Num cinema perto de si...

No primeiro semestre de 2018, a frequência das salas escuras baixou - mas o número de filmes estreados aumentou...

Sou dos que pensam que a reflexão sobre a cultura cinematográfica chegou, em Portugal, a um dos seus pontos mais baixos. O assunto é suficientemente complexo para, pelo menos, evitarmos a estupidez ancestral dos que gostam de proclamar que quando a "crítica" dá cinco estrelas a um filme, optam por não ver - começando por Apocalypse Now, imagine-se a ignorância dessas pessoas...

Enfim, é uma caricatura. Lembremos apenas que há questões sérias e graves envolvidas - desde o poder mediático e social de outros modelos narrativos (com inevitável destaque para a formatação telenovelesca) até às formas agressivas do populismo jornalístico (muito ligado, precisamente, ao imaginário da telenovela e dos "famosos").

O problema, repare-se, não pode ser fulanizado (seja para que lado for). Não se trata de demonizar Tom Cruise porque consegue algumas centenas de milhares de espectadores - aliás, Missão Impossível: Fallout é, por certo, um dos grandes espetáculos do ano. O problema é a marginalidade estrutural e simbólica em que vive todo um importante setor do mercado. Um exemplo apenas: Happy End, de Michael Haneke.

É um dos meus "cinco estrelas" absoluto? Sim, é verdade. Mas faço questão em sublinhar que sou o primeiro a reconhecer (e celebrar) o facto de o trabalho de Haneke sobre a Europa dos refugiados ser visceralmente discutível, quer dizer, capaz de suscitar a inteligência de pontos de vista divergentes. A questão que se coloca é de outra natureza. A saber: como é que o mercado e, com ele, o espaço mediático promovem a reflexão sobre um filme tão complexo e atual como Happy End?

Insisto: as questões envolvidas são muitas, incluindo o facto de os sistemas "alternativos" de difusão (plataformas de aluguer, streaming, etc.) atraírem cada vez mais consumidores - todos nós, claro. Deixo apenas uma nota sobre uma estatística que não tem sido muito referida.

Assim, há poucas semanas, soube-se que os números oficiais registam uma baixa significativa de frequência das salas: no primeiro semestre de 2018, os 6,5 milhões de espectadores nas salas escuras correspondem a uma quebra de 17% em relação a igual período do ano passado. Em todo o caso, importa perguntar: ao mesmo tempo, a oferta aumentou ou diminuiu?

Pois bem, aumentou: no primeiro semestre deste ano estrearam-se em Portugal 195 filmes (contra 176 em igual período de 2017). Na prática, uma média superior a um título por dia - isto num país em que a média de frequência das salas por cada cidadão é pouco mais de um filme... por ano.

Dá que pensar esta inadequação entre oferta e procura. Na prática, os filmes têm um tempo de exibição cada vez mais curto, favorecendo o seu banal desconhecimento. Outro exemplo... Não é verdade que, num país de raízes católicas como o nosso, muitos de nós somos sensíveis aos temas da fé e, mais do que isso, à valorização da dimensão espiritual da vida humana? Neste contexto, qual o impacto de No Coração da Escuridão, de Paul Schrader, um filme (trailer) gerado na convulsão dessas questões? Quantos espectadores souberam, efetivamente, da sua estreia? Qualquer resposta envolve fatores de natureza económica e cultural. E não se trata de favorecer as velhas e pueris dicotomias: é preciso pensar o mercado como fator cultural, por excelência.

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