Exclusivo Ver ou não ver 'E tudo o Vento Levou': como lidar com a herança do cinema

Tradicionalmente reconhecido e consagrado como um clássico do cinema americano, E tudo o Vento Levou foi retirado da programação da HBO. Em causa estão as suas componentes "racistas". Entretanto, o filme está a ser um renovado sucesso em DVD e Blu-ray.

Eis um dado revelador dos nossos tempos conturbados: a 9 de junho, a HBO decidiu retirar o filme E tudo o Vento Levou (1939), de Victor Fleming, dos seus serviços de streaming, considerando que as suas "componentes racistas" justificam que um eventual regresso à respetiva programação (entretanto já anunciado, embora sem data) deverá ser enquadrado por algum tipo de explicação sobre o contexto histórico em que foi produzido; um dia depois, o mesmo filme surgiu a liderar a lista de vendas em DVD e Blu-ray da Amazon, integrando também o top 10 do iTunes nos EUA (em 5º lugar).

Há aqui uma ironia, amarga e doce, que vale a pena sublinhar. Dir-se-ia que um princípio fundamental do trabalho da crítica de cinema - pensar os filmes sem excluir as componentes específicas da conjuntura histórica, ideológica e simbólica em que foram gerados - passou a ser assumido por entidades que, tradicionalmente, se limitavam a comercializar esses mesmos filmes. Resta saber como é que isto acontece. E também porquê.