"Vou arranjar um emprego fora da música enquanto isto não passar"

Hélio Morais, o baterista dos Linda Martini e dos Paus, estreou-se a solo com o single Não Sou Pablo, nada Muda, o primeiro cartão-de-visita do álbum Murais, com edição adiada para setembro devido à pandemia.

É uma imagem pouco usual, esta de imaginar Hélio Morais sentado a um piano, a cantar. Afinal, é toda uma carreira, iniciada nos If Lucy Fell, mas especialmente alicerçada e consolidada nos Linda Martini e nos Paus, a vê-lo como um verdadeiro guerreiro do rock, sempre atrás da bateria, pelo que o ambiente low-fi do primeiro single assinado pelo alter ego Murais, o nome do novo projeto a solo, não deixa de ser uma (agradável) surpresa.

Intitulado Não Sou Pablo, nada Muda, o tema, inspirado pelo célebre Carteiro de Pablo Neruda,saiu no final do mês de março e serviria de cartão-de-visita ao álbum de estreia, com edição prevista para o final do mês de abril, mas entretanto adiada para setembro, devido à pandemia da covid-19. Até lá e com tudo parado ao nível da música, Hélio Morais, que é também um dos fundadores do estúdio e da agência Haus, cujo portfólio inclui bandas e artistas como Capitão Fausto, Fado Bicha ou Catarina Munhá, até jáequaciona arranjar um trabalho fora da música. "Não sou pessoa para ficar parado, à espera", confidencia nesta entrevista ao DN.

O disco contou com produção de Benke Ferraz, guitarrista dos brasileiros Boogarins, com quem os Paus já trabalharam no passado, durante uma temporada passada no Brasil e é o resultado de alguns anos de trabalho quase em segredo, em que Hélio se deixou seduzir pela sonoridade de um piano outrora pertencente ao músico americano Sufjan Stevens, "quase por acaso" deixado no estúdio dos Paus, em Lisboa. No futuro, "quando voltar a haver concertos", Hélio Morais (voz e teclas), contará em palco com a companhia dos músicos Miguel Ferrador, nas teclas e sintetizadores, e João Vairinhos, na bateria.

Apesar da pandemia, houve muitos músicos e grupos que continuaram a editar, porque que é que optou por adiar o disco de estreia de Murais para setembro?
O single saiu no final de março e o lançamento do disco estava previsto para a segunda metade do mês de abril, mas decidi adiar porque é um projeto que necessita de alguma promoção. Tenho noção que tenho esse trabalho mais facilitado, por ser conhecido pelo meu trabalho com os Linda Martini e com os Paus, mas este é um personagem completamente novo e necessita de algum tempo para ser construído. Seria algo inconsequente lançar agora, porque esse trabalho de promoção estaria à partida impossibilitado pelas normas de confinamento e de distanciamento social.

Quando é que começou a fazer estas músicas a solo?
Comecei a investir mais tempo nisso há cerca de dez anos. Aliás, o tema mais antigo do disco é de 2011, foi dos poucos dessa primeira fase que sobreviveu.

E o que é que o levou a querer investir tempo nisso?
Um piano que pertenceu ao Sufjan Stevens, que acabou depositado no nosso estúdio.

Como assim?
O tour manager de Linda Martini dessa época era o Nuno Geraldes, que também trabalhava com uma empresa europeia de agenciamento de bandas do universo mais indie, como os Grizzly Bear ou os Au Revoir Simone. E como conhecia essa malta toda, uma vez em que o Sufjan Stevens veio tocar a Portugal, foi jantar com os músicos. Era o último concerto da digressão europeia e antes de regressarem aos Estados Unidos, ofereceram-lhe o piano que usaram nesses concertos, que acabou no nosso estúdio. Eu só toco bateria, não sei tocar guitarra e muito menos piano, mas como o piano também é um instrumento de percussão decidi arriscar e entusiasmei-me com aquilo.

Mas quando é um disco começa realmente a tomar forma?
Em 2017 já tinha bastantes demos, que comecei então a pensar em transformar em canções. A ideia inicial passava apenas por partilhar algumas na internet, mas as gravações dos álbuns de Paus e Linda Martini atrasaram novamente o processo. Mesmo assim, no final desse ano, já tinha alguns temas gravados, já só me faltava encontrar um produtor, para me ajudar a encontrar um som próprio, só meu, que não soasse a Paus ou a Linda Martini, porque se fosse para fazer igual não valia a pena.

Que encontrou no Brasil, certo?
Sim quando fui lá com os Paus perguntei ao Dinho, o vocalista dos Boogarins, se o Benke, que é o guitarrista da banda, estava a produzir alguma coisa nessa altura, porque gostava muito que fosse ele a fazê-lo. Já o conhecia, mas não éramos propriamente amigos e ele aceitou. Logo nessa altura mostrei-lhe as músicas, ainda estado bruto e em agosto do ano passado, quando lá voltámos, para tocar com os Boogarins num festival em Goiana, entreguei-lhe uma pen já com todos os temas, para podermos começar a trabalhar à distância. Ele é uma pessoa como eu, que vem do indie e do rock, mas que também gosta de pop e de beats eletrónicos, pelo que foi muito fácil trabalhar com ele.

E este primeiro single, Não Sou Pablo, nada Muda, é um bocado isso, concorda?
Sim, concordo, embora na minha opinião até seja um dos temas mais rock, digamos assim, de todo o disco [risos]. Nem seria, talvez, o single mais imediato, mas é uma música que tem um bocadinho de tudo o que fizemos e que acaba assim por ser um bom cartão-de-visita para o álbum.

Entretanto e com os concertos adiados até data incerta como é que tem ocupado o tempo?
Tenho andado a matar a cabeça, a pensar que outra profissão vou arranjar entretanto. Não sou pessoa de estar parado, à espera, e sou capaz de tentar arranjar um part-time qualquer, até as coisas voltarem ao normal.

E não tem tocado, sequer?
Só há poucos dias recomecei a gravar, num estúdio que tenho em casa. Até então estive mergulhado numa burocracia sem fim, a tentar ajudas os nossos artistas, da agência Haus, que também tiveram os seus concertos cancelados ou adiados. E como o disco dos Linda Martini também já está bem adiantado, o meu objetivo é começar já a trabalhar no próximo álbum de Murais.

É um projeto para continuar, portanto?
É claro que é para continuar.

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