Dois milhões por hora. Desde 2010 que as famílias não se endividavam tanto

A cada hora que passa, os particulares pedem dois milhões de euros emprestados. Crédito à habitação está em máximos da década. No crédito ao consumo, o recorde é de 15 anos.

O ano de 2019 está a bater recordes no crédito. As famílias pediram emprestado para habitação e para consumo e outros fins um total de 14 680 milhões de euros entre janeiro e outubro, ou seja dois milhões de euros por hora. São mais 1197 milhões de euros do que o montante concedido no mesmo período de 2018 e um recorde da década. Só em outubro, os bancos emprestaram às famílias quase mil milhões de euros em novos créditos à habitação. O valor eleva para 8522 milhões o montante concedido para compra de casa desde o início do ano. É o valor mais alto desde 2010.

No crédito ao consumo, a tendência também é de subida. Os bancos emprestaram 526 milhões de euros às famílias só em outubro, segundo dados divulgados ontem pelo Banco de Portugal. Nos primeiros dez meses de 2019, foram concedidos 4278 milhões, o valor mais alto registado nos últimos 15 anos e o segundo mais elevado de sempre, desde que existem dados disponíveis. Os novos empréstimos concedidos a particulares para outros fins recuaram para 226 milhões de euros, menos 20,4%.

As baixas taxas de juro e a descida do custo do crédito incentivam os consumidores a endividarem-se. Por outro lado, as taxas de juro em mínimos de sempre pesam na rentabilidade dos bancos que acabam por aumentar a concessão de crédito para obter mais receita. Por sua vez, a concorrência entre os bancos tem contribuído para a descida dos spreads.

A taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação registou no terceiro trimestre de 2019 três meses consecutivos de mínimos históricos. Em outubro, subiu ligeiramente - 0,4 pontos base - para 1,04%. No crédito ao consumo e para outros fins, as taxas de juro médias situaram-se em 6,82% e 4,17%, respetivamente.

Risco elevado para bancos e para famílias

A subida dos novos contratos de crédito é uma realidade apesar da recomendação feita pelo Banco de Portugal em meados de 2018 para apertar a concessão de empréstimos à habitação e ao consumo. O Banco de Portugal está, sobretudo, preocupado com a exposição dos bancos à sobrevalorização do mercado imobiliário português. No mais recente Relatório de Estabilidade Financeiro, o supervisor alertou que a subida dos preços das casas acima do valor real dos imóveis é um dos riscos à estabilidade do setor.

Em anteriores crises financeiras, envolvendo o mercado imobiliário, também se registou um aumento do crédito, que, por sua vez, suportou o aumento dos preços das casas. O valor de venda das habitações em Portugal continua a aumentar, apesar de mostrar uma desaceleração. Ainda assim, estão 26,9% acima dos níveis pré-crise, em 2007. No terceiro trimestre deste ano, a subida dos preços foi 14,7%, face ao mesmo período de 2018, segundo a Confidencial Imobiliário.

Uma nova crise pode levar famílias a começar a falhar o pagamento dos seus empréstimos, o que deixaria os bancos num cenário de subida do crédito malparado. E, apesar de os bancos em Portugal terem vindo a desfazer-se de empréstimos "tóxicos" nos anos mais recentes, ainda apresentam um elevado nível de crédito malparado, segundo o Banco de Portugal.

Apesar das preocupações, segundo o supervisor, "a evidência disponível continua a apontar para que os novos empréstimos concedidos" estejam "largamente associados a classes de risco mais baixo, bem como para uma política de concessão de crédito com maior diferenciação de spreads por perfil de risco", face "ao observado antes da crise".

"Contudo, a sobrevalorização no mercado imobiliário residencial, em especial em algumas áreas geográficas e segmentos de mercado, aconselha igualmente a alguma prudência na definição dos critérios de concessão de crédito por parte dos bancos, nomeadamente, num quadro de redução das já baixas taxas de juro das novas operações de crédito à habitação", avisou.

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