Quem for ao MOTELx ver a sua obra vai perceber as suas obsessões pessoais? É um daqueles cineastas que se consegue descrever a partir dos temas dos seus filmes?.Sabe, não consigo mesmo. O público e os jornalistas é que têm de perceber quais as minhas obsessões. Não consigo ter uma perspetiva do meu trabalho, apenas sigo as ideias que me aparecem... São interesses espontâneos e impulsos artísticos. É engraçado que, depois, ouço alguns comentários e dúvidas, se tenho complexos com a mãe ou coisa assim, e acho muita piada..Tenta então não racionalizar o que faz....Penso filme a filme. Nunca os tento ligar em termos de lógica de filmografia..E isso de chamar "body horrors" não é um pouco preguiçoso?.Sim, chamam "body horrors" aos meus filmes graças à minha linhagem. Enfim, a reputação familiar... Não é totalmente injustificado, pois há realmente elementos disso, mas não creio que esse seja o foco principal. Quando penso num filme verdadeiramente "body horror" penso nos aspetos mesmo grotescos do corpo e em todas as suas transformações e esse não é o foco dos meus filmes. O que os meus filmes têm todos é violência e isso não é "body horror"..Tematicamente, o seu último filme, parece querer também fazer um comentário social sobre um contraste entre o 1º e o 3º Mundo....Há realmente uma dimensão política, mas quis pegar nessa ideia de que os resorts turísticos são uma espécie de realidade paralela em relação ao mundo real. Funcionam como embaixadas fechadas nos países em que estão e que depois ficam a funcionar como uma nação turística, sem nada a ver com o respetivo país. Sei que em Portugal há muito falatório também em relação ao turismo, sobretudo em torno das leis do Alojamento Local. Piscina Infinita é sobre um falso mundo, que é criado para criar zonas de conforto turísticas e depois explora a fricção entre o mundo real, para além das instalações do resort, e esse mundo Disneyland no interior..Confirma que a versão que vamos ver é a não-censurada, com o famoso plano sexual?.Creio que sim, o filme passou não censurado na Berlinale e no Festival Sundance. Tivemos de ter esse corte nos EUA, porque caso contrário ficava com a classificação de 17 anos e isso tornava a sua vida comercial nos cinemas muito complicada. Mas foi apenas um pequeno corte na tal cena do pénis prostético, na cena da orgia, alguma da violência na cena de uma execução e no fim, com a cabeça a ser desfeita..Em Berlim, na sessão da imprensa, vi pessoas a sair da sala. Porque será que em 2023 a violência e o sexo ainda causam choque nas pessoas? Será sempre assim, não?.Fico surpreso, é incrível, não é? Pessoalmente, gosto muito de cinema de choque, mas há um limite para chocar apenas por chocar. Há pessoas que, devido à violência dos meus filmes, pensam que apenas quero chocar de forma gratuita, mas não é verdade. Os meus filmes são, acima de tudo, viagens psicológicas das personagens. O cinema é uma forma de arte para levar as pessoas para uma imersão naquela narrativa. E prefiro sempre não mostrar, apenas sinalizar...Acredito que, dessa maneira, as pessoas têm uma reação mais visceral perante as imagens. Por isso, acho que o cinema de choque, hoje, vai muito mais além daquilo que faço. É por isso que fico atónito com as reações que os meus filmes provocam..Algo ainda o choca como espectador?.[Pausa]. Acho que nada já me choca. A nível de conteúdo já tanto foi feito! Bem, mas o que me pode chocar positivamente é quando alguém leva a forma de filmar a um ponto realmente radical, sobretudo quando estamos a ver um filme e, depois, sentimos uma decisão formal audaciosa que nos surpreende. Choco-me mais quando fico surpreendido com um cineasta que me deixa perturbado. E estamos a viver momentos com cinema muito bons - não creio que esta indústria esteja a morrer..Conseguiu dirigir Mia Goth, precisamente a atriz americana da sua geração mais em alta neste momento. Fale-nos do prazer de a dirigir..Ela é uma delícia absoluta para ser dirigida. Inacreditavelmente, apesar da intensidade que tem e das personagens que interpreta serem tão diretas e agressivas, depois não é nada assim, antes pelo contrário. Uma atriz muito profissional, educada e doce que é capaz de nos dar interpretações explosivas..dnot@dn.pt