Premium O fim do mundo às prestações

Apesar da sua ubiquidade e polivalência, o nosso modelo cultural para o Apocalipse é relativamente estável: algo horrível acontece num momento e, no momento seguinte, nada igual.

Uma herança febrilmente homogeneizada por vários mitos e monoteísmos - e consolidada nos anos da Guerra Fria, durante os quais parecia de facto a hipótese mais plausível - a catástrofe súbita e irrevogável tornou-se o atalho estenográfico de eleição para imaginar o colapso civilizacional. O asteróide chega e os efeitos especiais são activados. A bomba explode e o cenário é incinerado. A onda gigante arrasta tudo à sua frente. O protagonista acorda de manhã e descobre que as ruas estão pejadas de zombies. É talvez um acidente imaginativo inevitável que este modelo se tenha confundido com o modelo para criar distopias literárias e cinematográficas, que (com raras excepções, como Children of Men), são demasiado drásticas para parecerem extrapolações do presente em vez de realidades alternativas, e parecem incapazes de reconhecer que, historicamente, campos de extermínio costumam coexistir com esplanadas onde as pessoas continuam a beber café.

Um dos aspectos mais originais do romance The Peripheral (2014) foi o esforço de William Gibson para criar um modelo diferente. O jackpot desse livro é um apocalipse sistémico e multicausal que se prolonga por várias décadas. Nada catastrófico acontece (o asteróide não chega, a bomba não explode). Minicalamidades vão-se sucedendo, uma de cada vez, ou várias ao mesmo tempo - secas, colheitas devastadas, resistência a antibióticos, epidemias locais - sem efeitos especiais barrocos, e sem que o progresso noutras áreas deixe de acontecer. "Não houve uma qualquer inovação heróica, mas inovações graduais: fontes de energia mais baratas, novas drogas para substituir os antibióticos, nanotecnologia, novas formas de produção alimentar (...) tudo, não importa quão profundamente fodido, era constantemente iluminado pelo Novo." Como cantavam os Talking Heads, enquanto as coisas caíam aos bocados, ninguém prestou muita atenção.

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