Os lusodescendentes que combatem a discriminação

Um grupo de 50 jovens participa nesta semana no Encontro de Lusodescendentes, nas Caldas da Rainha. A iniciativa da associação Cap Magellan quer criar uma rede, com técnicas de empregabilidade, que possam ser usadas nos diversos países. A isto junta-se um projeto solidário que liga a inclusão de refugiados e o emprego, e a montante, o objetivo de sempre: esbater o preconceito contra os emigrantes portugueses.

"Eu sabia que existia a discriminação de ser emigrante, mas nunca a tinha sentido na pele. Desde que emigrei, passei a senti-la." Ana Monteiro resume desta maneira a importância de falar sobre o preconceito ao longo dos próximos dias, no encontro de jovens lusodescendentes que decorre nas Caldas da Rainha ao longo de toda a semana, numa iniciativa da associação Cap Magellan - que nasceu em Paris precisamente pela mão de um grupo de estudantes, "um bocadinho farto dos clichés a que se associam os emigrantes e os seus filhos". São 50 jovens que vêm de oito países da Europa, a que se juntam ainda alguns vindos de países lusófonos.

Ana Monteiro está entre as mais velhas do grupo. Tem agora 40 anos e faz parte da vaga de emigração no período da troika. Deixou Lisboa (de onde é natural) em 2011 e rumou para o Reino Unido, onde trabalha com imigrantes. "Faço desenvolvimento comunitário e trabalho com filhos de imigrantes de vários países, que quando chegam à escola não sabem falar a língua e eu ensino inglês", conta ao DN, num português que se mantém sem sotaque. Vive perto de Belfast, no meio de uma imensa comunidade imigrante, para a qual contribuem muitos portugueses. Dessa amálgama fazem parte os que não se identificam com a divisão entre católicos e protestantes, e é aí que têm nascido muitos projetos sociais. Em Portugal, Ana Monteiro era animadora social, mas nos últimos tempos trabalhava em animação turística. Quando perdeu o emprego, fez como milhares da sua geração: emigrou. Escolheu a Irlanda do Norte porque sabia que lá existia um curso que a habilitava a trabalhar com jovens

Ana tencionava regressar a Portugal neste ano, mas a pandemia trocou-lhe as voltas. No meio dessa vida adiada, uma amiga falou-lhe do encontro. Ao longo dos próximos dias, vai partilhar com aquela meia centena de jovens a sua experiência, não apenas como emigrante de outra geração, mas também do trabalho com imigrantes e refugiados. "Continuam a chegar imigrantes todos os dias, porque existe muita falta de trabalho em todo o lado", conta Ana Monteiro, aliando o relato do que vê naquela cintura industrial: "Trabalham horas e horas a fio, nas fábricas. É impressionante." Uma espécie de retrocesso das condições de vida e do mundo laboral, como se fosse uma nova versão do bidonville em Champigny, nos anos de 1960.

Faltam projetos sociais

Sabendo que em Portugal as condições de trabalho e de vida são, para muitos, um rasto de precariedade e pobreza, Ana gostava de "fazer alguma coisa, algum projeto, para que não exista tanta injustiça social". Quando nesta terça-feira se encontrar com os governantes que vão participar no programa do encontro, pretende dizer-lhes que "tem de haver mais dinheiro para projetos sociais e apoio aos imigrantes, aos que vêm dos antigos PALOP, aos refugiados. Temos de ser uma sociedade mais multicultural e não tão fechada. É preciso desmistificar essa ideia de que os imigrantes vêm para cá para roubar trabalhos. Muito pelo contrário. Eles vêm fazer trabalhos que ninguém quer." Porque aos 40 anos, neste vaivém, "sinto um bocadinho na pele o que é ser cidadão de segunda".

Adeline Afonso, 23 anos, estava a morar temporariamente no Brasil, no âmbito de um intercâmbio escolar, quando a pandemia a obrigou a regressar a Paris. Nasceu numa cidade perto de Lyon, mas na adolescência acompanhou os pais no regresso a Portugal, em Vila Flor, no distrito de Bragança. Mas a sede de rodar pelo mundo levou-a de novo a Paris, para frequentar a licenciatura em História, na conceituada Sorbonne. É lá que está a fazer mestrado em História Contemporânea e Relações Internacionais. Nos tempos livres, cruzou-se com a Cap Magellan.

Desde 2018 que acompanha os eventos, de modo que quando ouviu falar num encontro europeu de jovens lusodescendentes inscreveu-se na hora. Participou no primeiro, no ano passado, na sua região de Trás-os-Montes, e não hesitou em voltar a integrar o grupo. "Gostei imenso. É uma oportunidade de conhecer lusodescendentes, jovens com percursos muito diferentes uns dos outros." Os temas também a atraem, sobretudo um deles, que tem a ver com a empregabilidade dos jovens. Sabe que lidar com (mais) esta crise provocada pela pandemia não vai ser fácil, quando pensa em ingressar no mundo do trabalho. Porque "gostava muito de trabalhar em vários países, pelo menos enquanto sou jovem. Depois, a longo prazo, gostava mesmo de voltar a Portugal". Porque a cultura e a história do país a fascinam, bem como a literatura. É fiel leitora de Mário Zambujal, mas junta-lhe autores lusófonos como o angolano José Eduardo Agualusa ou o moçambicano Mia Couto. Entre os pontos fracos do país, pesam a precariedade e os baixos salários.

A falta de visibilidade da língua

Aos 29 anos, Marta Bernardino procura no encontro de lusodescendentes a partilha de interesses e conhecimento com outros pares, de outros países. Afinal, têm muito em comum. Também ela já se sentiu estrangeira lá e cá, como tantas vezes acontece com os filhos de emigrantes. "Quando entrei para a universidade fui pedir a nacionalidade belga, porque só tinha a portuguesa, apesar de ter nascido lá. E é um pouco estranho, porque identifico-me muito com Portugal, sempre falámos português em casa, com os meus pais." Desde que nasceu que as férias sempre foram passadas em Portugal, no Cercal do Alentejo, onde mora o resto da família. Mas o facto de vir apenas uma vez por ano nunca lhe bastou para o tanto que gosta do país e do muito que quer saber dele. Acompanha a atualidade através da RTP Internacional e sabe que "o país atrai menos a imigração por causa da folha salarial. Em compensação, temos um clima e uma segurança que dão boa qualidade de vida". Marta sabe, por experiência própria (pela imigração de nepaleses e paquistaneses que moram no Alentejo) que nem sempre é fácil aos portugueses de outra geração compreenderem as culturas diferentes. Ainda assim, acredita que "por vezes há certas coisas em que a mentalidade cá é mais aberta". Quando pensa no país que gostava de encontrar, no futuro, Marta imagina-o "com maior promoção do ensino português no estrangeiro. Ele existe, mas tem pouca visibilidade. Têm de ser os pais a procurar. Penso que nesse aspeto o trabalho da embaixada poderia ser maior".

Os pais emigraram na década de 1980 para Bruxelas, na Bélgica, e foi lá que nasceu - e fez todo o percurso académico. Já é professora de História e Geografia há vários anos, os últimos dois no Congo.

Um dos mais jovens do grupo é Dinis Silva, 19 anos, que emigrou com os pais para a Dinamarca apenas há seis anos. Natural de Setúbal, ainda fez o 7.º ano de escolaridade em Portugal, mas é em Copenhaga que agora se prepara para entrar na universidade. Não foi fácil para um jovem de 13 anos essa adaptação, mas agora conta com orgulho ao DN que já sabe "falar um pouco de dinamarquês, que é muito difícil; é como ter duas batatas na boca".

Dinis mantém contacto permanente com os amigos em Portugal, por telefone e internet. A família vem de férias a cada dois anos, e foi a mãe quem descobriu, no Facebook, este encontro de lusodescendentes, num grupo de portugueses em Copenhaga. "Acho que vou gostar bastante. Espero conhecer novas pessoas e mais culturas", sublinha o jovem Dinis. Não espera regressar a Portugal definitivamente, mas isso não o impede de acompanhar a vida do país e dos que aqui moram.

"O encontro de jovens lusodescendentes realiza-se há vários anos, mas tem vindo a sofrer adaptações. Primeiro era só um dia, em Leiria, com formações durante o dia e à noite uma ação de prevenção rodoviária no Estádio, durante um festival de música. Mas à medida que o tempo foi passando, fomos desenvolvendo o conceito, o programa, e definindo melhor os objetivos", conta ao DN Luciana Gouveia, delegada-geral da Cap Magellan. Desta vez o encontro dura toda a semana, mantém-se o foco: "Reunir jovens lusodescendentes a residir fora de Portugal, com portugueses de Portugal, e assim combater o estereótipo e os clichés, para concluirmos que a portugalidade e a cultura são comuns." O projeto é um encontro europeu de 50 jovens lusodescendentes e animadores de juventude em Portugal, durante cinco dias, vindos de oito países: França, Portugal, Espanha, Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca e Reino Unido.

Neste ano subordinado ao tema "Incluir a diferença : favorecer a empregabilidade de todos os jovens na Europa", o encontro procura "valorizar o bilinguismo, a dupla cultura e a multiculturalidade que têm em comum muitos dos jovens e animadores de juventude lusodescendentes". O objetivo é também "criar uma rede europeia de animadores de juventude lusodescendentes e lusófonos, pessoas que trabalhem com os jovens e que estão em contacto com pessoas ativas na política, associações e empresas originárias de vários países, para comunicar e partilhar experiências individuais e coletivas". E por isso cada um dos 50 jovens receberá uma formação composta por seminários e atividades informais que tratarão de empregabilidade. Além disso, "será construído pelos participantes um projeto comum de inserção profissional, com carácter solidário, destinado aos jovens refugiados da região, em parceria com a AIRO - Associação Empresarial da Região Oeste e uma empresa local, a Confeitaria Monte Verde, com o apoio da Plataforma de Apoio aos Refugiados.

Uma história com 30 anos

Fundada em Paris a 24 de novembro de 1991, a associação Cap Magellan é a primeira e maior associação de jovens lusodescendentes, lusofónos ou lusófilos, que partilham o mesmo desejo de promover a língua portuguesa e a cultura lusófona. "É uma associação pioneira em vários projetos e ações que valorizam as vantagens de uma dupla cultura numa sociedade em plena mutação", sublinha Luciana Gouveia, que recorda esse passado de uma associação com mais de 30 anos: os primeiros fóruns franco-portugueses sobre a educação, a cultura e o emprego desde 1992, os concertos de artistas e grupos que, até então, não entravam nas comunidades e nas associações portuguesas. Pelo Bataclan (que ficaria conhecido de todos bem mais tarde, à conta de um atentado) passaram Resistência, GNR, Xutos & Pontapés, entre outros.

"Eram estudantes que não se reviam nas associações mais tradicionais, que queriam viver a cultura portuguesa além do folclore, da gastronomia e do futebol", recorda Luciana. Entre os milhares de eventos que fazem a história da Cap Magellan, há uma causa que está a mobilizar a associação: "Há uma quota de 7% para o ensino superior em Portugal, dedicada a lusodescendentes, que nunca é preenchida. Dos três mil lugares, no ano passado foram preenchidos 250", revela Luciana Gouveia, que destaca o lado burocrático do processo, afastando assim muitos jovens que poderiam entrar nas universidades portuguesas.

Quando, nesta terça-feira (11 de agosto), os secretários de Estado das Comunidades e da Juventude e Desporto estiverem nas Caldas da Rainha com este grupo, este será um tema a que não poderão fugir.

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