Homenagem a Gagarine

Com a chegada da cápsula Soyuz MS-18 à Estação Espacial Internacional, conhecida também pelo acrónimo inglês ISS, são neste momento dez os cosmonautas e astronautas lá em cima a olhar para a o planeta azul. Mas se as diferentes designações dos viajantes no espaço ainda trazem as marcas da corrida espacial que coincidiu com o pico da Guerra Fria, a presença simultânea na ISS de russos e americanos (e ainda de um japonês) simboliza a cooperação científica internacional que é agora a regra. E esta cooperação entre as nações na investigação espacial é a melhor homenagem que se pode prestar a Yuri Gagarine, o cosmonauta que, faz nesta segunda-feira 60 anos, efetuou o primeiro voo ao espaço. Herói da Rússia, Gagarine é também um herói da humanidade, tal como se pode dizer do americano Neil Armstrong, que em 1969 se tornou o primeiro homem a pisar a Lua.

Durante mais de uma década, depois do lançamento em 1957 do satélite Sputnik pela URSS, soviéticos e americanos foram-se medindo no espaço tal como faziam na Terra, embora lá em cima o confronto fosse só simbólico, nem sequer através de guerras por procuração. Já cada um dos lados tinha podido gritar vitória algumas vezes, quando surgiu finalmente vontade de concretizar a ideia de uma missão conjunta sovieto-americana. Demorou alguns anos a preparar, com necessidade de ultrapassar desconfianças mas também de criar tecnologia de acoplagem entre naves de países diferentes, e aconteceu em julho de 1975, não por acaso também o mês da última das Conferências de Helsínquia, sinónimo de desanuviamento entre o Kremlin e a Casa Branca, lideravam então Leonid Brezhnev e Gerald Ford.

A Soyuz 19 e uma Apollo (não numerada) acoplaram no espaço no dia 17 e três soviéticos e dois americanos conviveram durante cinco dias. Os chefes de missão ficaram amigos, com o soviético a ser padrinho dos filhos do americano e o americano a ser chamado aos 89 anos a pronunciar em 2019 o elogio fúnebre do compadre (na cerimónia esteve Valentina Tereshkova, a primeira mulher no espaço, hoje com 84 anos). Para a história ficou sobretudo a fotografia do aperto de mão em órbita entre Alexei Leonov e Thomas Stafford.

Só em 1995, já terminada a Guerra Fria e extinta a URSS, uma segunda acoplagem de russos e americanos foi efetuada, com a estação espacial Mir a receber o vaivém Atlantis. Uma cooperação no espaço que se tornou internacional e que permitiu, quando a Mir começou a ficar datada tecnologicamente, a construção da ISS, que agora nos sobrevoa a 400 quilómetros de altitude.

Entretanto, à Roscosmos e à NASA vieram juntar-se agências espaciais de vários países e até empresas privadas como a SpaceX, que leva astronautas para a ISS. Ao mesmo tempo, o interesse pela exploração do universo parece recomeçar, com novos projetos de alunagem e sobretudo vontade de conhecer melhor Marte. E aos cosmonautas e astronautas vieram juntar-se os taikonautas, os viajantes no espaço chineses. Ora, falta a China nos parceiros da ISS. Por muito que tenha havido razões científicas e até políticas para excluir há uns anos Pequim do projeto, é inquestionável que uma verdadeira cooperação internacional precisa da segunda potência económica do planeta Terra e dos seus cientistas.

Serão os americanos capazes de fazer compromissos? Os russos, paralelamente, até admitem construir uma estação lunar a meias com a China. E os chineses, neste momento de grande aceleração para tentar acabar com a supremacia americana no planeta, estarão interessados em jogar pelas regras que o resto do mundo criou para o espaço? Vladimir Putin e Joe Biden sabem que desta vez a iniciativa tem de vir de Xi Jinping, que já neste ano apelou ao uso pacífico do espaço. Um aperto de mão entre um cosmonauta, um astronauta e um taikonauta seria, essa sim, a mais bela das homenagens a Gagarine e a todos os pioneiros do espaço.

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