A "queda de um forte aguaceiro na semana anterior" [algures entre 27 e 31 de abril], na versão da câmara de Peniche, ou "episódios de forte pluviosidade", na versão da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), fizeram com que uma semana depois, a 3 de maio, fosse pedido com "urgência", para esse mesmo dia, o desassoreamento de "uma saída de águas pluviais" para o mar sem que previamente qualquer análise, a recolha de amostras de água, tivesse sido realizada. Uma torrente de um líquido espesso e negro, alegadamente de "águas pluviais", foi lançado ao mar. Uma máquina abriu um "rio" pelas areias e permitiu o escoamento que durou várias horas. As águas do mar ficaram negras. A areia da praia ficou igual. A recolha de amostras só foi feita no dia seguinte, no dia 4 de maio, por causa da "urgência" do dia anterior, mas "atendendo aos resultados" foram realizadas novas recolhas quatro dias depois, no dia 8 de maio..E agora? Agência Portuguesa do Ambiente "irá articular, com o Município de Peniche, a implementação de medidas de mitigação do impacte ambiental destas intervenções" e procurar "constatar a existência de focos de poluição a montante"..Mais ainda: "Este assunto será acompanhado de forma muito próxima pelas equipas da Agência Portuguesa do Ambiente no período prévio e no decorrer da época balnear que terá início no dia 1 de junho", assegura este instituto público sob tutela do ministério do Ambiente e da Ação Climática..A zona em causa, na praia da Consolação, é detentora de bandeira azul e fica próxima do local, os famosos "supertubos", onde todos os anos decorre a MEO Rip Curl Pro Portugal, Championship Tour da World Surf League que traz a Portugal, e em particular a Peniche, os melhores surfistas mundiais..O que falta ainda saber? À hora de fecho desta edição o DN ainda aguardava por respostas a estas questões por parte da Agência Portuguesa do Ambiente: "O que detetaram as análises realizadas no dia 4 e dia 8 de maio?", "Que impacto ambiental destas intervenções foi detetado de modo a que seja necessário a implementação de medidas de mitigação?", "Que focos de poluição a montante estão em causa?"..Mas não apenas. Da autarquia de Peniche ficaram, ainda, sem resposta todas estas questões: "Sendo que a decisão de concretizar a abertura da linha de água ao mar na Praia da Consolação é da Câmara Municipal de Peniche, foi assegurado o cumprimento das condicionantes definidas pelas entidades com competência em razão da localização - APA e Capitania? Nomeadamente, a operação decorreu com a presença da Polícia Marítima durante a intervenção?"; "Foram avaliados os efeitos do impacto ambiental?"; "Foi confirmado a existência ou não de focos de poluição a montante que permitissem a realização da operação?"; "O impacto ambiental coloca em causa a atribuição de bandeira azul?"; "Sendo que altura na operação havia uma dezena de surfistas no mar, foram eles avisados de que deveriam sair do mar?"; "Que medidas de mitigação do impacte ambiental serão tomadas?"..3 de maio, quarta-feira. "A Câmara Municipal de Peniche solicitou, no dia 03/05, autorização à Agência Portuguesa do Ambiente, enquanto Autoridade Nacional da Água, e ao Órgão Local da Autoridade Marítima com competência em razão da localização - Capitania do Porto de Peniche, para proceder à abertura pontual da linha de água em causa, atendendo ao seu assoreamento natural, a realizar nesse mesmo dia durante o período da tarde", refere, ao DN, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).É argumentado pela autarquia, segundo a APA, a "urgência da intervenção decorrente dos episódios de forte pluviosidade e ao facto de não ter, ainda, iniciado a época balnear [começa a 1 de junho]"..Onde está a urgência? "Existia uma considerável acumulação de águas na zona [na linha de água], situação que se havia agravado devido à queda de um forte aguaceiro, concentrado num curto espaço de tempo, ocorrido durante a semana anterior", responde a autarquia..Explicação anterior? "No início deste ano ocorreram situações de grande pluviosidade no nosso concelho que resultaram em inundações e cheias urbanas, tanto em áreas agrícolas como em aglomerados. Junto à praia da Consolação existe, há muitos anos, uma saída de águas pluviais que desagua na praia, proveniente de uma linha de água mestra. Estas águas infiltram-se naturalmente no sistema dunar, sem prejuízo do e para o meio ambiente", só que desta vez devido "à queda de um forte aguaceiro", na semana anterior, foi pedida urgência, uma semana depois, na quarta-feira, dia 3 de maio, para que nesse dia à tarde se fizesse o "desassoreamento daquela linha de água". E fez-se..A autorização para a "urgência" foi concedida já que estas "intervenções que contemplam a abertura de linhas de água ao mar são um procedimento recorrente" - e sublinha a Agência Portuguesa do Ambiente: da "responsabilidade das Câmaras Municipais sujeitas a autorização da APA e da Capitania" - que "devem respeitar algumas condicionantes, dependendo se a execução decorre durante o período da época balnear ou fora deste"..Quais condicionantes? A que implica a presença da Polícia Marítima "durante a intervenção, que foi cumprida, com a autorização do Comandante - Capitão do Porto de Peniche", assegura a APA..O DN, no local, durante o tempo da reportagem, não verificou a presença da Polícia Marítima..E a avaliação do que foi largado no mar e os impactos ambientais de tal operação? "De forma precaucionaria, foram realizadas recolhas de amostras [sem dizer quando] de água na linha de água e nas águas costeiras , entregues no Laboratório de Referência do Ambiente da APA", responde Agência Portuguesa do Ambiente..E depois reitera que "a decisão de concretizar a abertura da linha de água ao mar na Praia da Consolação é da Câmara Municipal de Peniche, que deve assegurar o cumprimento das condicionantes definidas pelas entidades com competência em razão da localização - APA e Capitania"..As "recolhas de amostras de água na linha de água e nas águas costeiras, entregues no Laboratório de Referência do Ambiente da APA", foram feitas à posteriori ou após a abertura da linha de água? Os resultados permitiam a execução da operação?", questiona o DN.."Durante o período da época balnear, nas intervenções de abertura das linhas de água ao mar solicitadas pelos municípios, a APA exige a realização de recolha de amostras de água antes e depois da realização das intervenções solicitadas", porém "neste caso em concreto e face à urgência da intervenção decorrente dos episódios de forte pluviosidade e ao facto de não ter, ainda, iniciado a época balnear, as recolhas das amostras de água foram efetuadas pós intervenção, no dia 4 de maio", responde a APA..Ou seja, a "urgência" pedida e autorizada, e "o facto de não ter, ainda, iniciado a época balnear" fez com que não fossem feitas análises, no dia da "intervenção", que poderiam ou não validar a operação. Só foram feitas no dia seguinte..E aqui surgem as preocupações. "Atendendo aos resultados, a APA realizou nova recolha de amostras de águas na 2.ª feira, dia 8, (...) e irá articular, com o Município de Peniche, a implementação de medidas de mitigação do impacte ambiental destas intervenções procurando constatar a existência de focos de poluição a montante"..Devido ao que aconteceu as "equipas da APA vão acompanhar de "forma muito próxima (..) este assunto (...) no período prévio e no decorrer da época balnear que terá início no dia 1 de junho".