A Deusa. Que outro nome poderia dar-se a uma sapataria que só calça mulheres?

Inserida nas lojas históricas de Lisboa, a sapataria da Rua 1.º de Dezembro esteve fechada durante dois anos, mas reabriu porque José Ribeiro não quis deixar morrer um estabelecimento com tanto que contar. E com uma decoração única. Que se mantém.

Nos anos 1950, o marketing podia não ser uma técnica muito desenvolvida, mas havia quem revelasse dotes para a matéria quando era preciso escolher o nome de uma sapataria. Que mulher não se sente uma deusa em cima de uns sapatos de salto alto? Que mulher não se sente uma deusa ao ver-se refletida na biqueira de um sapato que espreita por baixo de um vestido de noite? Que mulher não se sente uma deusa quando uns sapatos completam o seu look de noiva?

Quem lhe deu o nome sabia o que fazia. A sapataria A Deusa, que ostenta a categoria de loja histórica de Lisboa, ao fim de 70 anos, mantém-se fiel ao público feminino. Longe dos tempos áureos do comércio tradicional, quando sete empregados não davam conta para atender tanta clientela e se digladiavam por causa das comissões, mas com muito orgulho no passado. Tanto que o interior, à exceção do chão, que era alcatifado - as deusas não andam, afinal, sobre nuvens? -, se mantém inalterado. A decoração a puxar ao estilo art déco, o mobiliário, o candeeiro de teto que tanta gente quer comprar, são autênticas relíquias. E depois há o painel em baixo-relevo, o ex-líbris da loja, em verde-escuro, que lhe empresta o nome - a imagem de uma deusa hindu.

São sobretudo as paredes repletas de caixas de sapatos, como se fossem desenhadas a régua e esquadro, que encantam quem lá põe os pés. Contam os dois empregados, Anselmo Grais e Luís Santos - também eles elementos históricos da casa -, que os turistas entram propositadamente para tirar fotografias àquela maravilha. Há ainda o néon que costuma estar aceso (agora está apagado devido a uma avaria) que se distingue na Rua 1.º de Dezembro, paredes-meias com o Rossio. Um traçado de Lisboa onde proliferaram várias sapatarias, até que o novo conceito de comércio self-service obrigou a que muitas delas tivessem que fechar as portas. Além de A Deusa, há ainda duas vizinhas que resistem, mas está longe de ser o porta-sim, porta-não de antigamente.

Depois de fechar, A Deusa ressuscitou

Tudo indicava que A Deusa poderia ter o mesmo triste fim. Em 2016 entrou em insolvência e chegou mesmo a fechar. Passados dois anos, José Ribeiro (68 anos), pegou no negócio e readmitiu os dois funcionários que estavam no desemprego.

"Somos contabilistas e fazíamos a contabilidade da casa, conhecia a sua história. Tinha pena de que uma casa tão antiga desaparecesse. Defendo as coisas com história, sou contra modernismos. Vou a Paris e vejo uma coisa, vou a Londres ou a Washington e é tudo igual, no sentido da massificação", justifica o proprietário que, ao fim de tão pouco tempo à frente do negócio, já tem um rol de razões para se queixar - a pandemia obrigou ao encerramento nos dois meses de confinamento e ao lay-off sem que tenha recebido ainda qualquer apoio, as vendas passaram a ser drasticamente menores e, por causa da covid-19, nem sequer há turistas. A estes fatores acrescenta as decisões que levaram à venda de muitos edifícios da Baixa, como os dos bancos, ou até o encerramento da Loja do Cidadão dos Restauradores que tirou muita gente da zona. "A Baixa está uma tragédia", afirma.

Quando pegou n'A Deusa, José Ribeiro manteve a exclusividade do calçado feminino - há sapatos para todos os gostos e feitios e se a opção for por uns saltos agulha, para cerimónias, casamentos ou batizados, há muito por onde escolher. O que o novo proprietário fez foi acrescentar a oferta de marroquinaria, rentabilizando outro negócio que já detinha. Sem mexer um milímetro na tradição, foi recuperar também os empregados, "pessoas de confiança".

A guerra pelas comissões

Anselmo Grais tem 58 anos, 44 deles a trabalhar n'A Deusa. Luís Santos tem 56 anos e está lá há 30. Duas vidas cheias de memórias a vender - e a calçar - sapatos a mulheres. Sim, porque nesta sapataria os empregados ainda se ajoelham e calçam os sapatos às clientes, agora obrigados às devidas distâncias por causa do coronavírus.

Quando Anselmo entrou para o n.º 15 da Rua 1.º de Dezembro, em 1975, tinha 14 anos e o 5.º ano de escolaridade. Foi ganhar 2200 escudos (11 euros), mais as comissões. Eram outros tempos! "Chegávamos a atender duas e três clientes ao mesmo tempo e, às vezes, até levávamos as compras à casa das senhoras."

"Ganhava-se mais dinheiro em comissões do que de ordenado", acrescenta Luís. Só que, com a chegada das grandes cadeias, sem atendimento personalizado, com calçado de qualidade inferior, mas mais barato, o negócio começou a definhar. Para complicar ainda mais, as grandes lojas de roupa internacionais também começaram a vender sapatos. Mas há que ter esperança em dias melhores, esperança também no regresso dos turistas à Baixa lisboeta que gostam de comprar o calçado de origem nacional, de pele genuína.

Há três, quatro anos o negócio animou com as clientes angolanas que chegavam a levar dez e 12 pares de sapatos. Mas o melhor ano desde que trabalham n"A Deusa, disso Anselmo e Luís não têm dúvidas, foi o da realização da Expo'98.

Tempos em que havia fila à porta

Como já se disse, os tempos são outros. Nas festas e nos aniversários perdeu-se a tradição de estrear roupa e calçado. Já não se compra da mesma forma que antigamente, quando indecisas, as senhoras levavam dois e três pares de sapatos. Para influenciar a compra, muito contava a técnica dos vendedores: começava por não haver a "modernice" de ter os sapatos expostos em cima das caixas - o que havia para ver estava na montra, explicam. E depois, quando a cliente pedia para ver o produto, quando iam ao armazém vinham com uma pilha de caixas de sapatos. Ora veja lá estes... E não gosta destes?

"Estávamos sempre atentos. 'Vai para o fim da fila', 'essa cliente é minha', era uma luta. Mas éramos uma família."

À hora de almoço, chegava a haver fila à porta da loja - os sete empregados não tinham mãos a medir com tanta clientela. Anselmo e Luís recordam as regras desses tempos, num esforço de distribuir as comissões equitativamente. "Quando entrava uma cliente, os empregados vinham à porta à vez. Bastava que dissesse bom dia, e mesmo que a cliente saísse logo sem comprar nada, tinha de ir para o fim da fila. Andávamos em guerra uns com os outros que às vezes nem se atendia a cliente como deve ser por causa disso", conta Luís.

"Estávamos sempre atentos. 'Vai para o fim da fila', 'essa cliente é minha', era uma luta. Mas éramos uma família. E também havia umas senhoras que queriam ser sempre atendidas pelo mesmo empregado", acrescenta Anselmo Grais.

Não havia farda, mas os empregados andavam vestidos a rigor. Calça clássica, camisa e gravata ou pullover. As regras estendiam-se ainda à progressão no emprego. Funcionário que entrasse tinha de começar pelo armazém até chegar a primeiro-caixeiro e, no topo, estava o encarregado.

Nos anos 1950 a rua estava repleta de sapatarias. E, pelo menos até ao final do século passado, o negócio mantinha-se vivo. Nem a Charles, no início da Rua do Carmo, lhes tirou o fôlego, seria esta cadeia portuguesa a falir.

Uma decoração que encanta

Como é frequente em lojas históricas, A Deusa, fundada em 1951 pelos irmãos Neves, mantém a sua fachada e a decoração interior. Desde 2012, está inserida no Conjunto de Interesse Público da Lisboa Pombalina.

A decoração rétro começa a impor-se logo na fachada: duas montras meio arredondadas assentes em mármore claro, a porta de ferro e o néon com o nome da loja. Lá dentro, os sentidos são direcionados para as paredes forradas praticamente de alto a baixo com caixas, onde ainda hoje são guardados os sapatos. As caixas originais, contam Anselmo e Luís, eram de madeira, mas a alteração dos modelos veio impedir que o calçado ali fosse colocado. Foram então mandadas fazer estas caixas de cartão forte, com puxadores e com um rótulo onde são inscritas as referências - contam com algumas décadas de vida e já precisaram de ser restauradas. A condizer, há as poltronas de pele branca onde as clientes se sentam e de onde podem olhar para os pés através dos espelhos que ladeiam a deusa hindu ou que ornamentam os tetos.

Porque estes últimos dias ainda foram de calor, os expositores com artigos em saldo colocados no meio da loja alteraram um pouco a disposição das poltronas e não permitem uma vista desafogada para a beleza d'A Deusa. Mas em breve serão retirados e as suas características únicas voltam a reinar.

Se o negócio florescer, como deseja, José Ribeiro gostava de recuperar o sapateiro que já existiu dentro da loja. De um lado ficava a caixa, do outro o Bar do Salto.

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