"Genji Monogatari" em defesa das japonesas

Há duas maneiras de olhar para o papel da mulher na sociedade japonesa: mostrar as duas ministras vestidas de branco entre 23 homens de fato escuro na fotografia da tomada de posse do governo de Yoshihide Suga, em setembro, ou destacar Genji Monogatari, o clássico da literatura nipónica, escrito há mil anos por Murasaki Shikibu, uma cortesã romancista e poeta. Na verdade, o estatuto feminino na terceira maior economia mundial continua em transformação acelerada e é sintomático que as sondagens mostrem que uma maioria clara da opinião pública concorda com a demissão por comentários sexistas do presidente do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio (reagendados para 2021, por causa da pandemia). Há uns dias, Yoshiro Mori afirmou que "as reuniões dos conselhos de administração com muitas mulheres demoram muito tempo" porque elas "têm dificuldade" em parar de falar. A indignação não se fez esperar, a começar pela governadora da capital japonesa, Yuriko Koike.

Pela longuíssima história (ontem foi Dia da Fundação Nacional, assinalando os 2680 anos da entronização do primeiro imperador), pelo papel vanguardista que teve na Ásia na Era Meiji, pela solidez da democracia pós-Segunda Guerra Mundial, também pelo modo como a sua cultura influencia o planeta, do sushi aos livros de Murakami, dos Toyotas à PlayStation da Sony, o Japão merece atenção especial. E a evolução recente do papel da mulher no arquipélago pode dar-nos ensinamentos, por muito que a Europa lidere nos rankings do tema e, por exemplo, dos cinco países nórdicos, quatro tenham uma primeira-ministra.

Referi a governadora Koike, que foi ministra da Defesa quando Shinzo Abe, antecessor de Suga, era primeiro-ministro. Ora, Abe famoso pelo abenomics, também foi um entusiasta do womenomics, ideia de Kathy Matsui, economista-chefe da Goldman Sachs no Japão. Garantia Matsui que atraindo mais mulheres para o mercado de trabalho a economia poderia crescer 10%, muito para uma potência que sofre de uma estagnação quase crónica. Houve incentivos e os resultados surgiram, embora muitas das novas trabalhadoras sejam precárias: as mulheres empregadas passaram de 64% para 71%, valores acima dos da UE (62%) e dos Estados Unidos (64%). E apesar de uma diminuição da população entre os 15 e os 64 anos, mesmo assim aumentou a disponibilidade de mão-de-obra em quase dois milhões de pessoas.

Na escola, as novas trabalhadoras aprenderam sobre a novela do século XI, e os seus colegas homens também. Todos perceberam também a mensagem de Abe, o mais duradouro primeiro-ministro pós-1945. Tudo junto, talvez explique porque não houve perdão para o organizador dos Jogos de Tóquio.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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