"Não dá para manter a distância entre as pessoas às horas de ponta"

Os transportes perderam 80% a 85 % dos clientes com a pandemia. Reduziram os horários, perante as queixas dos passageiros que continuaram a trabalhar. Reforçaram as carreiras nesta semana e prometem um reforço maior a partir de segunda-feira

Augusta Major espera pela camioneta 316, que liga a gare Oriente à Póvoa de Santa Iria, na segunda semana desde o fim do estado de emergência. Não sabe o horário, também não dá crédito ao que está afixado num placard junto à paragem.

Limita-se a esperar, para ver o que irá acontecer depois de duas semanas de tormento. "De manhã, os autocarros estavam muito cheios e, à tarde quando regressava do trabalho, cheguei a esperar mais de duas horas. Disseram que havia mais camionetas a partir desta segunda-feira, mas já aqui estou há mais de 20 minutos", conta. É cozinheira numa escola pública, que nunca deixou de servir almoços.

Fernanda Ramos, 72 anos, ex-balconista, puxa do telemóvel para consultar o horário da carreira 317. Indica que às 17:10 partirá um autocarro para o Bairro da Covina, mas a hora passa e continua à espera. "O horário indica uma camioneta de 20 em 20 minutos, mas se já falhou uma, agora são mais 20 minutos, ou seja, 40 minutos de intervalo", protesta.

São testemunhos de utentes da Rodoviária de Lisboa (RL) , empresa que nesta fase da pandemia tem sido objeto das maiores queixas, junto da Área Metropolitana de Lisboa (AML), que coordena os transportes da região. Protestam pela falta de oferta e do exagerado número de pessoas a viajar em cada veículo.

A RL colocou mais viaturas na estrada nesta semana, quando os funcionários deixaram de estar em lay-off, mas os horários ainda não voltaram à normalidade, como acontece com a generalidade dos transportes públicos na AML.

Rodoviária com mais queixas

Carlos Humberto Carvalho, primeiro secretário da AML, reconhece os constrangimentos, mas garante que têm vindo a ser superados à medida das necessidades dos utentes. Circulam mais viaturas esta semana, prevendo-se novo reforço a partir do dia 18, com a abertura de escolas, creches e de restaurantes. "Vai continuar a haver permanentemente acertos de oferta, sobretudo junto às escolas, mas sempre de acordo com as necessidades. Esta pandemia obriga que se façam alterações quase diárias", sublinha o dirigente.,

Explica que houve supressões em todos os meios de transporte e que, neste momento, a ferrovia, o fluvial e o metro estão quase a 100%, já os rodoviários privados tiveram uma quebra grande e, esta semana, ficam-se pelos 50% a 60% . Os responsáveis da Carris responderam ao DN que não retiraram autocarros ou elétricos de circulação durante o estado de emergência, "apenas se fizeram ajustes de horário".

António Folgado é motorista da RL, foi um dos trabalhadores que esteve em lay-off, voltou ao trabalho no dia 8 de maio. "Temos muito mais autocarros a circular e ainda há poucos passageiros. A partir do dia 18 é que haverá muito mais gente, vamos ver como vai correr." Ainda assim, mostra-se otimista quanto ao êxito das regras de circulação nos transportes públicos.

Carlos Humberto Carvalho tem a mesma perceção, mas tem dúvidas quanto ao limite da lotação. "Quando se diz que podem levar até dois terços da ocupação, este distanciamento não existe em determinadas situações, nomeadamente nas entradas e nas saídas."

Distância social difícil

Os autocarros chegam e abrem a porta no horário de partida, o que obriga a um maior ajuntamento nas entradas. Por outro lado, com as entradas e saídas constantes, torna-se difícil controlar a ocupação. Daí que a AML aposte mais na sensibilização dos utilizadores para as regras de higiene. A partir de segunda-feira será lançada uma campanha para a prevenção da covid-19.

Os conselhos são muito idênticos aos dados à população em geral: Usar máscara, não mexer com os dedos nos obliteradores, guardar distância quando esperam pelo autocarro. Os motoristas têm equipamento de proteção individual, poucos estão protegidos por divisórias, devem manter o interior do veículo arejado e este deve ser desinfetado.

Armedista Oliveira viaja no 330, Oriente-Forte da Casa, que é o único na sua zona. Eram 06:20 da manhã quando iniciou o percurso para o trabalho esta segunda-feira. "Não dá para manter a distância entre as pessoas às horas de ponta, sobretudo de manhã, quando os autocarros estão mais cheios. Na semana passada, havia menos autocarros e, além de esperarmos muito tempo, tínhamos de ir ao lado uns dos outros. Nesta semana já esteve melhor mas continuam a ser muitos os passageiros de manhã, à tem havido menos." É imigrante, do Brasil, trabalha num café que nunca fechou.

A zona do Oriente é um entreposto de transportes públicos, de onde partem e chegam camionetas, autocarros, metro e comboios. Esta semana, os fins de tarde têm estado tranquilos quanto ao número de passageiros. São os veículos rodoviários que apresentam uma maior taxa de ocupação.

A carreira 333, que vai para o Vale da Amoreira, tem uma fila de 60 pessoas, distanciadas enquanto esperam mas aglomeradas na entrada para o autocarro. Parte às 17.50, com os utilizadores a protestar por não ter havido o das 17.20.

Rosário Pedro, 30 anos, corre mas perde o autocarro por minutos. O próximo será às 18:20, o horário que está indicado (horário de verão) mas não tem garantias que assim seja. "Com esta pandemia, nunca sabemos a que horas sai o autocarro, anteriormente partiam de 15 em 15 minutos", começa por dizer. É eletricista, mora na Moita e trabalha no Saldanha. Sai de casa às 06.00 e, nas semanas anteriores, muitas vezes chegou já de noite a casa, quando deixa a profissão às 17.30. "Foi muito complicado, chegue a esperar mais de uma hora pelo autocarro, agora ainda não está com horário normal, mas são mais frequentes."

Também há protestos pelo tempo de demora entre cada composição do metro, Os responsáveis do Metropolitano de Lisboa garantem ao DN que as composições têm circulado com seis carruagens durante o dia e três à noite, para permitir o distanciamento dos passageiros, salientando que estas têm circulado com 50 % de ocupação. Durante o período em que vigorou o estado de emergência registaram uma quebra de procura de 84,2% comparativamente a igual período de 2019. Após 4 de maio, na primeira semana de desconfinamento tiveram um aumento de 1,2% dos passageiros, aos dias úteis.

Com a abertura da economia, a partir de segunda-feira, preveem que a retoma seja gradual, bem como no aumento de utilizadores. "O Metropolitano de Lisboa estará apto a programar a retoma dos níveis de oferta que atenda à evolução da procura, tentando garantir uma taxa de ocupação relativamente baixa para manter o distanciamento social recomendado e continuará, igualmente, a reforçar as ações de limpeza do material circulante e das estações", dizem os seus responsáveis. Acrescentam que, se necessário, serão introduzidas medidas adicionais de controle, "designadamente no acesso aos cais, sobretudo nas horas de ponta".

Gabriela Pato voltou ao trabalho na primeira semana de maio, depois de ter estado em lay-off, é gerente de uma loja de rua, que faturava mil a 1500 euros por dia e que agora se fica pelos 100. "São poucos os clientes e pedem os artigos mais baratos", lamenta.

Mora em Almada e trabalha em Cascais ou em Lisboa, apanha a camioneta para o Seixal, onde segue no barco até ao Cais do Sodré, depois o metro ou o comboio. Resume os últimos dias: "A frequência dos transportes e a ocupação dependem muito das horas do dia. A semana passada, os transportes tinham mais gente, nomeadamente o metro, cheguei a esperar 15 minutos e, depois, vinham cheios. Nesta semana, o tempo de espera é muito inferior e vem menos gente nas carruagens."

Gabriela passa todos o dias no Terminal Fluvial do Cais do Sodré, que Conceição Ribeiro, 53 anos, tenta manter limpo, agora, anda sempre com uma embalagem de desinfetante. "Limpamos e passamos o desinfetante nas máquinas, onde as pessoas passam muito as mãos, mas agora não há muita gente. Para a semana é que vamos ver como será", diz. Sente que as pessoas têm mais cuidado na limpeza: "Não deitam papéis para o chão e não cospem."

A Transtejo Soflusa, tem cinco ligações fluviais: Barreiro, Cacilhas, Montijo, Seixal e Trafaria, decidiu repor os horários habituais das ligações do Montijo e do Seixal, no dia 6 de maio. Nas restantes três, mantém a redução efetuada a 23 de março, por entender dar resposta à procura.

Na semana de 4 a 8 de maio, viajaram nas cinco ligações 90 200 passageiros, o que representa um decréscimo de procura de 76% face a uma normal semana antes da pandemia. No fim de semana de 9 e 10 de maio a diminuição foi de 80%.

Nesta segunda-feira tiveram um crescimento de 7,3%. As ligações fluviais que apresentaram um maior aumento foram Seixal - Cais do Sodré (+28%) e Montijo - Cais do Sodré (+18%).

A estação tem máquinas devending com produtos de proteção: luvas, desinfetante e máscaras, sendo que uma cirúrgica custa 1,40 euros e um desinfetante 1,25 euros, mas há kits com várias produtos.

O Cais de Sodré está longe do frenesim do fim de um dia de trabalho. Os autocarros chegam e partem com pouca gente. Têm colados avisos à entrada: obrigatório o uso de máscara, dois terços de ocupação, validação obrigatória, entrada pela frente.

Vendidos 20% dos passes

Márcio Silva, 28 anos, faz a carreira 758, Portas de Benfica-Cais do Sodré. "Notei um ligeiro aumento de passageiros no início do desconfinamento, mas nunca tem chegado aos dois terços, que têm evitado sentar-se no mesmo banco." A empresa distribui máscaras pelos funcionários, também desinfetante, e o interior é limpo e desinfetado, o que as outras empresas do setor dizem também fazer.

Do departamento de comunicação da Carris, dizem ao DN, que, desde a abertura gradual da sociedade, têm tido apenas um quarto dos clientes habituais face a um dia normal antes da covid. A partir de segunda-feira farão "algumas alterações de horário".

A ocupação descrita vai de encontro às percentagens apresentadas pela AML. Carlos Humberto Carvalho indica que vendiam 761 mil passes em maio e, até ao dia 5 deste mês ficaram-se pelos 157 mil. Fala do Navegante, um passe que dá acesso a vários transportes e, cada unidade, custa 40 euros, o metropolitano (para a ALM); 30, o municipal (concelho) e 20 euros, para reformados.

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