Destruição de emprego é toda à custa dos trabalhadores mais pobres

Desapareceram 184 mil empregos nos três escalões salariais mais baixos da economia. Destes, 85% (156 mil empregados) ganhavam 600 euros líquidos ou menos.

A destruição de emprego provocada pela pandemia, em Portugal foi toda à custa dos trabalhadores por conta de outrem mais pobres, os que ganham salários inferiores a 600 euros líquidos mensais.

Em contrapartida, o número de empregados que auferem salários mais elevados até aumentou no segundo trimestre deste ano face a igual período de 2019.

Os cálculos são do DV, feitos com base nos dados do Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Aliás, o maior aumento homólogo aconteceu no escalão salarial dos que ganham três mil euros líquidos mensais ou mais.

Ironicamente, o facto de o emprego ter subido nos escalões salariais mais altos e de ter caído de forma significativa nos escalões mais baixos acabou por fazer subir o salário médio da economia no período em análise.

Este fenómeno acaba por ser também um alerta antecipado em relação a outros problemas, como o agravamento das desigualdades e da pobreza neste quadro de recessão, que pode vir a ser pior do que a Grande Depressão do início do século passado.

Jovens e precários: os primeiros a serem expulsos

Na semana passada, o DV noticiou que os jovens com menos de 35 anos, os contratos mais precários e os licenciados foram os estratos do mercado de trabalho que mais sofreram com o brutal ajustamento imposto pela crise pandémica.

E que no emprego por conta de outrem toda a destruição de postos de trabalho ficou concentrada nos contratos a termo (a prazo, trabalho sazonal e ocasional) e nos recibos verdes (prestadores de serviços, os outros tipos de contratos), indicou o INE.

As estatísticas oficiais sobre o perfil salarial dos empregados por conta de outrem em Portugal permite consolidar ainda mais essa ideia de fundo: jovens, precários e mal pagos, incluindo quase 70 mil licenciados, foram de facto os que arcaram, quase em exclusivo, com o brutal ajustamento do mercado laboral nestes três meses de pandemia (abril a junho).

Estas conclusões resultam das comparações homólogas dos dados do INE, mas as variações trimestrais (entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano) apontam exatamente no mesmo sentido. Toda a destruição de emprego face ao primeiro trimestre aconteceu nos salários mais baixos.

De acordo com o instituto, desapareceram com a pandemia quase 148 mil postos de trabalho, em termos líquidos. Como referido, todos os escalões salariais mais baixos (menos de 310 euros, 310 a 600 euros e 600 a 900 euros líquidos) contribuíram para a perda de empregos. Em contrapartida, todos os escalões acima dos 900 euros ainda conseguiram reforçar.

As maiores destruições de emprego aconteceram no grupo dos que ganham 310 a 600 euros (menos 35 mil empregos, uma descida de 35% face ao segundo trimestre de 2019) e no escalão dos 600 aos 900 euros, onde a razia foi de 122 mil empregos a menos, um colapso de quase 40%.

A ganhar terreno estiveram os trabalhadores do escalão salarial mais elevado. Aparentemente, a maior parte conseguiu manter o emprego apesar da pandemia. Aliás, o grupo dos que ganham três mil euros limpos ou mais aumentou 14%, a maior subida de todos os oito escalões definidos pelo INE (ver quadro). Há agora mais 5,5 mil empregados neste escalão, indica o instituto.

A maior subida ocorreu no escalão dos 1200 a 1800 euros líquidos mensais, onde o emprego avançou cerca de 11%, mais 59 mil casos no ano que termina em junho.

O reforço no emprego dos mais abonados acabou por mais do que compensar o efeito da destruição massiva de empregos com ordenados inferiores a 900 euros (menos 184 mil postos de trabalho desapareceram) no salário médio da economia, que subiu 4,5% para 952 euros líquidos mensais. Daqueles 184 mil empregos perdidos, mais de 85% eram trabalhos com ordenados de 600 euros ou menos.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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