Júlio Resende: "Sempre fui muito bem tratado pelas pessoas do fado"

Depois de Amália ao piano, de Pessoa em versão pop rock e de uma incursão pelos meandros da eletrónica, o pianista está de regresso com o Fado Jazz Ensemble, que junta o melhor de dois mundos raramente cruzados.

O conceito está explicado no título Júlio Resende Fado Jazz Ensemble, o novo trabalho do pianista, que já antes havia navegado pelos meandros do fado através do azimute do jazz, mas nunca como agora assumira tal junção como um estilo musical de pleno direito. "É um disco que vive daquilo que sou enquanto músico, alguém que gosta de explorar, porque afinal é tudo música", começa por dizer ao DN, reconhecendo esse lado de novidade no projeto.

Explica mais detalhadamente: "É um disco que não existia antes, pois nunca tinha surgido uma banda assim, tão assumida neste formato de fado jazz, com todas as cores e cambiantes que só uma banda consegue dar à música. Trata-se disso mesmo, do assumir de um conceito, mas que não tem de ser fechado. É até mais fácil em termos melódicos e a palavra jazz funciona aqui mais como um símbolo de Liberdade", explica, lembrando que "no flamenco, por exemplo, é algo que já é feito há mais de vinte anos".

O conceito passa assim por criar uma estética completamente inovadora, pelo modo como combina fado e jazz, através de um conjunto de nove temas originais (à exceção de Lira, canção tradicional da ilha dos Açores, para a qual fez um novo arranjo, e de Fado das Sete Cotovias, baseado no tradicional Fado Mouraria Estilizado, todas as restantes composições são de Júlio Resende) em que a guitarra portuguesa de Bruno Chaveiro convive totalmente à vontade com um tradicional trio de jazz, com posto pelo contrabaixo de André Rosinha, a bateria de Alexandre Frazão e, claro está, o piano de Júlio Resende.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que Júlio Resende se aventura pelo fado. Já em 2013 havia reinventado alguns dos temas mais populares de Amália Rodrigues, no aclamado Amália por Júlio Resende, no qual tocava as melodias ao piano em vez de pôr uma fadista a cantar. Dois anos mais tarde, editou o não menos elogiado Fado & Further, que contou com a participação especial da cantora catalã Sílvia Pérez Cruz. Mas juntar dois estilos (aparentemente) tão puristas, como o são o fado e o jazz, poderia acarretar alguns riscos, que afinal nunca se viriam a concretizar, muito pelo contrário, como faz questão de sublinhar: "As pessoas do fado sempre foram muito amáveis comigo e bastante elogiosas para com o meu trabalho, não tenho mesmo nada do que me queixar. O fado é um património e como tal tem de ser respeitado."

Quanto ao jazz, considera que este "nunca esteve muito interessado" em se aventurar pelo fado. "O Luís Villas Boas, que sempre foi uma pessoa à frente do seu tempo, ainda tentou pegar nisso, mas sem grandes resultados. Houve o disco do Don Byas com a Amália Rodrigues e o do Charlie Haden com o Carlos Paredes, mas foram as exceções à regra. Entretanto, a dimensão que o fado ganhou nos últimos anos também ajuda a que estas experiências sejam encaradas de forma muito mais natural", defende.

Pelo meio disto tudo, em 2017, Júlio Resende teve ainda tempo de se aventurar pelo território do pop rock mais alternativo, com o projeto Alexander Search, concebido a partir da poesia inglesa de Fernando Pessoa e que tinha como vocalista um tal de Salvador Sobral. E no ano passado apresentou o projeto Cinderella Cyborg, "um namoro entre homem e máquina", que juntava as melodias acústicas do piano, da bateria e do contrabaixo com os sons eletrónicos de pads e chips.

No fundo, assinala, "trata-se de trabalhar sempre a mesma matéria, esse jogo de sons e de silêncios conseguido através de um objeto, que é a música, mas com abordagens diferentes. Acima de tudo, gosto de explorar outros géneros musicais e tento concentrar-me nisso ao máximo, para conhecer muito bem o suporte técnico, adaptando-o depois à minha maneira de tocar e de ser", adianta.

Agora, a prioridade passa por promover Júlio Resende Fado Jazz Ensemble, muito embora a atual situação de pandemia não o permita fazer como gostaria. "Vamos tocar no dia 29 a Barcelona e também há planos para apresentar o disco por cá, mas atualmente os programadores trabalham mês a mês, portanto ainda não sei quando nem onde será", refere o músico, que passou grande parte do primeiro confinamento "concentrado em aperfeiçoar as capacidades pianísticas", dedicando também algum tempo a este projeto. "Foi uma maneira de me manter positivo e ativo, que é o mais importante nestes tempos que vivemos."

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