Quando a Ásia Central prova a sua centralidade
Foi cruzando a Ásia Central e o Tibete, vindo da Índia, que o jesuíta português Bento de Góis chegou à parte mais ocidental da China e daí enviou correspondência para Pequim, para outro jesuíta, o italiano Matteo Ricci, a confirmar aquilo que ambos já há muito suspeitavam: a China a que os portugueses chegaram por mar no início do século XVI correspondia ao Cataio descrito por Marco Pólo no livro que escreveu no século XIII. Ora, a esta Ásia Central, que alguns limitam ao espaço das cinco repúblicas ex-soviéticas, outros acrescentam o Afeganistão (talvez o mais mediático país da região pelas piores razões, e hoje até se assinala o 21.º aniversário do 11 de Setembro) e o Xinjiang, uma província chinesa de maioria islâmica. Ao todo, pouco mais de 100 milhões de habitantes para um território imenso - basta pensar que o Cazaquistão é o nono maior país do mundo ou que o Xinjiang representa um sétimo do território da China.
A fraca densidade populacional não desmente, porém, a centralidade da região, a meio caminho entre a Europa e o Extremo Oriente, também um ponto privilegiado de passagem entre os produtos do Médio Oriente e da Índia a caminho da China, e vice-versa. Por estar longe, e sobretudo por ser uma região afastada dos oceanos, a Ásia Central costuma chamar pouco a atenção dos portugueses, mas, como vimos, por volta de 1607 (ano da sua morte, na atual província chinesa de Gansu), Góis andava por lá, e já antes, na Idade Média, Frei Lourenço de Portugal chegou a ser designado embaixador papal à corte mongol, não chegando a partir para a Tartária por razão desconhecida.
Nos próximos dias, porém, é quase certo que boa parte da atualidade noticiosa passe pela Ásia Central, pois foi anunciado por Nursultan que o Cazaquistão receberá na quarta-feira Xi Jinping, naquela que será a primeira visita ao estrangeiro do presidente chinês desde o início da pandemia de covid-19. País envolvido num esforço de democratização, também com uma diplomacia que tenta ter boas relações com o Ocidente sem menosprezar a Rússia, o Cazaquistão é valioso para a China, tanto pela geografia, ponto de passagem das novas rotas da seda, como pelos recursos energéticos. Um valor que terá crescido na sequência da guerra na Ucrânia e do embate entre o Ocidente e o Kremlin, pois é um país-ponte e capaz de construir pontes. A provar esta ideia está a visita, também na próxima semana, de Francisco, com o possível encontro do Papa com o patriarca de Moscovo, pois o Cazaquistão acolhe um encontro de líderes religiosos mundiais. Francisco e Kirill podem conversar sobre muitos temas, entre eles, claro, a Ucrânia.
Depois do encontro na capital cazaque com o presidente Kassym Jomart-Tokayev, Xi seguirá para Samarcanda, no Uzbequistão, para a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que junta quatro países da Ásia Central com a Índia, o Paquistão e a Rússia, além, claro, da China. Expectativas fortíssimas sobre o encontro entre Xi e Vladimir Putin, o primeiro desde que o presidente russo foi a Pequim à abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em vésperas da invasão da Ucrânia. Será secreto o conteúdo da conversa, mas Pequim, apesar dos laços com Moscovo, continua a ser visto como o mediador certo para tentar resolver a tensão internacional, até porque, se esta se agravar do ponto de vista económico, a China tem muito a perder, como, aliás, o resto do mundo. E os compatriotas de hoje de Góis não são exceção.

