Leviandade

O presidente dos EUA não confia nos historiadores e, por isso, criou um novo registo das suas intervenções de liderança, que é o abuso diário dos tuítes, repetidas vozes animando as respostas críticas alarmantes com a insistência criticada do populismo que pratica. Nesta data em que mostra a certeza de que os senadores republicanos impedirão a sua condenação política, decidiu executar um ato que lhe pareceu animador do apoio eleitoral que tem previsto. Deste modo somam-se intervenções irresponsáveis quanto aos efeitos, no sentido de violar a insuficiente ordem mundial. Não lhe correu bem a tentativa de conseguir um acordo com a Coreia do Norte, mas sobretudo não evitou abalar a segurança atlântica, tendo como referência tornar de novo os EUA fortes, a casa no alto da colina, feliz com o Brexit do Reino Unido, exigente quanto aos custos financeiros da NATO, colocando a Embaixada dos EUA em Jerusalém com a consequência das novas vítimas, redefinindo a conceção de Jefferson - Abade Correia da Serra no sentido de substituir a legalidade do big stick pela construção de um muro.

A consideração da solidariedade entre os EUA e a Europa, com duas guerras mundiais participadas e vitórias obtidas, passou antes à precedência das lideranças e estratégias de eucratas, como a China ou a Rússia, tendo presentes ações, por exemplo, visíveis no Brasil, na Turquia, na Venezuela destruída, tudo somando intervenções num globalismo sem governança visível e respeitável. Em relação à China considerou-se inquieto com ser emergente, exercendo uma diplomacia económica, mas sem esquecer as ambições de recuperar Taiwan, o mar que deixara de navegar, e o fim visível do período histórico, mas temporal, de um Estado com dois sistemas, dois regimes e uma resposta política que levou um general americano a declarar que haveria uma guerra entre os dois países dentro de quinze anos.

Não faltam observações sobre a evolução, inquietante, do caso da Rússia, mas o mais evidente agora é a execução do general iraniano Soleimani, um personagem nacionalmente importante em relação ao próprio ayatollah Ali Khamenei, histórico responsável pela liquidação de vítimas no Médio Oriente, no Líbano, no Iraque, na Síria, designadamente com a intervenção da Rússia.

Não se trata, portanto, de uma ação inocente, do que se trata é da execução, ordenada por Trump, invocando justa intervenção mas num país diferente, o Iraque. A justificação de Trump tem um sentido que histórica e intencionalmente visa fortalecer a decisão do Senado de que espera obter absolvição, e não obstante sendo numerosos os pedidos de contenção com o Irão, não pode deixar de avaliar, com atenção, designadamente a opinião de um militar americano de que a guerra não poderá ser evitada. Não apenas em cidades americanas, no Iraque, na Síria, no Líbano, no Iémen, crescem junto com as decisões ocidentais, pedidos e movimentos no sentido de obter a decisão de contenção, evitando punir interesses americanos, salientando-se a inquietação de Israel, que teme a intervenção de agressões, enquanto os experientes Estados europeus, a Rússia e a China pedem ponderação.

E esta não é uma política que possa atempadamente conseguir a recusa de vingança do Irão pela perda do general que não considera responsável por um passado de agressões, mas que nacionalmente era considerado comandante com êxito de operações exteriores, um consagrado histórico que nacionalmente lhes exige uma intervenção de resposta que designadamente animou a exigência dos rigores internos, o que torna difícil que os milhares de nacionais deixem de gritar "morte à América".

O Conselho por seu lado, adotou o grito "vingança". O resultado mais inquietante será que a "vingança" possa ser executada contra americanos em qualquer Estado, uma lembrança que o terrorismo faz lembrar. A inquietação é a de saber se haverá represálias, quais e quando. Foi frequentemente anunciado que este ano seria feliz, mas a intervenção de Trump foi mais dependente do seu interesse político interno do que da prudência de governante impedido da prática de leviandades, estas assumidas sem saber as consequências eventuais de que advertiu Bismark.

O Papa Francisco, que anda fatigadamente a praticar a Missa sobre o Mundo, de Teilhard de Chardin, pediu contenção, cooperação e respeito, pela igual dignidade de todos os povos. Os riscos da época exigem que o milagre aconteça. Mas não é apenas conseguir que um conflito militar, com dimensão global de desastres, responda formalmente à contenção que a fúria nacional do Irão recebe com dificuldade. A questão é a multiplicação dos atos terroristas, agindo designadamente contra interesses americanos em qualquer dos vários países, incluindo da União Europeia, os quais incluem seguramente, à margem dos pedidos de contenção, o saber e a experiência das capacidades desse terrorismo. A Missa sobre o Mundo, do Papa Francisco, não considera apenas o eventual regresso a um conflito global.

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