Hells Angels: um dos detidos já esteve preso pela morte de Alcindo Monteiro

A PJ reconheceu que há membros dos Hells Angels que são skinheads, como é o caso de, pelo menos, dois dos detidos.

Nuno Monteiro, um dos 59 detidos da megaoperação da PJ contra a organização Hells Angels (HA), cumpriu uma pena de 18 anos pelo homicídio qualificado de Alcindo Monteiro, o cabo-verdiano morto à pancada a 10 de junho de 1995, no Bairro Alto. O grupo de cabeças-rapadas, que integrava Nuno Monteiro, agrediu violentamente outros seis indivíduos de raça negra, tendo deixado dois deles inconscientes no chão e Alcindo morto. Foi também condenado por seis crimes de ofensas à integridade física qualificadas.

Outro dos detidos, Eduardo Nuno da Silva de Lima Pereira, que era líder dos HA na Margem Sul, mais conhecido como Rambo, é outro skinhead e foi arguido em alguns processos de discriminação racial, investigados pela PJ. Tal como Nuno Monteiro, pertencia ao grupo de Mário Machado - que também cumpriu pena por agressões no Bairro Alto, na noite da morte de Alcindo - e partilhou com ele outros inquéritos da Judiciária contra a extrema-direita. Em causa crimes de discriminação racial e um de sequestro, segundo apurou o DN junto a fonte judicial.

Embora tenha afirmado que os crimes em causa na operação contra os HA não tiveram "motivação político-ideológica", a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, Manuela Santos, confirmou que que há alguma ligação entre os Hells Angels e a extrema-direita, pelo facto de "muitos dos seus elementos também pertencerem a grupos de skinheads".

Nacionalismo, fascismo e racismo

No acórdão sobre o homicídio de Alcindo Monteiro, em que confirmou a pena de prisão a Nuno Monteiro, o Supremo Tribunal de Justiça descrevia assim os cabeças-rapadas: "Este grupo de pessoas têm em comum o culto por determinadas ideias - nacionalismo e racismo - com as quais simpatizam. Exaltam o nacionalismo, o fascismo e o nazismo. Salazar e o seu regime são apontados como um modelo a seguir. A vertente racista está sempre presente. Apelam à superioridade da raça branca considerando a raça negra como inferior."

Foi numa "postura coletiva de exaltação, violência, perseguição e ataque a qualquer indivíduo de raça negra" que resolveram "percorrer as ruas" do Bairro Alto, sublinhou o STJ. Fizeram-no "em correria, gritando e agredindo os indivíduos de raça negra com que iam deparando".

Segundo a revista Sábado, Nuno Monteiro será também um ativista do grupo Portugueses Primeiro, criado em 2015, ligado ao Partido Nacional Renovador (PNR).

Maioria dos crimes cometidos no Prior Velho

Nesta investigação da PJ, os 59 detidos (até ao momento, pois ainda há mandados de detenção europeus por cumprir) estão indiciados em vários crimes graves e violentos, como tentativa de homicídio, ofensas graves à integridade física, posse ilegal de armas, roubo, danos e associação criminosa. A maioria estão relacionados com os atos violentos de março passado num restaurante do Prior Velho.

Estavam ali reunidos membros dos Bandidos, outra organização de motards que pertence aos fora-da-lei Bikers 1% e são rivais dos Hells Angels, a preparar a criação de um núcleo em Portugal. À cabeça estava Mário Machado, que tem um historial de conflitos com os Hells Angels, do tempo em que liderava a fação mais violenta dos cabeças-rapadas no nosso país, os Portuguese Hammerskins.

Cerca de 40 hells angels atacaram os elementos do grupo com paus, barras de ferro e facas, tendo ferido seis deles. "Esta associação criminosa já existe em Portugal desde 2002 e é um fenómeno que tem vindo a crescer em número de pessoas e em manifestações mais violentas. No Prior Velho foi a primeira vez que houve uma manifestação tão poderosa e em força como uma associação criminosa", afirmou a coordenadora da UNCT, acrescentando que foi a primeira vez que estes elementos atuaram em grupo "com o objetivo comum de eliminar a concorrência".

Os detidos estão a ser ouvidos no Tribunal de Instrução Criminal. Um deles foi detido na Alemanha.

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