Calçado. Portugal é o quarto maior fornecedor da China

Ministro adjunto e da Economia destaca o crescimento de mais de 70% nas exportações para a China como um exemplo da diversificação de mercados necessária para dar resposta à quebra da procura na Europa.

As exportações nacionais de calçado caíram no ano passado 2,65%, o equivalente a menos 51,9 milhões de euros, mas nem tudo são más notícias: o mercado chinês cresceu 71,58% em valor e 60% em volume. E Portugal é já o quarto maior fornecedor de calçado à China, destacou o ministro adjunto e da Economia como exemplo do trabalho de diversificação de mercados da indústria.

Siza Vieira falava aos jornalistas à margem da visita às empresas portuguesas presentes na Micam, a feira de calçado que neste domingo arrancou em Milão, e, questionado sobre a quebra das exportações, o ministro lembrou as mudanças nas preferências dos consumidores, com a procura de materiais alternativos ao couro, para explicar parte da redução em valor, apesar do crescimento da quantidade de pares exportados. O momento "é difícil", reconhece, mas a solução está em "continuar a apostar na diversificação de mercados e na promoção externa", fundamentais para que a indústria consiga "consolidar este percurso notável das últimas décadas".

Luís Onofre, presidente da APICCAPS, admite a surpresa com o desempenho do mercado chinês que, apesar de estar em crise, importou mais calçado português do que no ano anterior, mas, sobretudo, pagou-o mais caro. No total foram mais de 545 mil pares de sapatos a saírem das fábricas portuguesas para a China, no valor de 22 927 milhões de euros, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística. O preço médio por par foi de 42,06 euros, aumento de quase 7,2%.

Para uma indústria que exporta 1904 milhões de euros para todo o mundo, 23 milhões não parece quase nada. Mas diz o povo que, em terra de cegos quem tem olho é rei, e, por isso, num ano em que praticamente todos os mercados caíram, o crescimento chinês é motivo de satisfação. "Os mercados asiáticos são aqueles que nos estão a sustentar a quebra na Europa", destacou, em declarações ao Dinheiro Vivo, Carlos Abreu, responsável da Calçado Trópico. Com 80 trabalhadores e uma faturação da ordem dos 10 milhões de euros, a empresa de Vila Nova de Gaia esteve na Micam a mostrar as últimas novidades da Perlato, a sua marca de calçado para senhora. Com mais de 800 clientes em todo o mundo, a Perlato tem, assegura, na China, cerca de 10% das suas vendas.

"O setor está a passar por uma fase difícil. Acho que há sapatos a mais no mercado para a procura. A indústria, pelo menos nos mercados tradicionais do calçado, está sobredimensionada para as necessidades atuais. As pessoas não compram tanto como antigamente", defende.

Qual é a solução? "Cada um tem de encontrar o produto e a dimensão certa para poder responder" à situação, defende. No caso da Perlato, a resposta está na especialização "num produto único no mundo" e "devidamente patenteado". A empresa aplicou a técnica de construção das sabrinas das bailarinas, vulgarmente designada por sacchetto, ao sapato alto de senhora e daí resultou um calçado "muito mais flexível e mais confortável". O problema é fazer chegar esta informação ao consumidor e, para isso, está a Perlato a ponderar aderir ao programa Valorização da Oferta promovido pela APICCAPS, que conta com dois milhões de euros de apoio do Compete 2020.

Também Luís Onofre vende para a China, desde 2012, embora admita que o mercado vale apenas 3% ou 4% das suas vendas globais. O problema, diz, são as barreiras alfandegárias. "A China, por ser considerado um país ainda em fase de desenvolvimento, paga muito menos impostos no acesso ao mercado europeu do que os nossos produtos que, com os impostos, chegam lá quase ao dobro do preço", explica.

A grande novidade de Luís Onofre na Micam é o lançamento de uma linha de neve, que pode ser usada no dia-a-dia. "Há uma tendência clara para o antifashion, para os artigos mais casuais. É uma coleção com muitas solas de borracha e em que procurei incorporar materiais mais sustentáveis, uma área em que a nossa indústria está na vanguarda", diz o empresário de Oliveira de Azeméis. Em termos de investimentos, Onofre não esconde que gostaria de abrir lojas no estrangeiro, eventualmente em França ou nos Estados Unidos, mas que o momento exige que mantenha "os pés bem assentes na terra". "É uma questão de encontrar as parcerias certas", garante.

A Fly London também vende na China, mas Amílcar Monteiro desvaloriza o peso do mercado chinês, sublinhando que é "marginal" nas vendas do grupo, que caíram 14% em 2018. No ano anterior, a Kyaia, a proprietária da marca, tinha faturado 65 milhões de euros. "Foi um ano muito difícil. Não há uma causa que se possa apontar, são vários os fatores, desde o clima e o seu efeito negativo nas vendas de calçado já em várias épocas seguidas, aos fatores políticos, como o Brexit, ou a grande crise no retalho tradicional. As falências no Reino Unido aumentaram no ano passado 25% e sinto isso no calçado, temos uma infinidade de clientes que, nos últimos meses, têm fechado portas. Em França a situação no comércio é dramática, com a questão dos coletes amarelos... Na verdade, os mercados maduros sofrem todos dos mesmos sintomas, não há um em contraciclo", garante o empresário.

A Overcube, a plataforma de vendas online do grupo, nasceu, precisamente, para dar resposta ao novo mundo do comércio online. Presente na Europa desde março de 2018 e nos Estados Unidos desde 21 de janeiro de 2019, a Overcube vai alargar a sua área de aposta à Austrália e Nova Zelândia até ao final do ano.

"Há uma nova faixa de consumidores que já nasceram com o telemóvel na mão, fazem tudo online, desde pagar impostos a ir ao banco. É uma geração que não vai às lojas e, por isso, é previsível que o fenómeno se vá sentir ainda com mais impacto nos próximos anos", diz Amílcar Monteiro, que antecipa um 2019 também "muito difícil". "É preciso correr mais e temos de nos ir ajustando a esta nova realidade. E, claro, de investir no produto. On ou offline, o produto tem de ter as características certas. Tem de ter qualidade, tem de proporcionar conforto, senão não vende", frisa.

*A jornalista viajou a convite da APICCAPS

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

O Banco de Portugal está preso a uma história que tem de reconhecer para mudar

Tem custado ao Banco de Portugal adaptar-se ao quadro institucional decorrente da criação do euro. A melhor prova disso é a fraca capacidade de intervir no ordenamento do sistema bancário nacional. As necessárias decisões acontecem quase sempre tarde, de forma pouco consistente e com escasso escrutínio público. Como se pode alterar esta situação, dentro dos limites impostos pelas regras da zona euro, em que os bancos centrais nacionais respondem sobretudo ao BCE? A resposta é difícil, mas ajuda compreender e reconhecer melhor o problema.