Encruzilhada turca

Publicado a
Atualizado a

Homens e mulheres aos gritos de "Erdogan, Erdogan" esperavam há horas debaixo de sol pela oportunidade de verem o presidente turco. Aconteceu na província de Gaziantep, uma das mais atingidas pelos sismos de 6 de fevereiro na Turquia. Bastião do AKP, o partido islamo-conservador de Erdogan, a região não deverá mudar muito o tradicional sentido de voto nas eleições de hoje. Estive em abril em reportagem na Turquia e ali na aldeia de Belpinar pareceram-me espontâneos os vivas a Erdogan.

Há duas décadas no poder, como primeiro-ministro e depois presidente, Erdogan na província de Gaziantep não é visto como o político a quem culpar pelas dificuldades pós-sismo, com milhares de desalojados a viverem em tendas ou contentores, mas sim como o governante capaz de reconstruir as cidades. Aliás, a visita do presidente destinava-se à entrega simbólica de 14 casas construídas em apenas 75 dias. Os cartazes com a foto de Erdogan e a proclamar "Dogru zaman, dogru adam" faziam ali certo sentido. A frase quer dizer "No momento certo, o homem certo".

Já na província do Hatay, que fica no recanto nordeste do Mediterrâneo, o entusiasmo pelo presidente é bem menor. Nas últimas legislativas, o AKP e os laicos do CHP repartiram os deputados, e nas eleições locais de 2019 aquele que é o principal partido da oposição triunfou em Antakya, a capital provincial. Nesta região também destruída pelos sismos - quando visitei Antakya, os prédios ao longo do rio aguardavam pela demolição, tão esventrados que estavam - ouviram-se acusações de incompetência das autoridades num primeiro momento, depois menos sonoras à medida que a resposta começou a chegar, com navios militares a servir de hospitais de emergência e a AFAD, proteção civil, a instalar tendas.

Se Gaziantep sociologicamente representa bem a Anatólia, Hatay aproxima-se um pouco daquilo que é a orla costeira ocidental. Conservadorismo versus liberalismo, Turquia religiosa versus Turquia laica, campo versus cidade, simplificação abusiva mas que tende a refletir-se nos resultados das sucessivas eleições. E, portanto, quem imagina a Turquia a partir da experiência de Istambul arrisca-se a falhar o entendimento do que é um país com 85 milhões de habitantes, que se estende por dois continentes, e tanto tem fronteiras com países da União Europeia como é vizinho da Síria e do Iraque.

Diversa e dividida, é o mínimo que podemos dizer desta Turquia que vai a votos para o Parlamento e para a presidência. A divisão está bem expressa nas sondagens, com Erdogan e Kemal Kilicdaroglu taco a taco, embora o favoritismo recaia no candidato apoiado pelo CHP e mais cinco partidos.

Muitos veem nestas eleições, sobretudo no resultado das presidenciais, uma espécie de decisão sobre o futuro da Turquia. Como se tudo fosse mudar se Erdogan perder umas eleições, hoje ou numa segunda volta a 28. É evidente que entre o presidente e o rival há muitas diferenças, desde logo sobre o nível de conciliação entre o laicismo decretado por Mustafa Kemal Atatürk e o islão herdado do Império Otomano e também sobre a atitude mais ou menos pró-Ocidente de um membro da NATO que evita choques diretos com a Rússia (mesmo assim, um Sukhoi Su-24M russo foi abatido por um F-16 turco na fronteira com a Síria em 2015).

O estilo mais autoritário de Erdogan na segunda metade da sua era governativa, depois de uma primeira fase em que foi aplaudido pela UE por reconhecer direitos culturais aos curdos ou por expulsar os militares da vida política, faz igualmente com que estas eleições pareçam referendar a democracia. O contraste entre o estilo de homem forte de Erdogan e o perfil apagado de Kilicdaroglu (apelidado de Gandhi turco pelas parecenças físicas com o Mahatma) reforça essa ideia de que estamos perante um tudo ou nada. Ora, dificilmente será assim, sobretudo em política externa.

Provavelmente, decisiva na votação será a economia, com o eleitorado que tem oferecido sucessivas maiorias ao AKP a ter de pesar entre o valor que dá ao grande desenvolvimento do país desde o início do século (a Turquia é a 19.ª economia mundial, a 11.ª em PPP) e o impacto da forte inflação, simbolizado pelo preço exorbitante das cebolas, tão presentes na gastronomia turca.

O mais complicado para o país não será a vitória de um ou outro, mas sim a vitória por margem mínima de qualquer um deles. Fala-se muito de Erdogan não estar preparado para aceitar a derrota, mas existe também a possibilidade de a oposição lidar mal com um resultado negativo depois de tantas expectativas. E não será apenas um partido frustrado, mas seis, de correntes várias, incluindo antigos aliados de Erdogan no AKP.

Para o Ocidente, e em especial para uma UE que sempre foi adiando os desejos turcos de adesão, também o cenário mais complicado é uma Turquia desestabilizada. E ainda por cima em vésperas de uma data tão simbólica como o 29 de outubro, centenário da proclamação da república por Atatürk em 1923, momento que tanto Erdogan como Kilicdaroglu certamente desejam ser de festa.

A acentuar a complexidade do que pode acontecer nesta Turquia que tem vocação ocidental mesmo que as origens da nação estejam nas estepes asiáticas está a defesa de interesses nacionais múltiplos, que explicam o envolvimento turco desde a Síria à Líbia, desde Chipre ao Azerbaijão, sem esquecer as reivindicações no Egeu ou as incursões no Iraque contra o PKK. Olhando para a história da República da Turquia, no essencial a política externa tem mais continuidades do que descontinuidades.

Vejamos como respondem os turcos nas urnas a tantas incógnitas. A favor do país, e da força da sua sociedade civil, está o facto de continuar a ter eleições competitivas, mesmo que os meios do Estado favoreçam o AKP e que grande parte dos media pertença a grupos afins do partido do presidente. Nas últimas eleições locais, a vitória da oposição em Istambul por margem mínima foi posta em causa com alegação de irregularidades, mas numa segunda votação voltou a ganhar e por isso o CHP governa a maior cidade do país e também Ancara, a capital.

Orhan Pamuk, Nobel da Literatura, deu belas pistas sobre este momento de encruzilhada turca numa entrevista ao Le Monde: "Não devemos criticar Erdogan pelo seu islamismo - aliás moderado -, mas pela sua tendência autoritária. Abusou da popularidade para mudar a Constituição. Agora depara-se com uma lei básica que criou para si mesmo, mas descobre com perplexidade que esta posição todo-poderosa que criou será potencialmente conquistada por uma pessoa completamente laica, um alevita [oriundo de território] curdo, ainda por cima. Este é o paradoxo de Erdogan! Com o que não quero dizer que esta eleição está decidida. Não quero parecer um tolo se estiver errado, então não faço previsões!"

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt