Ai, se fosse com o governo do Passos...

Não conheço frase politicamente mais irritante do que aquela que agora utilizo para título. Ela pressupõe que há um tratamento diferenciado e generalizado entre os jornalistas e os comentadores para governos de esquerda e governos de direita. Mais grave ainda, de acordo com os que passam a vida a repetir essa frase, essa diferenciação é persecutória e baseia-se no preconceito de que a direita tem culpa em tudo e a esquerda não tem culpa em nada. Basta ver com isenção a isenção que se reclama para perceber que as coisas não são bem assim, mas, convenhamos, às vezes parece que a coisa corre mais molenga quando são os socialistas que estão sob escrutínio.

Um governo desconchavado como é, nesta fase, o governo de António Costa não carece de paninhos quentes na hora de olhar para as broncas que se sucedem umas atrás das outras. Eduardo Cabrita, Pedro Nuno Santos, TAP, Marta Temido, divórcio com o Bloco, não-olhes-para-o-que-eu-disse-no-passado-olha-para-o-que-eu-digo-agora em relação ao Novo Banco, é confusão a mais para um só governo, em tão pouco tempo.

Pensem comigo. É público que há um ministro que quer suceder a António Costa, quer na liderança do partido, quer na liderança da esquerda e do governo. Esse ministro, no dossiê TAP, começa por ganhar uma etapa ao chefe dele conseguindo a nacionalização para que a reestruturação da companhia aérea seja feita pelo Estado. Mais tarde, perde para o chefe na etapa em que decide levar o plano a votação no parlamento. O jornalismo tem de fazer algumas perguntas:

António Costa alguma vez falou com Pedro Nuno Santos sobre o plano de levar o plano a votação no parlamento? Se falou, alguma vez admitiu dar razão ao seu ministro? Se admitiu, o que o fez recuar? Se nunca falou ou nunca admitiu o que faz que um amotinado se mantenha no barco quando se aproxima um agravamento da tempestade?

Olhemos para outro lado do mesmo governo. Um cidadão ucraniano é assassinado às mãos do Estado português, o assunto é guardado como se fosse um segredo de Estado, quando é tornado público, o ministro diz que lamenta. Nove meses depois decide indemnizar a família do imigrante assassinado, já depois de nada ter feito para ajudar essa família para transladar o corpo para a Ucrânia. A diretora do SEF mantém-se no lugar até ser empurrada por pressão da opinião pública e o ministro anuncia uma reestruturação dos serviços. Acossado, diz um chorrilho de disparates. Tem a total confiança do primeiro-ministro. O jornalismo já tinha feito muitas perguntas. Nas páginas deste jornal, o notável trabalho de Valentina Marcelino e Fernanda Câncio merece bem mais respeito por parte do ministro e do chefe dele.

Eu sei que a frase é um completo disparate repetido demasiadas vezes por pessoas que tudo perdoavam ao governo de Passos e nada lhes parece bem com este governo - iguais aos que criticam, portanto -, mas eu nesta semana também me pus a imaginar até onde teria chegado, na escala de Richter, a violência da opinião publicada se esta semana política tivesse sido uma semana do governo de Passos Coelho. Não é que a crítica não se tivesse feito ouvir, mas é tudo uma questão de intensidade.

Jornalista

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