Premium No cinema de Spike Lee as vidas dos negros importam 

Com Da 5 Bloods - Irmãos de Armas, primeira longa-metragem para a Netflix, o cineasta leva quatro veteranos de guerra afro-americanos de volta ao Vietname para libertar fantasmas e continuar a pôr o dedo na ferida do racismo nos Estados Unidos.

Dizer que a estreia de um filme de Spike Lee é oportuna numa altura em que a América está a ferro e fogo depois da morte do cidadão afro-americano George Floyd às mãos da polícia, de tão óbvio, é quase um abençoado lugar-comum. Com ou sem pandemia e manifestações, quando é que o cinema do realizador de Não Dês Bronca não foi oportuno? Basta lembrar a cena desse mesmo filme em que dois polícias asfixiam com um bastão um homem negro, perante o desespero de quem assiste. É esta a permanente atualidade das suas imagens. Não Dês Bronca - na expressão do título original, Do the Right Thing - apanha o cenário do verão 1988 num bairro de Brooklyn. Vale a pena perguntar: o que é que mudou de lá para cá?

O novo Da 5 Bloods - Irmãos de Armas, disponível a partir desta sexta-feira na Netflix, é um excelente título sucessor de BlacKkKlansman (2018), esse que contava a história verídica de um detetive negro infiltrado na organização racista Ku Klux Klan, aproveitando aqui o realizador para introduzir registos do então recente episódio violento de Charlottesville. Agora é a vez de os veteranos afro-americanos da Guerra do Vietname serem honrados, não na grande tela, dada a conjuntura pandémica, mas ainda assim pelo cinema. No sentido da jornada, Da 5 Bloods é uma espécie de Apocalypse Now versão negra, com um nível de delírio mais moderado e menos sangue. Aliás, torna-se evidente tal afinidade (e referência cinéfila inevitável) quando o cineasta usa a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, para citar uma das mais famosas sequências da obra-prima de Coppola, enquanto os seus homens negros sobem o rio no regresso ao lugar que lhes deixou golpes na alma... e mais qualquer coisa.

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