CP reduziu prejuízos para metade em 2019

Número de passageiros cresceu cerca de 15% por causa dos novos passes. Houve menos supressões de comboios, mas a pontualidade ficou quase inalterada. O novo coronavírus trocou as voltas à companhia neste ano.

A CP perdeu menos dinheiro no ano passado: os prejuízos da empresa pública ferroviária caíram para 51,6 milhões de euros, menos de metade do que os 105,6 milhões registados no ano anterior. Em 2019, a empresa teve mais passageiros e menos supressões.

O regresso das indemnizações compensatórias, de 40 milhões de euros; o aumento das receitas de serviço, em 14,1 milhões de euros; e a melhoria dos resultados financeiros, em 11,6 milhões de euros, explicam a diminuição dos resultados negativos, segundo o relatório e contas divulgado pela transportadora. Ainda assim, a CP contava apresentar menos prejuízos.

"O cenário previsional pressupunha a assinatura, ainda em 2018, do Contrato de Serviço Público entre o Estado e a CP e a consequente atribuição da devida compensação financeira pelas obrigações de serviço público a partir de 1 de janeiro de 2019, no valor aproximado de 91,5 milhões de euros", lembra a empresa. O contrato entre a CP e o Estado acabou por ser assinado em novembro do ano passado e só foi validado pelo Tribunal de Contas no final de junho deste ano.

Também não estava nas previsões da CP o aumento de 14,7% no número de passageiros, para 144,9 milhões, por culpa do programa de redução do preço dos passes e do crescimento do turismo. Viajaram "mais 16,4 milhões de passageiros" do que estava orçamentado. Só na Grande Lisboa, houve 103,3 milhões de utentes (+18,4% do que em 2018); no Grande Porto, viajaram 23,7 milhões de passageiros (+7,7%). Nos serviços de longo curso e nos regionais, o aumento foi menor, de 4,9% e de 5,2%, respetivamente.

Considerando que o maior aumento de passageiros foi sobretudo no serviço urbano, subsidiado, as receitas de tráfego da empresa cresceram "apenas" 5,7%, para 273,9 milhões de euros.

Menos supressões

Em ano sem contestação laboral, a CP conseguiu diminuir as supressões: a taxa de regularidade aumentou para 99,2%, mais 2,2 pontos percentuais do que no ano anterior - marcado por greves e falhas de material circulante. Ou seja, apenas 0,8% dos comboios programados não apareceram.

O serviço regional registou a melhoria mais expressiva, de 3,6 pontos percentuais, para 99%, o melhor desempenho dos últimos três anos. A linha de Sintra/Azambuja é a pior, com 98,7% de regularidade.

Nesta empresa, contudo, quase dois em cada 10 comboios chegam atrasados à estação. Globalmente, o índice de pontualidade em 2019 foi de 82,2%, um pouco melhor do que em 2018 (81,5%) mas ainda longe dos 88,2% de 2017. O Intercidades é o serviço com mais problemas: quase quatro em cada 10 comboios (39,1%) tiveram atrasos superiores a cinco minutos.

Os atrasos e supressões podem dever-se a problemas com os comboios (culpa da CP), com a infraestrutura ou com terceiros. As falhas na infraestrutura - sob responsabilidade da IP - têm a ver com limitações de velocidade para trabalhos, avarias na sinalização ou avarias na catenária (fornecedor da corrente ao comboio), inundações (como as ocorridas em Alfarelos no final de 2019) ou obstáculos na via. Acidentes com pessoas e/ou veículos em passagens de nível também podem causar atrasos na via.

Menos trabalhadores

Anunciado em junho de 2019, o plano de investimento de 45 milhões do governo na CP previa a contratação de 120 pessoas para a empresa ferroviária, além de 67 pessoas para as oficinas da antiga EMEF. Só que o processo não entrou nas contas do ano passado da transportadora.

No relatório anual, a transportadora surge com 2669 funcionários, menos 14 do que em 2018. Apesar de terem entrado 73 trabalhadores, houve outros 87 que deixaram de ter vínculo com a CP, "maioritariamente por revogação do contrato de trabalho por mútuo acordo ou por reforma".

O plano de investimento também previa a recuperação de 70 unidades que estavam encostadas no Entroncamento e que começaram a ser recuperadas nas oficinas de Guifões, em Matosinhos. Só que esse esforço ainda não foi registado nas contas de 2019 da CP: apenas entraram três automotoras a gasóleo para o parque ativo, que passou a contar com 376 unidades.

Prejuízos de 77 milhões em 4 meses

Este ano já seriam mais visíveis os efeitos da recuperação da CP, sobretudo no serviço regional e de longo curso. Só que o novo coronavírus trocou as voltas à companhia, que registou prejuízos de 77 milhões de euros nos últimos quatro meses.

Entre março e maio, a empresa registou prejuízos mensais de 22 milhões de euros: apesar da diminuição de 80% nos passageiros, a oferta da empresa nunca ficou abaixo dos 55% nos comboios de longo curso e de 75% nos serviços regionais e urbanos. Além disso, nunca houve funcionários em lay-off, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, nas transportadoras rodoviárias privadas.

Em junho, apesar da recuperação da procura, sobretudo nos comboios urbanos à hora de ponta, a empresa registou prejuízos de 11 milhões de euros. Com o contrato de serviço público validado apenas no final de junho, o Estado, entretanto, emprestou 41 milhões de euros para garantir que a empresa pagava aos trabalhadores e aos fornecedores.

No longo prazo, a empresa vai precisar do Estado para reestruturar a dívida: no final de 2019, o passivo da CP era de 2,25 mil milhões de euros. Como os ativos da empresa só valem 574 milhões de euros, a empresa tinha um capital próprio negativo de 1,67 mil milhões de euros.

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