Mataram oito na escola onde estudaram

Guilherme Monteiro, 17 anos, e Luiz Castro, 25, que tinham estudado na Escola Professor Raul Brasil, na pacata cidade de Suzano, mataram o tio do primeiro, duas coordenadoras e cinco adolescentes no massacre.

Dois antigos alunos de uma escola pública de Suzano, pacata cidade de 300 mil habitantes a 34 quilómetros de São Paulo, mataram oito pessoas, das quais cinco menores, e feriram dez, na manhã desta quarta-feira (13 de março). Os atiradores, Luiz Castro, 25 anos, e Guilherme Monteiro, 17, também morreram. A polícia científica está a investigar se os homicidas se suicidaram ou se foram abatidos por três agentes da força tática da polícia paulista quando tentavam entrar no centro de línguas da escola, onde dezenas de alunos se encontravam.

Luiz trabalhava como auxiliar de jardinagem com o pai em Guaianases, uma cidade a 14 quilómetros de Suzano. Segundo um tio, nunca tinha dado problemas e ocupava os tempos livres a jogar e a ver futebol, torcendo pelo clube local Corinthians e pelo clube espanhol Barcelona. Disse ainda o familiar que, na véspera do massacre, Luiz dissera ao pai que não iria trabalhar por estar a sentir-se mal.

Guilherme vivia com o avô - a avó morreu há quatro meses - e as duas irmãs porque os pais são toxicodependentes. Até ao ano letivo passado - que terminou em dezembro - estudava na escola que atacou. Segundo os professores, era tranquilo. O avô também disse que o neto nunca lhe deu problemas, nem com drogas nem de outro tipo. Colegas que escaparam do ataque, por sua vez, disseram que no último fim de semana ele já os tinha ameaçado - "fiquem alerta", avisou. Acrescentaram que Guilherme costumava fotografar-se com armas nas redes sociais e que não tinham ideia de que ele sofresse bullying.

As vítimas são Pablo Rodrigues, Claiton Ribeiro, Caio Oliveira, Samuel Oliveira e Douglas Celestino, todos alunos do ensino médio - entre os 15 e os 18 anos. O último morreu já na ambulância, a caminho do hospital. Entre os óbitos adultos estão Jorge Vieira, dono de um empresa de aluguer de carros, de onde os atiradores roubaram uma viatura, e as coordenadoras da escola Marilena Omezzo e Eliana Xavier. O velório será coletivo e a prefeitura de Suzano anunciou luto oficial de três dias na cidade.

Os dois jovens chegaram às imediações da Escola Professor Raul Brasil, uma instituição pública tradicional bem avaliada pelos dados oficiais, mas não isenta de problemas como sobrelotação das aulas e assaltos pontuais em redor, por volta das 09.30 da manhã (mais três horas em Portugal). Antes de entrarem às 09.46 pela porta principal da escola, atacaram o dono da empresa de aluguer de carros, tio e ex-patrão de Guilherme, e que morreu num hospital em Mogi das Cruzes, cidade vizinha. O incidente alertou os vizinhos, que chamaram a polícia.

Munidos com um revólver 38, uma besta, um arco e flecha, dois machados e cocktails molotov, entraram na escola pelo portão principal, sem nenhum controlo, e começaram por disparar sobre as duas coordenadoras. Seguiram então para o refeitório da escola, onde os alunos tomavam o lanche da manhã, e atingiram os estudantes presentes, entre os quais as cinco vítimas fatais.

"O meu amigo levou dois tiros, tem 17 anos, só vi gente a correr", contou Matheus Mariano, um dos estudantes sobreviventes. "Achamos que era uma bomba, eu quase tenho a certeza de que conheço um deles, que tinha ideias radicais", acrescentou um outro, que preferiu o anonimato. "Fiquei 20 minutos escondida, só saí quando a polícia chegou", disse Sandra Perez, professora da escola. Um enfermeiro declarou que o ferido João Lemos chegou, pelo seu pé, ao posto de socorro nas imediações com um machado espetado no corpo, mas está livre de perigo.

De acordo com relatos de outras testemunhas, uma das empregadas de mesa do refeitório, Silmara Moraes, ajudou a esconder cerca de 50 alunos na cozinha. "Nós estávamos servindo a merenda, aí começaram os tiros e as crianças entraram em pânico. Abrimos a cozinha e começámos a colocar o maior número de crianças dentro, fechámos tudo, arrastámos frigoríficos e congeladores e pedimos para eles se deitarem no chão, foi muito desesperador, muito tiro, muito tiro mesmo, e era muito pânico, ficámos acuados em um canto só, se acontecesse alguma coisa ele ia pegar muita gente."

Após o refeitório, os homicidas dirigiram-se ao centro de línguas da escola, onde se encontravam barricados dezenas de outros alunos. Nessa altura, chegaram ao local um sargento, dois cabos da força tática e um polícia à paisana, chamados para responder ao crime na empresa de aluguer de automóveis, e que confrontaram Luiz e Guilherme. A perícia verifica ainda se eles acabaram por morrer em consequência dos tiros desses agentes ou por suicídio.

O governo federal, presidido por Jair Bolsonaro, emitiu um comunicado referindo-se a uma "grande tragédia", um "profundo pesar" e a uma "desumana ação". O governador de São Paulo, João Doria, interrompeu a sua agenda e voou para Suzano, participando em uma das duas conferências de imprensa do dia.

Em Brasília, o senador Major Olímpio, do PSL, partido de Bolsonaro, disse que se os professores estivessem armados "a tragédia poderia ter sido minimizada". Já os políticos da oposição, como Maria do Rosário, do PT, maior partido da oposição, sublinhou que "o atentado na escola é resultado do ódio que vem sendo estimulado no Brasil, mais armas geram mais violência".

Este é o terceiro ataque grave no Brasil a uma escola nos últimos anos, depois do massacre do Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011, quando um ex-aluno da escola do bairro carioca invadiu o estabelecimento e matou 13 crianças e feriu outras 22. Em 2017, um adolescente de 14 anos matou dois colegas e feriu três numa sala de aula numa escola de Goiás.

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