Francisco universal

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Pode-se especular muito sobre o alcance real das mudanças que Francisco trouxe à Igreja Católica nestes 10 anos desde a sua eleição, mas há uma revolução que não pode ser desmentida e que vai pesar muito no futuro da instituição, provavelmente já no momento da escolha do seu sucessor: a perda de centralidade da Europa, que já não assegura uma maioria absoluta no Colégio dos Cardeais, os cardeais com menos de 80 anos (123 dos atuais 223), ou seja, aqueles que são chamados a votar num nome quando um Papa morre ou renuncia, como no caso de Bento XVI em 2013.

Os números são indesmentíveis da ação globalizadora de Jorge Mario Bergoglio, o argentino nascido numa família de imigrantes vindos de Itália que se tornou o primeiro Papa do Novo Mundo. E, se excluirmos alguns Papas norte-africanos dos primeiros séculos do cristianismo, o primeiro chefe da Igreja Católica vindo de fora da Europa. Assim, há 10 anos a Europa contava com 61 cardeais eleitores, para os atuais 50; a América do Norte mantém 14; a América Latina passou de 19 para 21; a Oceânia de 1 para 3; a África de 11 para 15, e a Ásia de 11 para 20. Dou só um exemplo do arrojo de Francisco: pela primeira vez o patriarca de Goa é cardeal, e isto apesar do papel histórico da cidade indiana, antiga colónia portuguesa, na propagação do catolicismo no Oriente desde o século XVI.

As próprias visitas papais mundo fora confirmam a vontade de fazer da Igreja Católica uma entidade de expressão universal, o que, aliás, é o sentido do seu próprio nome (do grego katholikós, "universal"). É certo que João Paulo II foi um grande viajante e mesmo para destinos longínquos, um caminho seguido também, mas com alguma moderação, por Bento XVI. Contudo, com a sua origem na América Latina e a sua preferência por cardeais de geografias distantes de Roma, Francisco dá novo significado aos banhos de multidão na Coreia do Sul, nas Filipinas ou na República Democrática do Congo. Que este jesuíta argentino ambicionava ser mesmo visto como pioneiro foi logo comprovado na escolha do seu nome de Papa, um inédito Francisco.

Qual é então o caminho que vai seguir esta Igreja cuja hierarquia começa, em termos de nacionalidades, finalmente a corresponder à distribuição das massas de crentes? E como é que esse novo caminho de universalização se coaduna com velhas questões que afetam a instituição, como a relação com a riqueza e o poder, o papel da mulher, a posição perante a homossexualidade ou agora a denúncia de abusos sexuais por sacerdotes, com conhecimento de outros e protegidos por mais alguns? Da capacidade de resposta de Francisco, e um dia do seu sucessor, estará o que será a Igreja Católica do futuro próximo numa Europa com défice tanto de fé como demográfico e nos restantes continentes.

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