Chama-se HeiScreen o exame ao sangue anunciado esta semana pelo Hospital Universitário de Heidelberg, Alemanha, que poderá ser mais um aliado no diagnóstico precoce do cancro da mama já que recorre à técnica da biopsia líquida, não é invasivo e deteta 15 tipos diferentes de células de cancro da mama. Um aliado e não um milagre, dizem os investigadores portugueses..Em Portugal, este novo exame é visto com cautela até porque ainda não está comprovado cientificamente. Não é, aliás, o primeiro exame do género anunciado e nenhum foi até momento validado, explica ao DN Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud (CCC). E é por essa razão que ainda "não tem aplicação clínica", sublinha a investigadora..Para Luís Costa, diretor de oncologia do Hospital de Santa Maria, este teste "é mais um passo no sentido de termos métodos menos invasivos e mais acessíveis para a deteção de lesões malignas em estado precoce". Refere, no entanto, que não há ainda nenhuma publicação científica sobre o HeiScreen que "valide" este e outros testes..É um projeto antigo este de encontrar a deteção do cancro através do sangue e sem os métodos habituais, invasivos e violentos. Ao longo dos últimos anos há vários projetos de investigação nesse sentido. No ano passado, por exemplo, foi anunciado o CancerSeek, um novo método realizado por uma equipa de cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA. Um estudo que foi publicado na revista Science ..Trata-se de "um teste muito semelhante (biopsia líquida) que foi publicado em janeiro de 2018 e com grande potencial para vários tipos de tumores, mas ainda não é de uso validado na prática clínica. O CancerSeeK terá o potencial de ser um teste para deteção precoce de cancro do pâncreas, do pulmão e do ovário, mas também da mama", explica o médico oncologista. Mas também este estudo carece ainda de uma validação científica..No caso do HeiScreen, a equipa de cientistas da universidade alemã considera que este método deverá ampliar o espectro de diagnóstico ótico, como a mamografia, a ressonância magnética ou a ecografia. "O exame de sangue desenvolvido pela nossa equipa oferece uma nova e revolucionária oportunidade para detetar o cancro da mama de forma rápida e não invasiva usando biomarcadores no sangue", afirmou Christof Sohn, diretor médico do Hospital Universitário de Heidelberg..Os investigadores salientam as vantagens deste novo teste ao sangue em comparação com a mamografia. "O novo procedimento baseado no sangue é significativamente menos penoso para as mulheres, porque não é nem doloroso nem associado à exposição à radiação", explica Sarah Schott, também do Hospital Universitário alemão..Mamografia vai manter-se.Fátima Cardoso considera que "este teste para revolucionar a forma como diagnosticamos o cancro da mama tem de passar por uma validação externa, por um grupo diferente daquele que o desenvolveu, tem de se ver se é reproduzível, se grupos diferentes em lugares diferentes obtêm os mesmos resultados e depois tem de ser comparado diretamente, num estudo randomizado, com o método standard que é a mamografia". O HeiScrenn está "longe de ser validado" e como consequência longe de fazer parte da prática clínica, acrescenta..E mesmo que este teste ao sangue agora divulgado seja validado cientificamente, Fátima Cardoso não considera que seja o primeiro passo para se deixar de usar a mamografia. "De todo", diz, de forma taxativa, destacando o facto de este meio de diagnóstico ser crucial na deteção precoce. Por essa razão, já salvou milhões de vidas. "O diagnóstico precoce é o que mais vidas salva", sublinha. O cancro da mama tem, aliás, uma taxa de cura muito grande se for diagnosticado atempadamente..Seis mil novos casos de cancro da mama.A médica oncologista e investigadora recorda que desde os anos 1990, a taxa de mortalidade por cancro da mama baixou 30%. "Estima-se que metade é devido ao rastreio e diagnóstico precoce e a outra ao desenvolvimento de novos tratamentos", nota. E refere que, todos os anos, existem 2,1 milhões casos de cancro da mama em todo o mundo, segundo dados da Agência Internacional para a Investigação no Cancro (IARC), membro da Organização Mundial de Saúde..Em Portugal, todos os anos há 6 mil novos casos de cancro da mama.."Neste momento e nos anos mais próximos a mamografia continuará a ser o standard. Não quer dizer que com a evolução das tecnologias no futuro isso não possa vir a mudar. Neste momento, não há nada no horizonte que nos leve a pensar que iremos fazer algo de diferente que não a mamografia", reforça a diretora da Unidade da Mama do Centro Clínico Champalimaud. A mamografia que hoje é realizada não é a mesma que se fazia há 20 anos, um método de diagnóstico no qual também se fez sentir a evolução tecnológica. "As máquinas são muito melhores, emitem muito menos radiações, têm uma imagem muito melhor, permitindo fazer melhores diagnósticos.".Ainda assim permanece, por vezes, uma ideia errada quando o assunto é a radiação emitida por este exame. "Hoje, a mamografia, com a técnica que se utiliza, tem uma quantidade de radiação muito baixa e não se fazem todos os meses, fazem-se uma vez por ano. Uma viagem de avião de longo curso expõe-nos a mais radiações do que todas as mamografia na vida de uma mulher", esclarece..E a principal mensagem é mesmo "não ignorar os sintomas". "O que as pessoas têm de saber é que atualmenteum diagnóstico de cancro não é um diagnóstico de morte. E aquilo que determina o facto de se sobreviver ou não é, muitas vezes, o ir rapidamente ao médico quando se deteta um sintoma", sublinha a médica oncologista..O que é a biopsia líquida?.O teste agora divulgado pelo Hospital Universitário de Heidelberg é mais um estudo de biopsia líquida, "uma área que está a ser intensamente investigada para que um dia se possa fazer diagnósticos o menos invasivos possível", reconhece Fátima Cardoso. O oncologista Luís Costa também realça o papel "muito importante" das "biopsias líquidas para deteção mais precoce do cancro ou da sua recidiva". Mas volta a frisar: "Carecem de validação para a deteção precoce.".Tal como em outras áreas, a medicina está sempre em busca de desenvolver novas formas de diagnóstico, bem como novas formas de tratamentos. Um objetivo sempre presente, mas sem se "perder o benefício que entretanto alcançamos", considera Fátima Cardoso, referindo-se à mamografia..Com grande enfoque na área da investigação, também a Fundação Champalimaud está a desenvolver um estudo através da biopsia líquida, um método através do qual se tenta identificar no líquido do organismo - que pode ser sangue, urina, saliva ou plasma -, as células tumorais ou o ADN do tumor..No caso da fundação, explica a médica oncologista, está a ser desenvolvida uma técnica para "ajudar a identificar os melhores tratamentos para cada doente individualmente", mas também para acompanhar o tratamento que está a ser efetuado..Um estudo em desenvolvimento que recorre à tecnologia dos exossomas. E o que são exossomas? "São gotículas minúsculas que as células utilizam para comunicar umas com as outras e a composição dessas gotículas é diferente entre as células normais e as células malignas. Nós estamos a utilizar essa técnica para monitorizar a resposta ao tratamento e também para tentar determinar, após a conclusão do tratamento, quais são as pessoas que têm ainda um risco de ter uma recidiva e para as quais se calhar é necessário mais tratamento", especifica Fátima Cardoso. Esclarece, contudo, que esta é uma técnica em fase de investigação, "como todas as técnicas de biopsia líquida"..Caso venha a ser validado, o estudo que está a ser desenvolvido pela Fundação Champalimaud permitirá melhorar o tratamento personalizado. "O que estamos a fazer são ensaios clínicos. Os resultados preliminares têm sido muito bons, de tal forma que continuamos a investigar, mas temos de esperar pelos resultados finais", revela a médica oncologista.