Premium O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Na verdade, o fenómeno é apenas mais uma manifestação do que podemos chamar a Lei do Afunilamento de Convenções Genéricas: quanto maior a percepção de que um determinado tropo está exausto, e mais frequentes os esforços para o desconstruir ou reinventar, mais breve é o espaço de tempo até a sua utilização voltar a parecer boa ideia. Como subcategoria de "fantasma", a rapariga desgrenhada, com o cabelo a cobrir-lhe metade do rosto, ocupa actualmente um cargo indefinido entre primeiro e último recurso, a meio caminho entre paródia e maneirismo. E a categoria mais ampla a que pertence enfrenta problemas semelhantes.

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