Premium As fraturas europeias


Cresce a evidência de que não é possível encontrar racionalidade para o conflito entre a atitude reformista das por vezes propostas contraditórias de reorganização da governança interna da União Europeia e a rigidez da resposta ao Brexit do Reino Unido, que, por seu lado, preferiu a rutura a um envolvimento prudente no inevitável processo de reforma.

Os previsíveis resultados destas atitudes não vaticinam a possibilidade de evitar que o futuro aconteça em liberdade enquanto as cimeiras se multiplicam. Uma das dificuldades já visível, e que não pode evitar-se relacionar com a evolução dos populismos, é que finalmente parece admitir-se que a alegria da queda do Muro de Berlim levou a não assumir que a Europa de duas metades se unificava, tendo uma metade com meio século de democracia empenhada em harmonizar a evolução e a redefinição das soberanias e a outra vencia a luta contra a submissão violenta ao nazismo alemão ou ao sovietismo, mas para recuperar a soberania que tinha perdido.

As alterações da soberania que na própria metade ocidental não têm deixado de encontrar dificuldades, e até humilhações, conduziram no leste a uma atitude também inspiradora dos populismos que ameaçam as próximas eleições, as quais, nas palavras de Marci Shore, consideram paternalismo ocidental o emaranhado de normativos, de centros de decisão que muitas vezes impuseram a autoridade técnica e científica como suficientemente legitimadora.

A meio do trajeto, Jean Monnet - que seguira com atenção e intervenção a discussão sobre a marcha para a unidade da Europa, em que pairava a proposta de Aristide Briand, dos anos 1920, da criação dos Estados Unidos da Europa - concluiria nas Memórias que, quanto à sua participação, deveria ter começado pela cultura e não pela economia, para orientar os europeus na compreensão da necessidade da ação coletiva, sendo certo que já nesse tempo o Reino Unido se opunha a qualquer abandono da soberania.

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Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.