Uma Europa que encalha no fabrico de luvas

Tempos de sufoco trazem-nos dramas e até tragédias, mas também a vantagem de não nos esconder a verdade. Uma Europa que encalha na produção de máscaras e de luvas?!

Há uma frase que ainda há pouco citei no DN: "Só há três competidores no planeta: o homem, os vírus e as bactérias." Disse-a Carlos Fiolhais, que é muito mais do que um cientista, é um divulgador de saberes. Divulgar saber é um pilar da democracia, dá-nos força a todos. Releiam a frase de Fiolhais, ela levou-me a indignação. Como é possível, estando os nossos inimigos bem definidos, vírus e bactérias, que a minha pátria tenha sido apanhada com as calças na mão? Sem máscaras e sem luvas.

Preciso definir a minha pátria. Meus são todos, nos antípodas e quatro pontos cardiais, mas por minha pátria quero dizer aquela que me dá direitos e deveres, ou pelo menos a ilusão deles. Falo, pois, da Europa, na qual voto sempre e me pronuncio com legitimidade. Então, nessa pátria, sabido que esperávamos há muito a inevitável invasão de um poderoso inimigo, como não tínhamos preparada a resposta mínima? Nós, os europeus. E essa resposta nem são bombas nucleares nem caças supersónicos, que admito difíceis de arranjar, mas simples máscaras e luvas. Pano simples, látex simples.

Falar dessa imprevidência só pode ser com espanto. E então o que dizer quando, já prevenidos, não conseguimos o sobressalto, a reação rápida, possível e tão necessária?! Cotejem esta invasão com o que vimos em recente filme de sucesso.

Em Dunquerque, 1940, os ingleses também foram apanhados de surpresa. Sem barcos de transporte para fugirem, o que só um génio militar poderia adivinhar que iriam precisar, nem ainda tinha passado um quarto de século da vitória numa guerra mundial, os ingleses resolveram com resposta simples.

Sem pontes, nem túnel, nem armada suficiente, os ingleses convocaram tudo o que flutuasse, veleiros e lanchas de borracha, pesqueiros e iates, os arrastões largaram as redes e os rebocadores largaram os portos, e da costa inglesa a mais nobre das armadas rasgou pelos 30 km do estreito de Dover para resgatar 300 mil soldados encurralados pelo inimigo. E em dez dias salvaram-nos.

Volto à Europa, a minha pátria. Ocupada pelo vírus, admito que ela não tenha conseguido de imediato uma vacina ou que não invada a Suíça para que o CERN de Genebra invente uma qualquer salvação no seu famoso laboratório de física de partículas. Admito que não tivéssemos tão já pronto o essencial tão rápido.

Mas que justificação há para a Europa - França e Portugal, a Holanda e a Grécia, Alemanha, Suécia, Itália... -, sem exceção, não ter já tido um sobressalto, requisitado algumas fábricas de um só departamento de França (e falo desta porque nos é central e distribui melhor por todos) e não ter ainda produzido esses produtos absolutamente necessários e de técnica simples que são máscaras e luvas? Máscaras e luvas! Elas não nos curam, mas são absolutamente necessárias, vitais e livrar-nos-iam do pasmo inicial.

Foi com as traineiras de Dunquerque que se começou a vencer o nazismo. A salvação começa em nós sabendo que conseguimos as coisas básicas e fundamentais. Por que não temos essa Europa?

A última pergunta foi mal feita. Já a podíamos ter posto há 20 anos ou em janeiro passado. A pergunta, porque vivemos estes dias e porque já não os podemos ignorar, é outra e urgente: por que não nos preparamos para ter essa Europa?

Há dias, diretores de jornais e rádios juntaram-se para tentar melhorar o seu serviço público durante a crise. Os diretores fizeram um texto para quem lidera o combate ao vírus, queriam saber mais para cumprir melhor. A opinião foi unânime: o pretendido era melhorar a luta comum. Quando se decidiu a quem endereçar a carta, se só à Direção-Geral da Saúde e ao Ministério da Saúde, ou também a entidades mais sonantes e até para a opinião pública, também fomos unânimes: a iniciativa não era fogacho, era para resolver. E a carta, como todos o quisemos, foi só para a DGS e o ministério.

Tenho uma lista grande de tolices do jornalismo nacional já neste período do coronavírus, e não falo só de outros, mas assinalo este pequeníssimo episódio porque ele ilustra um estado de espírito. De outros lugares e indústrias não faltam igual bom senso e decência. A imprensa estrangeira tem invocado o nosso jeitinho (se a conhecessem, eles citariam uma marca antiga de cigarros, Português Suave) como justificação para o que são, ou pelo menos parecem, os razoáveis números da nossa crise.

A política nem sempre manda, mas influencia, e é uma sorte (sorte, o tanas, fomos nós que os escolhemos) termos um António Costa que lidera, um Marcelo que junta e um Rui Rio com a independência forte de ser capaz de dizer "este é o Governo de Portugal". Eles saíram de nós, como cabe ser nas democracias, mas poderiam ser péssimos, como sabemos do mais poderoso dos exemplos. Contarmos com líderes de bom senso e decência é muito importante nas crises fundas.

Termos políticos que nos dão confiança é muito bom, em tempos de sufoco não chegam só aqueles que não atrapalham. Mas regresso ao espanto inicial. Tempos de sufoco trazem-nos dramas e até tragédias, mas também a vantagem de não nos esconder a verdade. Uma Europa que encalha na produção de máscaras e luvas?! Há que puxar por eles, os políticos que nos dão confiança. Obrigá-los a serem mais ambiciosos. Agora não há como não saber que a sobrevivência não está garantida.

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