Filipe Sambado: "Não vivo a minha vida de forma provocatória"

Ao terceiro disco de originais, o músico troca o psicadelismo pop por uma folk apaziguada, construída a partir da tradição, mas sem perder a contemporaneidade.

A vida de Filipe Sambado mudou e nesse processo reinventou-se também o artista. Apenas dois anos depois do muito elogiado Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo, o músico regressou aos discos com Revezo, um trabalho "mais ponderado e apaziguado, mas nem por isso menos consciente", como refere nesta entrevista ao DN. Musicalmente, é um álbum que surpreende pelo recurso às sonoridades mais tradicionais do folclore português, que desconstrói com mestria, criando um novo universo musical, totalmente contrastante com o psicadelismo pop do registo anterior.

Revezo é assim feito de um conjunto de canções perfeitas, aparentemente inspiradas na pacatez da descoberta de uma nova vida a dois, mas que na verdade se revelam uma profunda reflexão sobre a sociedade em que vivemos. A primeira apresentação ao vivo é já nesta sexta-feira, 14, no Maus Hábitos, no Porto, o local escolhido pelo artista para substituir o Hard Club, onde se recusou a atuar, depois deste espaço ter recebido um encontro do partido político Chega.

Depois do furacão que foi Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo, concorda que este Revezo é um disco muito mais apaziguado, quase como um elogio à pacatez da vida doméstica?
Não sei se sinto isso. Creio é que existe um lado mais tranquilo, na sua forma, mas continua a ser um disco de contrastes, uma vez que tudo o que é dito tem sempre uma outra coisa em comparação. E mesmo nesse lado mais pacato da própria música, há sempre uma tentativa de adulterar um pouco aquilo que é mais expectável. Ou seja, mudar um pouco o rumo das músicas, juntando coisas menos óbvias ou não tão imediatas e trazendo com isso alguma contemporaneidade às canções.

Essa pacatez tinha mais que ver com a temática e o conteúdo das letras.
Mas também aí existe esse contraste. Por exemplo, o tema É tão Bom é uma música sobre a descoberta de uma casa a dois, mas ao mesmo tempo é também uma reflexão sobre tudo o que fazíamos, antes de termos essa casa, no percurso que fizemos para chegar até ali, deixando para trás uma vida se calhar menos saudável mas, ao mesmo tempo, mais atrativa, quando vista de outros prismas.

Mas o tema Paçoquinha para a Novela, por exemplo, é um claro elogio à placidez da vida doméstica.
Sim, é uma música sobre não querer ir trabalhar na segunda-feira, porque o fim de semana não nos dá tempo suficiente para descansar e para usufruir dessa placidez. No fundo trata-se de um álbum em que falo do privilégio de estar como estou neste momento, em contrapartida à falta dele. A ambição mais politizada deste disco é mesmo essa, de assumir que posso falar desses assuntos porque tenho o privilégio de ter espaço e tempo para pensar neles. Só o simples facto de poder pensar nestes problemas é, em si, um privilégio.

Tal como ter uma casa?
Sim, isso é um privilégio completamente assumido. É algo que neste momento me posso dar ao luxo de ter e de partilhar apenas com uma pessoa, por mim escolhida, e não com muitas outras pessoas, por necessidade, como é cada vez mais normal devido à situação económica.

E isso não o impede de não pensar em quem não tem esse privilégio, é isso?
Exatamente, é mesmo por aí. É claro que há um lado muito mais apaziguado em mim, mas que se transforma, através da minha música, num ato de consciência e de responsabilidade. Em comparação com o disco anterior, que tinha um lado mais urgente, de apontar o dedo ao que estava mal, este é um álbum muito mais ponderado, mas nem por isso menos consciente. Por isso, a uma primeira audição, reconheço que pode soar mais calmo, mas é igualmente um disco de luta interior. Daí ter sempre esse lado de comparação entre uma coisa e outra.

É importante que a sua música tenha esse lado de intervenção, chamemos-lhe assim?
É importante para mim falar sobre as coisas que me chateiam, e tanto podem ser coisas muito pequeninas como com uma dimensão mais ampla, que por vezes, reconheço, nem sequer domino totalmente. Basicamente tudo aquilo que me tira o sono é razão suficiente para me levar a escrever uma letra. Se depois integram ou não um disco, isso já tem que ver com o resultado final da canção em si. Há muitas que ficam na gaveta.

A temática, portanto surge primeiro?
Surge um chavão. Uma frase ou uma quadra que me aparece na cabeça e tem em mim um impacto com imensas leituras. Depois tento sempre perceber como é que aquilo surgiu e esse processo torna-se um espaço terapêutico de descoberta.

Como assim?
No sentido de tentar perceber o que penso sobre determinado assunto. É um processo de criação mas também de reflexão, que me ajuda a tomar posições sobre determinados assuntos, porque estou a escrever sobre eles e, por conseguinte, tenho de pensar neles. E esses chavões surgem-me quase sempre de forma completamente aleatória. Grande parte deste disco, por exemplo, foi escrita no meu antigo trabalho, numa produtora de televisão.

Já não trabalha lá?
Já não, desde há um ano que vivo só da música.

Falou há pouco de tentar para a sua música uma certa contemporaneidade, que neste disco surge através de uma reinvenção da tradição, certo?
A ideia de falar destes momentos a dois levou-me para aí, porque também pretendia transgredir um pouco o que é a noção de família ou de lar. Reconheço que não somos um casal assim tão convencional e a maneira como gerimos as emoções na nossa relação, se calhar, também foge um pouco a essa visão demasiado normativa de uma vida a dois. E a maneira como pretendo falar sobre isso também adultera essa perceção. Daí ter pegado nessas sonoridades, ditas mais folclóricas ou tradicionais, e tê-las também adulterado, fazendo delas uma coisa de agora.

Um pouco como José Afonso fez no passado.
Completamente, aliás, acabei por ir beber muito a esses mestres todos das décadas de 1960 e 1970. O José Afonso, o Fausto ou o José Mário Branco, que fizeram exatamente o mesmo casamento entre o folclore e as coisas mais atuais desse tempo. Foi esse mesmo exercício que tentei fazer neste disco, tentar perceber que posso fazer uma inscrição geográfica com o meu trabalho e não apenas temporal.

Talvez seja mais uma desconstrução e não tanto uma adulteração, como disse há pouco. Concorda?
Digo isso porque se quisesse fazer um chula perfeito era apenas isso, um chula perfeito, mas isso eu não quero fazer. Da mesma forma que o José Afonso misturava o folclore das beiras com a música africana, prefiro usar esse mesmo chula para ir buscar um som mais reggaeton ou mais kizombado, que são ritmos muito mais atraentes para mim. A adulteração de que falo não surge como uma provocação, mas de uma simples junção de dois mundos aparentemente distantes. Da mesma forma que também não pretendo ser quem sou, na minha vida pessoal, de forma provocatória. Apenas quero ser quem sou e sê-lo de forma integrada e incluída.

Foi muito comentada a sua recusa em tocar no Hard Club, depois de este espaço ter recebido um encontro do partido político Chega.
Para mim não havia outra posição possível, porque defendo valores de inclusão e de liberdade e, a partir do momento em que soube que ia haver aquele encontro, no mesmo local onde eu ia tocar, senti-me desconfortável com a situação. Nos meus concertos tenho pessoas que precisam de se sentir seguras onde estão, em espaços inclusivos que as aceitem como são. E não me sentiria bem a tocar num sítio onde acontece exatamente o oposto. Tomei essa decisão e fiz tudo para arranjar outro local o mais depressa possível, foi apenas isso que se passou. Depois, houve todo um redimensionar mediático da situação. O Hard Club, entretanto, também tomou uma posição, a demarcar-se do que aconteceu, e a situação para mim ficou resolvida, não vou fazer disto uma birra.

Mas acha importante que os artistas tomem uma posição, em tempos tão polarizados como os que vivemos?
Isso depende de cada um e os valores que eu defendo pretendem que cada um pense por si e não tenha de tomar posições contrárias à sua consciência. Aceito perfeitamente que haja pessoas neutras. Talvez no futuro possa vir a ser necessário escolher um lado, mas isso também fica ao critério de cada um e não invalida o ser-se artista.

Concerto de Filipe Sambado

No Maus Hábitos, Porto. Nesta sexta, pelas 22.30.

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