O amigo judeu de Salazar que salvou muitos outros judeus

Foi numa tertúlia académica em Lisboa que o beirão Salazar conheceu o lisboeta Moisés Amzalak. Entre o católico e o judeu nasceria uma amizade para toda a vida que contribuiu para Portugal ser um país à parte numa Europa das décadas de 1930 e 1940 obcecada com o antissemitismo.

Lisboeta, formado em Economia, Moisés Bensabat Amzalak participava numa tertúlia académica nos anos a seguir à Primeira Guerra Mundial, na qual também se incluía António de Oliveira Salazar, o beirão que era professor de Finanças em Coimbra. Entre o judeu e o católico, o primeiro três anos mais novo, nasceu assim uma daquelas amizades para a vida toda que acabou por contribuir para Portugal ser um país à parte numa Europa das décadas de 1930 e 1940 obcecada com o antissemitismo.

Mas tendo em conta o édito de expulsão assinado por D. Manuel I em 1496 e depois a perseguição da Inquisição, que tantos judeus portugueses ao exílio a partir do século XVI, como nasceu em 1892 um bebé Moisés (ou Moses) em Lisboa?

"O primeiro Amzalak a vir para Portugal de Marrocos foi Moses Amzalak, filho do Rev. Isaac Amzalak. Moses nasceu em Marrocos e, para além de ser o primeiro dos Amzalak a vir para Portugal, foi um dos primeiros a vir depois do enfraquecimento da Inquisição pelo marquês de Pombal. Não se sabe a data precisa de vinda para Portugal mas sabe-se que entre 1817 e 1822 residia em Lisboa. Morreu em 1828, em Jerusalém, e está enterrado no Monte das Oliveiras", conta Esther Mucznik, autora do Dicionário do Judaísmo Português.

Acrescenta a historiadora que toda a descendência desse primeiro Amzalak "nasceu em Lisboa, embora alguns tenham emigrado para o Brasil ou Angola. Moses Bensabat Amzalak nasceu a 4 de outubro de 1892, filho de Leão (Judah) Benoliel Amzalak, nascido em Lisboa de nacionalidade inglesa, e de Estella Abecassis Bensabat, nascida na cidade da Horta, Faial, Açores, também de nacionalidade inglesa. A nacionalidade inglesa era muito provavelmente uma proteção num país em que a religião oficial e obrigatória para os portugueses era a católica. Os Amzalak tiveram um papel muito significativo quer na sociedade portuguesa na qual se integraram perfeitamente quer nas instituições judaicas das quais foram fundadores de muitas delas, nomeadamente de beneficência, na fundação da Comunidade Israelita de Lisboa e da Sinagoga Shaaré-Tikvá. Eram também judeus praticantes".

Moisés Amzalak foi vice-reitor da Universidade Técnica (1931-1934 e 1944-1956) e reitor (1956-1962), administrador de O Século e da Sacor e presidente da Academia de Ciências de Lisboa. Doutor honoris causa por várias universidades europeias, terá chegado em 1935 a receber uma medalha da Cruz Vermelha Alemã, polémica que não pode pôr em causa todo o seu esforço para salvar judeus do Holocausto.

Sobre a sua importância para a ajuda a milhares de refugiados, Esther Mucznik não tem dúvidas: "Quer do ponto de vista financeiro quer do ponto de vista do relacionamento com as autoridades portuguesas, nomeadamente com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a PVDE, era fundamental um organismo português que gozasse de respeitabilidade e credibilidade. Tendo à sua cabeça Moses Amzalak, na época vice-reitor da Universidade Técnica de Lisboa, a comunidade israelita de Lisboa tinha um grau de integração na sociedade portuguesa que lhe permitia desempenhar o papel de interlocutor certo entre os refugiados, por um lado, as autoridades portuguesas e os organismos judaicos internacionais de assistência, por outro. Afirma Ivette Davidoff, ela própria refugiada de Viena, que trabalhou toda a vida, primeiro com a JOINT e depois na CIL até ao final da sua vida em 2003: 'O professor Moses Amzalak era um homem de excecional inteligência, que usou a sua amizade com Salazar para salvar muitos judeus. Outro presidente que não fosse Amzalak não teria capacidade para ajudar tantos judeus.' Também Augusto Esaguy, que presidiu à Comassis, organização judaica de apoio aos refugiados em Lisboa, presta homenagem a Moses Amzalak, 'meu velho amigo, presidente do Comité da Comunidade Israelita de Lisboa, cujo nome aureolado de prestígio emprestou dignidade à nossa Comissão [Comassis]. Esteve sempre a meu lado, sempre. Lutou muitas vezes por mim e sempre que o chamei respondeu: presente'."

Visão menos benévola do "salazarista" Amzalak tem o historiador João Medina, sobrinho-neto de Samuel Schwartz, judeu polaco naturalizado português que teve um papel crucial na descoberta dos marranos de Belmonte, criptojudeus: "Moisés Bensabat Amzalak foi um professor universitário, economista e figura de destaque na vida lusa, favorecido ainda pelas suas estreitas relações com Oliveira Salazar, frequentador, no período logo após a Grande Guerra, de uma tertúlia de especialistas de economia, o que facilitaria o bom relacionamento entre o ditador português e a referida comunidade judaica, fundada em 1912. A longevidade de Moisés Amzalak, falecido em 1978 com 85 anos, ajudá-la-ia a estabelecer excelentes relações entre o judaísmo oficial português e o nosso regime da ditadura. Já a comunidade judaica do norte, dinamizada por Ben Rosh, o capitão Artur Barros Bastos, se mostrou sempre avessa ao regime salazarista."

Salazar morreu em 1970 sem ver a ditadura ser derrubada, o amigo Amzalak em 1978, já depois da Revolução dos Cravos. Existe hoje no Lumiar, em Lisboa, uma Rua Professor Moisés Amzalak.

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