Política de baixa intensidade

O governo alemão tem atirado a cartilha neoliberal às urtigas em gestos sucessivos de afirmação axiomática de um interesse nacional que dispensa outros argumentos. A vítima tem sido o capital chinês, que esbarra contra a blindagem montada em torno daquilo que Berlim considera ser o núcleo nevrálgico da economia germânica. O governo alemão ainda não percebeu que a brutal política de austeridade imposta a Atenas, Lisboa ou Roma fez recuar as suas próprias defesas, mas agora que a União Europeia está num túnel sombrio, Berlim faz aquilo que até um governo pouco inteligente tem de fazer: mobiliza-se para os piores cenários.

Em Portugal, nem isso. Parece viver-se num clima de soporífera irrealidade. A oposição PSD-CDS descansa à espera do seu melhor momento, sem pesos na consciência pela alienação de empresas públicas estratégicas em setores-chave, como a energia, os transportes aéreos, as comunicações, os Correios... É verdade que o sinistro governo de Sócrates-Salgado preparou o caminho, mas a doutrina neoliberal de Passos Coelho, para não falar das coisas menores nos grandes negócios que só se descobrem mais tarde, fez o resto. Não menos surpreendente é a atmosfera de sucesso ficcional que transforma o marcar passo deste governo num êxito assinalável. Apesar de atenuada por um contexto externo favorável à criação de emprego, a austeridade continua. Traduz-se na degradação do Serviço Nacional de Saúde, do transporte ferroviário, do ambiente de trabalho nas escolas. O gigantesco e interminável incêndio de Monchique revela que a aposta na vertente do combate, e dos respetivos meios, não substitui a prioridade estratégica de um prolongado e dispendioso reordenamento florestal, que terá de colidir com poderosos interesses económicos instalados. Com o agravamento das alterações climáticas, e sem mudança de rumo, os incêndios dependerão sempre mais de São Pedro do que de São Bento.

Olhando para o futuro, a situação não melhora. O BE e o PCP vão aprovar o Orçamento do Estado para 2019 pelas mesmas razões por que têm avalizado o trumpismo envergonhado deste governo, na sua desastrosa e irresponsável política energética e ambiental, abrindo - contra todos os pareceres científicos e compromissos internacionais do Estado - o território emerso e marítimo à exploração de petróleo e gás por parte de empresas que fazem lucro com a tragédia climática global. As alternativas de futuro parecem esgotar-se entre o improvável e imerecido regresso da coligação PSD-CDS, ou a continuação da geringonça, já que uma maioria absoluta do PS parece fora de questão. A reedição de um governo Costa transformará o programa mínimo de 2015 numa espécie de instituição. Em 2015 existia um fator de emergência: afastar o PSD, que tivera a maioria relativa nas eleições. Em 2019, refazer um governo PS apoiado em dois partidos com os quais não é possível sequer falar sobre o fator fundamental para a sobrevivência do país, a reforma das instituições europeias, será um sinal do niilismo prevalecente. Há uns dias, Azeredo Lopes falou na hipótese de um retorno ao serviço militar obrigatório. Trata-se de um tema sério, que é discutido nos países onde os parlamentos não têm reservas de consciência. Contudo, e de imediato, um chefe da Juventude Socialista veio admoestar o ministro, acusando-o de uma visão "passadista". Coladores de cartazes a silenciar ministros! Não poderia existir melhor retrato da menoridade política em que continuamos mergulhados.

Professor universitário

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Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.