Premium O monoteísmo do "deus dólar" continua

Em 1866, o jovem Eça de Queirós aproveitou a passagem por Lisboa do moderníssimo couraçado norte-americano USS Miantanomah para escrever na imprensa algumas notas penetrantes sobre a identidade dos EUA. No essencial ele identificava uma tensão matricial em Washington, definida pela oposição entre o "deus dólar", que explicava a violência expansiva, mesmo desumana, do seu capitalismo, e o impulso para a "justiça", traduzido na abolição da escravatura ao preço do enorme sacrifício da Guerra Civil, terminada no ano anterior. Gostaria muito de poder subscrever a tese de que nas recentes eleições intercalares a justiça prevaleceu sobre a idolatria do capital. Infelizmente, o sinal positivo dado pelos eleitores é ainda insuficiente para atenuar a gravíssima patologia da democracia nos EUA.

O problema central consiste no facto de que nos últimos 30 anos, de modo gradual, os EUA fizeram a escolha inversa à que efetuaram depois da Grande Depressão de 1929. Para compreender a política do New Deal de F. D. Roosevelt teremos de recordar o dilema enunciado por um dos seus apoiantes no Supremo Tribunal, o juiz Louis Brandeis (que serviu entre 1916 e 1941): "Podemos ter democracia ou podemos ter a riqueza concentrada em escassas mãos. O que não podemos ter é as duas coisas ao mesmo tempo." Os estudos revelam que a possibilidade de a minoria bilionária ver as suas preferências transformadas em lei pelo Congresso é dez vezes superior à capacidade de a restante e esmagadora maioria dos eleitores imporem as suas escolhas. Uma pesquisa de 2014, de B. Page e M. Gilens, confirmou isso mesmo a partir da análise de 1779 decisões do Congresso ao longo de 20 anos. O sistema de compra das leis (pay-to-play) junto dos congressistas pelos super-ricos é feito às claras no Partido Republicano, mas os Democratas não ficam muito melhor na fotografia. Só assim se percebe que num país onde se morre à porta dos hospitais por falta de dinheiro seja possível passar despudoradamente leis que aliviam os impostos aos ricos e cortam os serviços públicos aos pobres, tornando os EUA mais desiguais do que a Turquia e a Rússia.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

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Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.