Dos recados às surpresas. O Estado da Nação em cinco atos

Recados à esquerda; reconciliações à direita; promessas futuras e negas presentes. O DN analisa o debate do Estado da Nação. Debate em julho com vista para outubro.

Começou pelas 09.45 e acabou já no bater das 14.00. Morno, mas substantivo, porque já todos se conhecem muito bem. O PS insistiu numa mensagem aos parceiros da geringonça: o tango tem-se feito a três (PS+BE+CDU) mas pode fazer-se a dois e no fim só um é insubstituível: o próprio PS.

Os recados

Se houve marca no debate parlamentar de ontem foi a dos recados dentro da maioria de esquerda. O contexto imediato é o próximo Orçamento do Estado (OE 2019), que terá de chegar ao Parlamento até 15 de outubro. Mas também - e principalmente - as próximas eleições legislativas e a necessidade de todos reclamarem o seu quinhão de sucesso, mas, ao mesmo tempo, afirmarem a sua identidade crítica. E até o líder parlamentar do PS, Carlos César, o fez, usando sucessivas expressões como "não nos satisfazemos" ou "temos de melhorar" ou "o esforço terá pois de continuar".

E eis os recados, que são seis:

Recado 1, de António Costa: o sucesso da governação é de todos os parceiros da maioria de esquerda, por igual. Nem BE, nem PCP nem PEV terão nada a temer do PS. O PS não irá reclamar exclusivamente para si sucessos que, segundo enfatizou mais do que uma vez, são de todos.

Recado 2, também de António Costa: o melhor seria que os parceiros percebessem que têm de ter "orgulho" no que foi obtido (mais emprego, menos défice, mais crescimento da economia) em vez de estarem sempre a criticar.

Recado 3, de Carlos César: "O PS nunca faltará. E se faltar, faltará um governo de esquerda." Perceberam, bloquistas e comunistas e ecologistas? Nunca poderão ter influência na governação se não aceitarem que o PS é o farol da governação.

Recado 4, também de Carlos César: a solução de esquerda em Portugal tem "prestígio internacional" porque o PS, líder da "coligação", aceitou as regras impostas no "plano externo" (ao contrário do que exigem BE, PCP e PEV).

Recado 5, do BE e do PCP: o PS "tem de fazer escolhas". Deve recusar manter-se "subordinado" às regras da UE que não lhe permitem renegociar a dívida pública e impõem défices mínimos - e portanto grandes problemas na manutenção, em qualidade, de sistemas públicos como o do SNS ou o da escola pública

Recado 6: do ministro adjunto Pedro Siza Vieira. É ler mais adiante.

A surpresa (1)

O discurso de Fernando Negrão. Um discurso pouco ou nada sintonizado com a ideia - de Rui Rio - de que o PSD deve colaborar com o governo em medidas "estruturais". Um discurso violento para a governação e que falou de uma coisa que mais ninguém falou: corrupção, "um dos maiores cancros da democracia, que temos obrigação de combater sem quartel". E que, no seu entender, só tem sido combatido por força de uma "imprensa livre" e de um "Ministério Público autónomo e atuante" (ou seja, sem empenhamento do governo). A bancada levantou-se em peso para aplaudir Negrão. E Hugo Soares, antecessor de Negrão na função - que na verdade se vê a si próprio como uma espécie de líder emérito da bancada -, fez questão de ir cumprimentar pessoalmente o orador. Há reconciliação na bancada do PSD? Sim. Mas uma reconciliação contra Rio (Hugo Soares e Fernando Negrão apoiaram Santana).

A surpresa (2)

António Costa decidiu que a intervenção final caberia ao ministro adjunto, Pedro Siza Vieira. Normalmente seriam ou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, ou o da Segurança Social, Vieira da Silva, ou o das Finanças, Mário Centeno (mas este tem andado muito ocupado com o Eurogrupo). Mas não: Costa escolheu o seu amigo, dizendo-lhe assim, e ao mundo político (o PS, o resto do governo), que lhe confere autoridade política para o representar. Siza Vieira deixou um recado importante aos "primos" da maioria de esquerda (em particular ao PCP, que tem falado muito em "políticas alternativas, patrióticas e de esquerda"): uma política "alternativa" à atual só pode ser "oposta". Não há na verdade alternativas dentro da esquerda: ou é o que tem sido feito, ou é o que o PSD e o CDS fizeram entre 2011 e 2015. Um discurso com a luz do preto e branco: ou nós ou os outros.

A nega

De António Costa ao Bloco de Esquerda. Mariana Mortágua voltou a insistir com o governo para alinhar na discussão da revisão da Lei Bases da Saúde. Invocando, como sempre, o facto de o projeto do BE ter sido feito por um fundador do PS, António Arnaut (falecido em maio).

Pelo meio, criticou o facto de a proposta do governo estar a ser preparada num grupo de trabalho coordenado por Maria de Belém, uma personalidade que, para o BE, é demasiado sintonizada com os interesses privados do setor. O primeiro-ministro respondeu o que tem sempre respondido: o governo tem o seu calendário nesta matéria (setembro) e não vai a jogo só porque o BE se antecipou. E é-lhe indiferente o facto de os bloquistas estarem sempre a reclamar o facto de terem tido do seu lado o "pai do SNS", António Arnaut.

As promessas

António Costa abriu o debate do Estado da Nação revelando linhas de ação para o próximo Orçamento do Estado (OE 2019). A cultura "terá o maior orçamento de sempre"; 95% das pensões serão aumentadas e 68% destas terão um aumento acima da inflação, Na ciência, o orçamento terá medidas que vão permitir um investimento de 1,5% do PIB em investigação e desenvolvimento. Além do mais, haverá um programa de "forte estímulo fiscal" para incentivar o regresso de portugueses que saíram do país por causa da crise. Hoje será realizado um Conselho de Ministros na Pampilhosa da Serra para aprovar um Programa Nacional de Coesão Territorial.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG