem brincar com os brinquedos uns dos outros faz-me confusão. A partilha e a interação ficarão comprometidas, e, numa sociedade cada vez mais narcísica e individualista, isto pode potenciar alguma distorção do que é importante em termos dos valores que nós enquanto pais defendemos, de partilha e inclusão", diz.

O contrabalanço fá-lo em casa, mas a preocupação mantém-se, porque não lhe parece que esta seja uma crise passageira. "Vai demorar a passar e vai deixar marcas se não for trabalhado. Outra coisa que me preocupa é a perceção com que eles vão ficar da escola, e aqui estou a pensar mais na minha filha mais velha, que está no 4.º ano e que vai ter intervalos mais curtos, terá de fazer as refeições dentro da sala e não viverá tanto a escola como o lugar feliz, onde se aprende e se convive", diz Joana, que considera que, "doa a quem doer, o país não pode voltar a parar".

"O primeiro confinamento foi importante para as pessoas tomarem consciência da gravidade da doença, a levarem a sério e perceberem a importância de a prevenir e dos cuidados a ter, mas agora o país não pode voltar a fechar-se, porque o impacto foi brutal e, se o fizermos, corremos o risco de morrer mais da cura do que da doença."

Patrícia Valente, mãe da Maria João, 6 anos, que vai para o 1.º ano, da EB Feliciano Oleiro, em Almada, partilha as preocupações de Joana. Já teve reunião de pais na segunda-feira passada e ficou a par das regras que vão marcar o ano letivo de 2020-2021.

O horário de entrada será impreterivelmente entre as 09.00 e as 09.15, os meninos só podem estar com os colegas da sua turma, no recreio e no refeitório existirão horários desfasados das outras turmas do mesmo ano e o intervalo de meia hora será passado 15 minutos na sala e 15 no recreio. Vai ser medida a febre todos os dias e é recomendado o uso de máscara, apesar de não ser obrigatório. Os meninos vão ser responsáveis pela desinfeção de mesas e cadeiras e não podem levar nada de casa nem partilhar o que quer que seja, "nem sequer um lápis".

"A mensagem da importância da partilha, em que andamos a insistir há anos, será completamente apagada. Isso preocupa-me, assim como a sobrecarga de responsabilidade em crianças muito pequenas, o pouco tempo para brincar e o diminuto espaço de manobra para interagir com os outros. O meu medo é que a escola se torne aborrecida para eles", diz Patrícia.

A filha, no entanto, não pensa noutra coisa. Há mês e meio que pergunta todos os dias quando é que começa a escola. "Temos estado a fazer o trabalho de casa de prepará-la para a nova realidade, o 1.º ano, os novos amigos, as novas regras. A Maria João já conhece a escola, andava lá no pré-escolar, mas há seis meses que está longe e está muito ansiosa por voltar. Ficou tranquila quando lhe dissemos que tínhamos de a deixar no portão. Ela quer é tornar-se crescida."

Patrícia que retomou a normalidade há meses, com todos os cuidados, mas sem deixar que o medo condicionasse a vida da família, espera que a escola se mantenha presencial e consiga adaptar-se à nova realidade imposta pelo vírus.

"O que mais me preocupa é termos de ser nós a ensinar a nossa filha a ler e a escrever. Por muita instrução e formação que tenhamos, esse é um trabalho da escola. Na reunião de pais, percebi que estão preparados para acionar o plano de ensino à distância se for preciso, mas ela precisa da escola, de estar na escola, de conviver e o primeiro ano é muito importante na definição do gosto pela escola e pelas aprendizagens, que, se não existir, pode influenciar todo o percurso futuro", considera Patrícia.

"O ensino presencial é fundamental"

Não são só os pais e os miúdos que querem a escola na escola. Apesar das reticências colocadas pelos professores, o governo, o presidente da Associação Nacional de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), a Sociedade Portuguesa de Pediatria e o Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos e a própria Direção-Geral da Saúde já tornaram claro que o ensino presencial deve ser a prioridade, neste ano marcado pela pandemia e pelos meses de confinamento e ensino à distância.

O primeiro-ministro António Costa afirmou em várias intervenções que "a escola pública e o ensino presencial são fundamentais para combater as desigualdades" e assegurou que uma situação de confinamento "é um não cenário", porque o país não a suportaria. "A melhor forma de não voltarmos a parar é sermos todos muitíssimo disciplinados no cumprimento das regras. Temos de manter esta pandemia controlada e isso exige uma enorme disciplina da parte de todos nós", disse o primeiro-ministro, na semana passada, no discurso que fez na Alfândega do Porto, por ocasião da Capital do Móvel.

Também o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues tem deixado clara esta prioridade e voltou a fazê-lo no anúncio da continuação do programa #EstudoEmCasa, na RTP Memória, agora alargado ao secundário, mas que funcionará como complemento ao ensino presencial.

"Queremos que as aulas sejam presenciais e trabalharemos todos os dias com as escolas, os professores, os pais e as autoridades de saúde para que a escola aconteça nos nossos estabelecimentos de ensino", disse, apresentando a nova hashtag #escolaemsegurança e os vídeos nos quais são explicadas as regras a seguir pelos estudantes que regressam às aulas nesta semana.

Filinto Lima, presidente da ANDAEP, nem quer ouvir falar em regime misto e não presencial, apesar de garantir que as escolas públicas estão preparadas para ambos os cenário.

"Que ninguém pense que de futuro se vai repetir o dia 12 de março, antes do jantar, quando o primeiro-ministro disse aos portugueses que a partir do dia 16 de março, que era uma segunda-feira, as aulas iriam ser dadas a partir de casa. Agora, não vai ser assim, a decisão será local, é dentro da escola, pode ser uma turma a confinar e o resto das turmas continuarem na escola e isso mediante um parecer do delegado de saúde local que terá de ser validado pela DGEstE regional", disse, em entrevista ao DN, em que chamou a atenção para importância de todos perceberem que não há risco zero, nem na escola nem em lado nenhum, daí ser fundamental o cumprimento das regras definidas.

"Tomara eu que a sociedade lá fora cumprisse as regras que nós vamos cumprir e fazer cumprir dentro das escolas, porque de nada vale que os nossos alunos se portem muito bem e cumpram todas as regras e depois cheguem a casa e façam tudo ao contrário", acrescentou.

Para a Sociedade Portuguesa de Pediatria há mais a ganhar do que a perder com o ensino presencial. Numa carta aberta, divulgada no seu site, os especialistas, como noticiou o DN, defendem que a escola virtual terá implicações sérias no desenvolvimento das crianças e que o risco do ensino presencial é inferior ao risco a que as crianças estão expostas noutras situações do seu dia-a-dia. Os pediatras acrescentam que, nos países onde as crianças já regressaram às salas de aulas, não há notícia de um aumento significativo de surtos associados a esta realidade.

Acreditam, portanto, que é possível planear uma retoma segura do ensino presencial, tendo em conta as orientações sanitárias das autoridades de saúde. "Para proteção de todos, o mais importante continua a ser o comportamento responsável dos adultos, na escola mas também na comunidade, com cumprimento estrito das normas de distanciamento social físico e de higienização recomendadas, o isolamento precoce de casos sintomáticos e o rastreio rápido dos contactos", dizem no documento assinado pela direção da Sociedade Portuguesa de Pediatria e pela direção do Colégio de Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos.

A DGS, no documento que produziu para orientação das escolas na redução do risco de transmissão de covid-19, sustenta a mesma ideia, salvaguardando, no entanto, que o contributo das crianças na transmissão de SARS-CoV-2 não é ainda bem conhecido, pelo que são necessários mais estudos e que, embora os menores possam ser menos afetados, importa considerar o elevado número de contactos que estes podem ter no contexto escolar e na comunidade. Ainda assim, esclarece que "até hoje foram relatados poucos surtos envolvendo crianças ou estabelecimentos de educação ou ensino e que o baixo número de casos entre pessoal docente e não docente sugere que a disseminação de covid-19 em contexto escolar é limitada".

Uma volta pelos regressos às aulas em todo o mundo, dada pelo jornal El País, mostra como cada país está mais ou menos apreensivo, com os países do sul da Europa, onde o número de novos casos está a aumentar, mais cautelosos enquanto os do norte revelam alguma tranquilidade,

Como dizia a Catarina, de 16 anos, "o sucesso das medidas depende da atitude das pessoas, se toda a gente cumprir, vai correr bem". É o que todos queremos.

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